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Os heróis mesmo, mesmo, de verdade

MGFamiliar ® - Tuesday, October 23, 2018





Quem, destas últimas gerações, não cresceu no convívio fantástico de super-heróis? Quem nunca ouviu falar dos poderes inigualáveis do Super-Homem, da Mulher Maravilha, do Homem Aranha ou de um sem fim de outros seres espetaculares?

Lembrar-se-ão dos seus poderes fenomenais, certo? Uns podiam voar, outros tinham uma força descomunal, ainda outros com grande velocidade. Poderes quase infindáveis que faziam qualquer criança (e adultos) sonhar.

Todos aqueles poderes tinham como objetivo último salvar pessoas. Era o Super-Homem a salvar o autocarro da escola antes do mesmo cair no precipício, ou o Batman a libertar a rapariguinha das garras do Joker, ou o Homem-Aranha a arremessar uma teia para amparar a queda da sua amada Mary Jane. Todos com o mais altruísta dos objetivos: salvar o mundo e a humanidade.

O que todos também tinham em comum? Eram alter egos. Alguém aparentemente normal mas que, afinal, tinha todos aqueles superpoderes.

Mas se todos aqueles são personagens fictícios, existem outros verdadeiros, heróis de carne e osso, e que também salvam vidas. Olhem, por exemplo: eu. Eu, sim! Eu mesmo. O meu alter ego é o “Homem-Click”.

O Homem-Click chega ao trabalho e traveste-se. Põe uma roupa branca por cima da civil e começa a utilizar o poder do click. Primeiro, liga o computador que reluta em funcionar (tal como o nosso herói às 8 da manhã). Quando o aparelho finalmente acorda, introduz uma das mais de 30 senhas secretas que a sua entidade patronal gentilmente lhe impôs.  Clica no teclado do telefone e chama pelo nome da primeira pessoa. Esses serão os primeiros dos inúmeros “clicks” que ele vai lançar nos próximos 15 minutos. Se há queixas, ele clica nos códigos; se há doenças crónicas ele clica em dezenas (quiçá centenas) de quadradinhos para alguém, num Headquarter qualquer, considerar que a consulta foi “bem feita”; se for uma criancinha, os clicks disparam para quantias astronómicas. Ele quase podia jurar que já tem uma tendinite no extensor do indicador tal as vezes que o dedo se põe em riste para martelar o botão esquerdo do rato.

No fim dos intermináveis clicks, no exíguo tempo que lhe sobrou para realmente poder observar a pessoa à sua frente, o nosso super-herói descobre uma doença que, infelizmente, nenhum daqueles quadradinhos previa ou prevenia. Por mais incrível que pareça, não foi nenhum click no nome de um exame, ou de um medicamento, ou de um password, ou de um procedimento estatístico, ou outro nada virtual, que pôde salvar aquela pessoa que lhe veio pedir a sua ajuda. Paradoxos de um sistema criado por quem não sabe prescrever um analgésico para uma dor de cabeça ou tem dificuldades em perceber o terreno inóspito por onde caminha este herói tão mundano.

O nosso Homem-Click salvou o dia novamente, mas, para isso, apenas precisou utilizar as suas armas pouco secretas e que não lhe cabem no nome fictício: o seu próprio saber, a atenção e o bom senso.

Por Cláudio Carril 





Maternidade e Medicina: a perspetiva de uma interna

MGFamiliar ® - Sunday, October 14, 2018





Ser médica e ser mãe são características que fui desenvolvendo ao longo do meu internato e que já não se conseguem dissociar, podendo encontrar nas duas algumas semelhanças. Algumas competências desenvolvidas em termos de assertividade ou estratégias motivacionais, como quando quero que o meu filho coma os vegetais cozidos, podem facilmente ser transportas para a entrevista motivacional com o utente obeso em que queremos que perca peso. Encetar uma intervenção breve num fumador, com estratégias de abordar e aconselhar, que são facilmente transportas para a birra do supermercado.

Ambas as tarefas requerem colocar o outro em primeiro lugar e estar totalmente presente. A vida de médico interno é complicada a tantos níveis, com os números de horas de trabalho (assistencial e não assistencial), as expectativas, os horários, que nem dão tempo para uma pausa para uma ida à casa de banho. Ao mesmo tempo ser mãe trás consigo horas sem dormir, preparar refeições e um sem número de tarefas… mas nos dois casos, o foco de atenção deve ser sempre ou o nosso filho, em casa, ou o utente, no consultório.

Posso dizer que ser mãe fez de mim uma melhor médica e ser médica faz de mim uma melhor mãe. Ambos os papéis requerem sentido prático e conhecimento de situação. As consultas de saúde materna ou saúde infantil acabam por saltar dos livros teóricos para o conhecimento prático, aliando o melhor dos dois mundos.

Ser-se imaginativo e inventivo é uma das competências tanto da mãe como da médica. Aprende-se a contar histórias de “era uma vez…” ao mesmo tempo que subsiste o desejo de aprender mais com o último artigo do New England. A vontade de crescer e se desenvolver está na base da curiosidade diária.

“Ter filhos durante o internato pode dar muito jeito!” Na reta final deste percurso, não me parece que a solução de qualquer problema, de internato ou outro, possa ser resolvido com um filho. Muito pelo contrário. Eles acarretam sempre uma carga superior de tarefas e organização ao dia-a-dia. Como mãe, é necessária uma planificação mais detalhada para atingir os objetivos propostos. Quando me sento em frente ao computador às 7h da manhã, com o meu café ao lado e preparo a agenda da semana, tenho de ver com muita atenção se não estou a descurar nenhum dos meus papéis pessoais e familiares, com alguma agilidade mental porque afinal às 7h15 começam a despertar cá em casa.

Agora, se me dizem “a melhor altura para ter filhos é durante o internato”, pois não sei, só conheço esta versão da história, porque foi assim que escolhi fazer. E a escolha foi sempre no sentido da família, mesmo na escolha da especialidade, pelo que me parece ter sido pelas motivações certas, de forma genuína e verdadeira.

Por Ana Clara Moreira





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