MaisOpinião +

Mário da Silva Moura: A Crise e a Saúde


- Tuesday, November 27, 2012


Embora seja saturante falar da famosa crise que vivemos na companhia de muitos outros povos europeus, parece-me que, na nossa qualidade de médicos, nos devemos debruçar sobre, precisamente, ….a crise.

Tendo sempre presente que cada um de nós é um todo com a sua circunstância envolvente, temos hoje em dia de pensar em todo e qualquer paciente que nos procura qual será o peso no seu adoecer dos problemas sociais em que está envolvido.

Não é em vão que se têm dificuldades económicas , que aumentam as preocupações com a educação dos filhos, com os transportes mais caros ou, infelizmente em muitos casos, que se sofre o flagelo do desemprego.

 E , se muitos dos nossos pacientes não invocam tais factos e dificuldades , eles estão subjacentes a um viver mais angustiante e pleno de dificuldades para que nem todos estavam preparados e para que nem todos têm força de ânimo para aguentar.

E este estado crónico de ansiedade, de angústia, de medo do futuro, tem inevitavelmente o seu substrato químico perturbador da homeostasia de cada um de nós.

E é inevitável que surjam ou se exacerbem as gastrites , as hipertensões, as colites, os espasmos musculares aqui e ali, a serem relacionados pelo paciente com esta ou aquela doença ou mazela antiga ou familiar, mas que nós médicos temos de enquadrar no contexto em que se vive presentemente – e o nosso interrogatório deve orientar-se nesse sentido facilitando uma verdadeira catarse e juntando à terapia química que porventura seja indicada uma verdadeira sessão de psicoterapia de apoio.

Já não falo dos casos evidentes de depressões facilmente identificáveis, de insónias ou estados evidentes de ansiedade, mas quero chamar a atenção precisamente para os quadros de boa aparência física em que temos de dar o salto para o lado de lá dos sintomas apresentados e chegar ao “miolo” da reacção global que o paciente apresenta, conscientes que devemos estar de que o corpo fala muitas vezes mais explicitamente que o próprio eu consciente do nosso paciente.

O momento é tão grave e tão geral que esta atenção tem de estar sempre presente nos nossos dias de vida clínica.

E temos de ter igualmente presente que estes estados actuais podem despertar problemáticas antigas, escondidas no nosso “disco rígido”, sinais de choques e dramas de há muitos anos, sempre censurados, tornados presentes e reforçados por emoções traumáticas actuais.

É a medicina familiar a ser posta á prova nos dias de hoje e a que temos de dar a nossa resposta apropriada.

Mário da Silva Moura 




Comments
Post has no comments.

Post a Comment




Captcha Image


Recent Posts


Tags

 

Archive