MaisOpinião - Luís Monteiro

Huntington e a sua família


Luís Monteiro - Sunday, September 08, 2013

 

 

 

“Esta é uma relíquia de família que tem sido transportada pelos meus antepassados desde gerações muito remotas”.

Foi com esta frase misteriosa que George Huntington deu início, em 1872,  a uma das conferências mais marcantes na história da Neurociência.

Mas recuemos no caminho percorrido pelo médico norte-americano.

George Huntington nasceu em meados do século XIX (1850) numa aldeia em Long Island e seguindo o ofício do pai e do avô ingressou no curso de medicina na universidade de Columbia.

Um dia, acompanhando o pai em visita médica domiciliária, Huntington ficou impressionado com os movimentos involuntários de uma doente. Mais tarde, partindo do original grego que significa dança, utilizou o termo coreia para descrever esses movimentos descoordenados.

E assim regressamos à conferência de 1872, no Ohio, que o clínico intitulou, precisamente de “On Chorea”.

Para além da capacidade de sintetizar as características desta patologia incapacitante, o célebre médico compreendeu tendo em conta as suas observações e os registos do seu avô, o Dr. Abel Huntington (1778-1858) e do seu pai, o Dr. George Lee Huntington (1811-1881) o carácter hereditário dominante da patologia.

E foi assim que apesar da sua curta vida (faleceu aos 66 anos de idade) o nome do clínico ficaria para sempre como sinónimo de uma das mais estudadas patologias do movimento.

A descoberta da doença de Huntington está aqui demasiado simplificada e resumida pelo que recomendo vivamente a leitura do excelente livro Histórias da Neurociência do Prof. Dr. Luís Bigotte de Almeida.

Esta fascinante história reforça, a meu ver, a importância do estudo da família não só como ferramenta para decifrar os enigmas da fisiopatologia mas também como meio imprescindível no trabalho clínico diário do médico de família.

Tal como é salientado no relato de caso da edição Março/Abril 2013 da Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, a família pode (ainda que noutro âmbito) ser a “principal doença”.

E, por isso, vale a pena reler um dos artigos basilares da nossa especialidade, do Prof. Dr.  Luís Rebelo, em que o autor defende que o genograma familiar é o “bisturi do médico de família”.

Sendo assim, deixo a pergunta em jeito de desafio: quando será possível (em conjunto com os restantes métodos de avaliação familiar) construir o genograma familiar integrado no processo clínico electrónico?

Luís Monteiro, Médico de Família
 

Comments
Philippe Botas commented on 11-Sep-2013 06:51 PM
Gostei particularmente desta crónica. Enaltece a verdadeira essência do ser "Médico de Família". Simples e entrelinhas diz muita coisa.


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