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Os meus avós e a médica que hoje sou

MGFamiliar ® - Wednesday, July 25, 2018





Desde o primeiro ano da faculdade, aprendi que a empatia é um pilar fundamental na relação-médico doente. Também me foi explicado que, por vezes, fruto do desgaste profissional, a empatia diminui à medida que um médico progride na carreira. Felizmente, tenho a convicção que tenho palmilhado o caminho inverso. Para isso, muito contribuiu o relacionamento que cultivei com os meus avós.

Durante os últimos anos, assisti à degradação física e psicológica dos meus avós. O meu avô materno partiu, e levou com ele a memória da minha avó... No entanto, deixou comigo a profunda alma do seu ser, e acredito que todos os dias me visitam no meu gabinete...

Os meus avós entram no meu gabinete quando os doentes me olham e me sorriem, quando esperam ansiosos por uma boa notícia, ou receosos que a má notícia não tenha solução.

Os meus avós entram na sala quando algum doente se baralha na medicação, quando se sente perdido porque a memória já não é o que era, quando vestir e tirar a roupa é um processo cansativo e difícil.

Os meus avós entram na sala quando a dificuldade de locomoção é grande mas o sorriso está lá ao cruzar a porta, sempre que me fazem rir ou me comovem com a inocência e humildade do seu ser.

Os meus avós entram na sala quando os meus doentes me desejam que seja muito feliz, mesmo quando quem precisa de uma palavra de alento sejam eles.

De todas as vezes que me empenho, sei que ajudei os avós de alguém, tal como os colegas ajudaram os meus quando foi necessário...

Desejo a todos um feliz dia dos avós... e que a sua presença, ou a sua memória, ilumine os nossos dias.

Por Sofia Magalhães Ferreira, USF Uma Ponte para a Saúde



Errar: verbo transitivo

MGFamiliar ® - Wednesday, July 11, 2018




Eu erro, tu erras, ele erra, todos nós erramos. Porém, em verdade, não estou muito preocupado com os erros dos outros, o que realmente me importa é que eu erro.

Quando aquela doente entrou no gabinete não parecia estar muito satisfeita. Sentou-se à minha frente e, de forma paciente, ouviu o que eu lhe tinha para dizer. Quando lhe dei oportunidade de ser ela a interveniente disse-me o que lhe ia na alma. Queixou-se de que eu não a escutara, de que não ligara às suas queixas e preocupações e que, por isso, tinha sofrido.

No momento em que percebi o que estava a acontecer fiquei espantado, sem palavras ou reação. Fiquei aterrado com o facto de, após ouvir o seu testemunho, ter de concordar com ela: eu errei. Por mais que me custasse, ouvi calado o que nenhum médico gosta de ouvir e fiquei surpreendido pela sua franqueza e educação.

Quando ela acabou o seu relato fui eu que lhe dirigi a palavra. Assumi o meu erro e pedi-lhe sinceras desculpas por lhe ter causado sofrimento com a minha falta. Ainda lhe agradeci pelo que me disse, falei-lhe que me tinha ensinado uma grande lição e que me esforçaria ao máximo para não cometer mais falhas como aquela.

A senhora sorriu em resposta e no fim da consulta, humildemente, pediu-me desculpas por me ter chamado à atenção. Eu desculpei-me novamente e, mais uma vez, lhe agradeci.

Enquanto fazia o registo da consulta no processo clínico pensei no que havia acontecido. Pensei, vezes sem conta, em como teria sido possível aquela situação me ter escapado, logo eu, sempre com a ideia de que estava sempre atento aos meus doentes. Por fim, pensei também no que poderia ter feito melhor.

Chateei-me comigo próprio por ter sido um tipo de profissional do qual tenho repulsa, daqueles distraídos e negligentes. Valeu-me o facto de acreditar que não fiz por mal e que "errar é humano”.

No entanto, e no fim de tanto refletir, estremeci com uma temível conclusão: que este não teria sido o primeiro erro da minha ainda curta carreira e que, definitivamente, estaria muito longe de ser o último…

Por Cláudio Carril



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