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Entre marido e mulher, metam a colher

MGFamiliar ® - Monday, January 07, 2019




Isto aconteceu:

No primeiro dia do último mês de 2018, aconteceu numa esplanada como podia ter acontecido noutro sítio qualquer. Enquanto na rua um sem-abrigo alcoólico era convidado a afastar-se e juntar-se a outro lá longe, um jovem casal sentou-se para desfrutar de um café, mas nem um nem outro o saboreava de verdade. Algo não estava bem. Quem se sentava próximo percebia que entre eles se estabelecia uma forte tensão, fruto do ciúme do namorado perante uma amizade entre a namorada e um colega de trabalho. Não conhecendo um ou outro, era clara a agressividade desproporcionada entre um elemento e o outro do casal.

A situação desenrolou-se e evoluiu para fora da esplanada. Naquele momento já era claro para pessoas que estivessem apenas de passagem que a relação era abusiva, ao ver o rapaz agarrar a namorada pelo braço e forçá-la a sentar-se no muro quando ela se tentava ir embora, ao ouvi-lo gritar enquanto a agarrava pelo cabelo para depois a largar de sacudida.

Eu assistia à cena, desconfortável, como as outras pessoas sentadas na esplanada. Assistia às pessoas a passar perto. Assistia às pessoas a olhar fixamente, atentas, imóveis e assistia às outras que desviavam o olhar. Assistia a pessoas a atravessar a estrada para evitarem o confronto.

A tensão a subir e ninguém a agir…

E, de repente, eis que os sem-abrigo que estavam lá longe se aproximam do casal e trocam com eles algumas palavras, aparentemente resultando numa atenuação da agressividade por parte do namorado. Depois desta interação, os dois senhores sentaram-se também no muro, afastados, mas alerta, mostrando-se disponíveis para ajudar a vítima caso fosse necessário.

Passados mais alguns minutos, os dois senhores que até então estavam atentos, tiveram a sua atenção desviada por outro assunto e afastaram-se.

O namorado retomou o registo anterior elevando cada vez mais o tom de voz. Aproximou-se outro sem-abrigo, com uma atitude mais agressiva que os dois primeiros, que depois se afastou.

Na esplanada as pessoas estavam atentas, na rua as pessoas passavam curiosas, os carros abrandavam. E, como eu, nada faziam.

Aproximou-se um turista, que fez também uma tentativa de acalmar o namorado, mas quando se afastou voltou tudo ao mesmo. O namorado a ser agressivo, a namorada submissa, a plateia passiva.

O rapaz, cada vez mais instável, a elevar o tom de voz.

Todos a ouvir, a comentar entre dentes, sem nada fazer.

O rapaz, cego de amor (de certeza que era amor), dá um estalo à namorada e, ao mesmo tempo que se ouve o som do estalo a atravessar a rua, como se aquele tivesse atingido todos os que estavam a olhar, vêem-se os até então meros espetadores, em simultâneo, de pulo, levantarem-se e atravessar a rua de corrida em auxílio da mulher. Daí resultou uma segunda agressão, de uma pessoa que se mobilizou para ajudar a mulher mal tratada, dirigida ao namorado.

Depois disto então ouve-se “Isto é teatro. Não é verdade”, mas aí já o ator que representou o agressor tinha um rasgo sangrento no rosto.

No primeiro dia do último mês de 2018, aconteceu a fingir numa esplanada como podia ter acontecido de verdade noutro sítio qualquer.

Isto foi uma experiência social intitulada "Entre marido e mulher, metam a colher”. Eu, tal como o “turista” que interveio, assisti sabendo de antemão que iria decorrer. Este evento deu-se em Ponta Delgada e foi uma iniciativa da associação UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), tendo a experiência social sido levada a cabo por colaboradores e artistas do projeto “9’Circos”, entre outros. O objetivo foi apelar à consciência da população para que não sejam meros espetadores, apelar à intervenção de quem tem oportunidade de mudar a vida de alguém que, de outra forma, viva aprisionado em condições das quais não consegue sair sozinho.

A violência doméstica é um crime público, o que significa que o procedimento criminal não está dependente de queixa por parte da vítima, bastando uma denúncia ou o conhecimento do crime, para que o Ministério Público promova o processo (Lei 129/99, 20 Agosto). Mais que mexer onde dói, este grupo conseguiu levar a cabo uma reflexão muito mais profunda. De notar que as primeiras pessoas que tiveram a coragem de intervir naquela situação, e que intervieram de forma civilizada quando se aperceberam que a mulher precisava de ajuda, foram pessoas que são ostracizadas e a quem não se olha duas vezes quando se passeia num domingo à tarde na avenida depois da missa do meio-dia…merece que reflitamos um pouco sobre isto.

Por Carolina Resendes 





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