MaisOpinião - Luís Monteiro

“Liberdade”


MGFamiliar ® - Saturday, August 17, 2019



O soco, certeiro, surpreendeu tudo e todos. A sala de reuniões que estava até então quase silenciosa - as palavras trocadas eram quase murmúrios - foi preenchida pelo estrondo do corpo no chão.
O Dr. João sentia-se livre, ainda que quase instantaneamente tivesse percebido que ao derrubar assim o director, nada mais seria o mesmo.
Os presentes naquela reunião ficaram siderados perante a ferocidade. O cirurgião era conhecido pela calma férrea e ponderação lendária. Como explicar o sucedido? Que caminhos tinham sido percorridos até aquele murro? Seria um acto heroico? Ou gesto bárbaro? Estas e outras perguntas permaneceriam um mistério para muitos naquele hospital. O episódio alimentaria um sem número de teorias partilhadas pelos corredores, blocos operatórios e salas de reuniões.
Hoje, o leitor tem uma escolha a fazer. Pode terminar aqui a leitura e deixar que o mistério adense cenários. Afinal quem precisa saber tudo? Ou pode avançar umas linhas para juntos percebermos as rodas e engrenagens que antecederam a já célebre reunião.
Recuemos, então, a narrativa alguns meses. Mais precisamente, sete meses e duas semanas.
Observemos o jovem médico na sua corrida matinal pelo jardim da cidade. Nas primeiras horas da manhã poucos ocupavam o relvado. Apenas um casal de namorados trocava lânguidos olhares, e um grupo de sexagenários praticava tai-chi.
Apesar do curto percurso, havia um travo a vitória estampado no rosto do clínico. É que para chegar ali tinham sido necessárias duas cirurgias e longas sessões de fisioterapia. Foi, portanto, com particular agrado que, ao entrar na padaria do bairro, ouviu a frase do Sr. Aníbal “Bom dia, doutor! De volta às corridas?”.
João preparava-se para responder, mas a resposta banal nunca chegou a ser proferida. O suor frio nas palmas das mãos, o bater descompassado e a espiral interior tinham ditado a fuga repentina.
Em breves segundos estava de volta à estrada e em meia hora regressava a casa.
Afinal, o período de recuperação estava ainda no início. Naquele dia, a custo, marcou a primeira consulta com o psicólogo há muito recomendado. Juntos perceberiam que o vislumbre do agressor (ou de alguém remotamente semelhante) era o motivo recorrente para os ataques de pânico. Durante as consultas tinha finalmente encontrado o ambiente seguro para descrever o dia em que tinha sido atacado no serviço de urgência. Após um turno de 24 horas, o cansaço acumulado permitia apenas uma passagem de turno mecânica. Parecia um dia banal marcado pelo caos crónico e endémico. Até que um familiar em fúria se encaminhou com uma faca em punho para uma médica interna. Num acto impulsivo, sem qualquer consciência heroica, João defendeu a colega e ganhou algumas facadas em retorno.
Após a mente minimamente equilibrada o médico embrenhou-se na defesa da segurança para doentes e profissionais. Perante o silêncio cínico da estrutura, denunciou os casos ocultos via comunicação social através da rara imprensa não populista. E era por isto que, pela primeira vez, o cirurgião geral se encontrava naquela mesa de reuniões.
Após quarenta minutos de propositada espera a sala ficou repleta de rostos fechados “O Sr. Director demora só uns minutos. Está com uma chamada importante de Lisboa” disseram imponentemente. Ele entrou a passos largos, sorriso rasgado, fato de linho, de corte elegante ainda que com uma gravata absolutamente banal.
“João, há quanto tempo! Cinco anos desde o último jantar de curso?”, perguntou em tom casual.
Na verdade tinham passado sete anos e eles nem tinham trocado mais do que as palavras da praxe destes reencontros “Onde estás agora? Casado? Divorciado? Filhos?”.
No caso particular do Director António as respostas eram sempre circulares, evasivas e fúteis. O resumo que todos os colegas da faculdade faziam era bem mais directo. Após um medíocre percurso académico o “clube” protegeu, como era esperado, o seu delfim. E assim, vários lugares de topo tinham sido os degraus no seu currículo, repleto de linhas em que a ausência científica e clínica era evidente.
O tom de voz informal passou rapidamente para um irritante monólogo.
João assistia a tudo como um espectador de uma farsa montada. Ouvia apenas frases soltas “Já sei que escreveste no portal oficial, por isso agora para quê a pressa?”(...) “Sabes bem que a imagem do hospital é já frágil” (...) “Estamos na mesma equipa”.
A cada palavra, a fúria parecia aumentar e a mão direita de João era agora um punho cerrado e impaciente.
E foi assim que João imaginou um murro épico no maxilar do colega.
Deixou a fantasia bélica esfumar e, simplesmente, levantou-se da cadeira e abandonou a sala. Ele ainda não sabia, mas aquela seria a última decisão naquele hospital. O João estava, finalmente, livre.

Por Luís Monteiro




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