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Médica, grávida e ”diabética”

MGFamiliar ® - Tuesday, March 05, 2019



Médica de Família, interessei-me desde sempre pela diabetes e de forma particular pela diabetes gestacional. No estágio hospitalar de Endocrinologia contactei com várias grávidas vivendo a gravidez e a diabetes de formas muito diferentes, desde o choro intenso durante toda a consulta porque os valores dos registos de glicemias não estavam bem, grávidas despreocupadas como se nada soubessem da doença (ou não quisessem saber), grávidas que controlavam a ingestão alimentar de forma obsessiva, pesando a comida, conhecendo a composição alimentar, lendo todos os rótulos e questionando tudo e mais alguma coisa… em todas elas um sentimento transversal: a culpa, do bolo que comeu na terça feira, da Fanta laranja que não consegue deixar de beber, do gelado que acompanha as caminhadas de final de tarde… É nas consultas de Saúde Materna do Médico de Família que são feitos a maioria dos diagnósticos de diabetes gestacional, segundo a Norma da DGS 002/2011 de 14/01/2011: glicemia em jejum na 1ª consulta de gravidez ≥ 92mg/dl e ≤ 126mg/dl ; se glicemia em jejum ≤ 92mg/dl, às 24-28 semanas de gestação realiza-se a prova de tolerância a glicose oral (PTGO)  com 75g de glicose, sendo o critério diagnóstico a confirmação de um ou mais valores: as 0h glicemia ≥ 92mg/dl; à 1h glicemia ≥ 180mg/dl, às 2h glicemia ≥ 153mg/dl. Esta é a teoria.  Quantos diagnósticos e referenciações para consultas de Obstetrícia por gravidez de risco… Nunca me imaginei do lado de lá... saudável, índice de massa corporal normal 20,2, uma vida ativa. Antecedentes familiares: tia materna com diabetes tipo 2. Sempre quis ser mãe de dois filhos. Aos 34 anos estava grávida, um mar de expectativas… fiz consulta de pré-conceção, suplementação com ácido fólico e iodo de acordo com as recomendações. Às 13 semanas o mundo desabou… um descolamento de placenta obrigou a repouso absoluto durante várias semanas. Estava agora com 66 Kg, mais 9Kg desde o início da gravidez. Às 24 semanas fiz a PTGO, da qual tão bem conhecia a teoria! Na prática, colhe-se sangue em jejum, bebe-se um líquido com as tais 75g de glicose (aconselho sabor e limão e se possível bem fresquinho…), e colhe-se sangue mais duas vezes… (reservar uma manhã para este teste). Resultados: glicemia às 0h de 87mg/dl, à 1h 162, às 2h 154mh/dl. Conhecendo os valores de referência, achei que não havia motivos para preocupação. Na consulta de Obstetrícia fui orientada prontamente a fazer pesquisas de glicemias, 5 por dia, e um diário alimentar. Fui orientada para consulta de Endocrinologia e Nutrição. Percebi rapidamente que as coisas não estavam bem. Tinha pesquisas de glicemia sistematicamente alteradas… “como é possível? Na PTGO apenas tenho uma unidade alterada???” Foi então que se iniciou uma grande mudança na minha vida: dieta fracionada, a horas certas, esquema alimentar para todas as refeições, sem grande possibilidade de substituições, conhecer alimentos, ler rótulos, pesar comida para ter a noção das gramas (como é possível um pão tão pequeno ter mais de 30g??). Senti na pele as hiper e as hipoglicemias. Na consulta de Nutrição foi-se ajustando a dieta aos registos de glicemia e às fases da gravidez, na de Endocrinologia vigiando a hemoglobina glicada que deve estar abaixo de 6%. No último mês de gravidez a insulinoterapia foi uma realidade, apesar da dieta e atividade física. O mais difícil? cumprir os horários das refeições, sabendo que as pesquisas têm de ser feitas antes e após as refeições; picar os dedos tantas vezes; ter de acordar para comer; ter de fazer caminhadas após as refeições quando apetece ficar no conforto do sofá; comer diferente do resto da família… ou tantas vezes comer antes quando vamos todos jantar fora. As rotinas têm de mudar rápido, o controlo glicémico tem de ser conseguido hoje, no espaço curto de uma gravidez! A motivação? Ter um bebé perfeito! Na diabetes gestacional há risco aumentado de anomalias fetais e aumento do crescimento fetal, fetos grandes para a idade gestacional ou macrossómicos com peso ≥ a 4000g, tem maior risco de distocia de ombros no nascimento, lesão traumática e asfixia, paralisia de Erb e/ou fratura de clavícula. A maior incidência de Síndroma de dificuldade respiratória está relacionada com a prematuridade neste grupo de recém-nascidos. A hipoglicemia (glicemia < 40-45 mg/dl) nas primeiras horas é frequente. Outras complicações como hiperbilirrubinemia, cardiomiopatia, hipocalcemia, inspiram cuidados redobrados. O risco de aparecimento de diabetes no filho é baixo, podendo desenvolver diversas patologias metabólicas na idade adulta, resultantes das alterações do meio intra-uterino.

