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Tempo real de uma consulta

MGFamiliar ® - Wednesday, June 27, 2018




O tema na ordem do dia é o número de utentes por Médico de Família e os tempos de consulta que realizam. Muitas pessoas, da classe médica ou fora dela, têm algo a dizer sobre o assunto, mas muitas vezes sem conhecer a realidade de quem as pratica.

Segundo o livro “A consulta em 7 passos”, a consulta inicia-se mesmo antes da chegada do utente ao gabinete. Entre ver o historial do utente e o que está programado para a consulta, temos a preparação da mesma. Assumindo que o computador está ligado e que o material necessário para a realização de consultas está no gabinete (o que muitas vezes não acontece…), chamamos o utente e aguardamos que chegue ao consultório. Se tiver dificuldades na mobilização ou não ouviu bem o número do consultório, perdem-se minutos de consulta. Cumprimentamos o utente e convidamo-lo a sentar-se. Até aqui o processo é semelhante ao das outras especialidades médicas. Já a colheita de anamnese na Medicina Geral e Familiar é um desafio, visto que, ao contrário da maioria das especialidades hospitalares, os utentes trazem-nos uma panóplia de queixas de vários sistemas: queixas gastrointestinais, cefaleias, alterações do sono, perturbações de humor, queixas álgicas, alterações menstruais, … Todo um mundo por descortinar na entrevista! Junta-se ainda a máxima que nos é dita na faculdade: “o doente não vos diz isto se não perguntarem”. Então, além do que o utente procura ver esclarecido, é papel do Médico de Família procurar outros sintomas que possam estar relacionados com o que nos conta ou, numa atitude preventiva, investigar outros problemas de saúde (por exemplo, perguntar aos homens quantas vezes urinam por noite), nunca esquecendo a empatia e a validação das emoções. Neste momento também exploramos os hábitos dos utentes. Tanto o álcool como o tabaco nunca são só questões de “sim” ou “não”. Devemos quantificar o consumo, avaliar a motivação para a mudança de atitude e dar conselhos no sentido dessa mudança, realçando os riscos da continuação do hábito e os benefícios em suspendê-lo. Em casos de abstinência, sempre dar reforço positivo. As alergias também são pesquisadas habitualmente, com registo no SClinico® das mesmas. Caso o doente seja seguido em consultas hospitalares, o Médico de Família também tenta aceder a este registo através da Plataforma de Dados em Saúde (PDS). Este programa nem sempre está operacional e nem todos os colegas dos serviços hospitalares fazem registos que possam ser transferidos para a plataforma. Muitos dos nossos doentes são seguidos em mais do que uma consulta hospitalar e por vezes em hospitais diferentes, pelo que obriga ao acesso de processos diferentes.

Depois passamos ao exame físico. Em algumas consultas temos previamente dados de enfermagem (habitualmente pressão arterial e peso). No entanto, na maioria das consultas de Saúde de Adultos, esta avaliação é feita pelo Médico de Família. Perante uma ou múltiplas queixas do utente, devemos ainda fazer o exame físico dirigido a cada uma dessas queixas. Neste processo algumas tarefas são morosas: a necessidade do utente se despir, de passar para a marquesa, de realizar um exame neurológico completo, uma auscultação cuidada, uma avaliação de vertigem, um exame ginecológico ou toque retal, entre outras.

Terminando a avaliação dos sinais e sintomas que encontramos, passamos ao planeamento das medidas a tomar. Podemos precisar de pedir exames de diagnóstico, sendo que o pedido de alguns exames é difícil pela maneira como estes estão codificados no sistema. Depois vem a parte da impressora, porque neste momento ainda é necessário imprimir as requisições. Muitas vezes o tinteiro ou o papel acaba ou o documento simplesmente não passa para a impressão.

O receituário é prescrito através do PEM. Se pensam que a consulta está a terminar, ainda faltam muitos cliques… No primeiro acesso do dia é pedida a palavra passe do utilizador. Não sendo suficiente, para cada emissão de receita médica é pedida a mesma palavra passe novamente e o tempo de sessão no PEM muitas vezes expira entre consultas, obrigando a novo login. Muitas vezes os utentes não sabem a sua medicação habitual, mas felizmente o sistema permite consultar prescrições anteriores. No entanto, torna-se difícil avaliar a adesão ao tratamento e é algo que devemos sempre questionar (o que faz, quantos faz, quando faz).

É nossa função ainda “filtrar” os casos que necessitam de ser observados por outra especialidade. Para isso temos que aceder ao programa ALERT.P1, que por vezes também não funciona.