Fiz ecografia às 36 semanas para decisão sobre o parto. De acordo com as recomendações, com bom controlo metabólico mas com necessidade de insulina ou terapêutica oral, deve fazer-se indução às 39 semanas. O meu bebé nasceu às 40 semanas, por indução, ventosa, com 3215 gramas. Fiz contacto pele-a-pele após o nascimento e amamentação na 1.ª hora de vida. Passei pela angústia de ver o meu bebé ser “picado” para determinação da glicemia na 2ª e 4ª hora após o nascimento, e depois vezes sem conta até a amamentação estar bem estabelecida. Fez fototerapia, mas ao 3º dia de vida a tempestade passou e estávamos tranquilos, no conforto do lar e da família. Estive sempre muito motivada para a amamentação, sabendo que para além dos benefícios gerais conhecidos, diminui o risco de desenvolvimento futuro de diabetes. No puerpério imediato segui o esquema de vigilância e terapêutica idêntico ao da gravidez, deixei de necessitar de insulina após confirmação da normalidade glicémica 48h após o parto. 6 a 8 semanas após o parto realizei a PTOG de reclassificação. Depois do ganho rápido de peso inicial, o peso estabilizou e terminei a gravidez com mais 12kg em relação ao peso inicial. Fiquei sem diabetes. Como médica, entendo agora melhor a “pessoa com diabetes”, a dificuldade em mudar hábitos e em viver em sociedade com a doença. Melhorei a negociação de planos terapêuticos farmacológicos e de estilo de vida, numa doença que não se sente, mas com complicações macro e microvasculares importantes. Vivi um estágio em diabetes gestacional com vertente prática, que me permitiu confirmar que é possível controlar as hiperglicemias com uma forte motivação, estilo de vida saudável, atividade física regular de acordo com a tolerância, dieta equilibrada fracionada e a horas certas. Não passei fome.  Percebi que os supermercados estão cheios de comida vazia sob o ponto de vista nutricional, que quando escolhemos os produtos essenciais poupamos muito dinheiro. Isto serve para as pessoas em geral e “pessoas com diabetes” em particular, que devem entender que “dieta” não é “para pessoas doentes”, mas sim a nossa alimentação diária.

Dizem os estudos que numa segunda gravidez a probabilidade de diabetes gestacional é grande. Engravidei passados dois anos e meio, com menos 6Kg que na gravidez anterior, mantive os hábitos que já tinha adquirido, não tive diabetes gestacional. Quero realçar a importância da nossa ação e motivação no controlo e desenvolvimento da doença. Apesar das estatísticas, podemos mudar o rumo das situações quando adquirimos hábitos de vida saudáveis e que perduram no tempo.  Sei que um dia poderei voltar a ter diabetes, lembro-me disso quando me esqueço das rotinas saudáveis que adquiri… sei que nem sempre fazemos as coisas bem e protelamos para amanhã… mas a nossa vida é agora, e o nosso futuro fazemos hoje.

Por Tânia Rodrigues, USF Saúde em Família, ACES Maia/Valongo





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