Por todos estes momentos de consulta, a especialidade de Medicina Geral e Familiar é complexa e exigente. Por vermos o utente como um todo, num processo contínuo e longitudinal, somos diferentes das outras especialidades. Os tempos estabelecidos de 15 ou 20 minutos para cada consulta limitam muito a nossa atividade. Quando falam em diminuir os tempos de consulta ou que Portugal tem dos tempos mais longos da Europa muitas vezes esquecem-se de ter os outros fatores em conta (por exemplo, em alguns países os exames passam automaticamente para o sistema, ou os doentes apenas podem apresentar uma queixa/um problema de saúde por consulta, ou as crianças não são vistas pelos Cuidados de Saúde Primários). No filme "Milagre no Rio Hudson" é retratada a investigação da aterragem de um avião no rio Hudson em Nova Iorque, em 2009. As simulações mostram que a aterragem naquelas condições era desnecessária e um risco acrescido, mas não tiveram em consideração os pilotos. "Estão à procura de erro humano, então tornem-no humano" - o tempo de reação, de tomada de decisão, de planeamento. Na minha opinião é o que está a faltar ao Sistema Nacional de Saúde neste momento. Olhamos para números e estatísticas, que sem dúvida que são importantes para a melhoria do nosso trabalho, mas onde entra a humanidade nestes números? Como se contabiliza o tempo de interação entre duas pessoas, de empatia, de ajuda a quem nos procura? Um tempo de consulta não pode ser decidido sem ter em conta o aspeto mais nobre da nossa profissão.

Por Mafalda Gomes, USF do Mar, ACeS Grande Porto IV


Referências Bibliográficas:

1. Definição europeia de Medicina Geral e Familiar (Clínica Geral/ Medicina Familiar) da WONCA Europe 2002 e 2011, em: http://www.woncaeurope.org/

2. Vitor Ramos, “A consulta em 7 passos”, VFBM Comunicação, Lda., 2008



Quando eles teimam em entrar na nossa casa…

MGFamiliar ® - Tuesday, June 12, 2018



Estou a alguns meses de concluir o internato de Medicina Geral e Familiar e me tornar, finalmente, médica de família. Olhando para o meu percurso académico e profissional, foram muitas as horas a queimar pestanas para saber mais, bem como para realizar os inúmeros trabalhos científicos da faculdade e do internato. Na faculdade aprendi as várias disciplinas básicas e elementares, bem como as disciplinas mais clínicas, para um dia ser uma médica capaz de tratar os meus doentes. Mas o estudo e a dedicação não terminaram com a conclusão do Mestrado Integrado em Medicina. Durante o internato, para além do estudo e necessidade constante de actualização de conhecimentos, os “trabalhos para o currículo” também ocuparam grande parte do meu tempo.

No entanto, há algo que não aprendemos nos anfiteatros da faculdade nem nos livros, por mais que procuremos também não encontramos na Pubmed… É algo que ninguém nos pode ensinar…

No dia em que comecei a exercer esta profissão, percebi o quão difícil é a separação do Eu enquanto pessoa e do meu Eu enquanto médica. Estas duas entidades que estão tão próximas e que teimam em caminhar de mãos dadas. Mas se é tão verdade que esta proximidade possibilita que os meus problemas pessoais possam interferir no meu papel de médica, o contrário também é uma realidade.

No nosso dia-a-dia contactamos com os contextos dos nossos utentes. Quase diariamente temos que dar más notícias ou lidar com problemas de saúde, pessoais, sociais e económicos ou mesmo a morte dos nossos utentes…. E é aqui que reside um dos maiores desafios para mim! Enquanto médica, porque ninguém nos ensina a lidar com as frustrações, porque fomos talhados para curar e tratar os nossos doentes, não para termos as nossas perdas e por isso também sermos “falíveis”… Mas também o Eu pessoa, que sofre pois não consegue ficar indiferente à desgraça alheia. Muitas vezes dou por mim em casa, nas férias, no supermercado, a pensar no Sr. X que piorou da sua condição de saúde e que por isso não tem muito tempo de vida ou na Srª. Z que não tem dinheiro para comprar os medicamentos.

Por vezes gostava de ter uma profissão que me permitisse sair do local de trabalho e não pensar mais naqueles problemas. Mas ser médico não é isso, não é exercer apenas medicina… É SER Médico! E se isso tem muitas desvantagens, também as vantagens são imensas… Perceber que as vitórias dos meus utentes também são as minhas vitórias e que me enchem o coração de alegria. É aí que percebo a enorme felicidade que esta profissão me dá e o orgulho que tenho em ser Médica!

Por Ana Sofia Fontes, USF Uma Ponte para a Saúde




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