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Back to basics: empatia


MGFamiliar ® - Sunday, July 07, 2019





Hoje estive a refletir sobre empatia.

Desde o início da faculdade que nos é demonstrada a primazia do “método clínico centrado no paciente”, por oposição ao “centrado na doença”. É-nos explicado que devemos ter em conta as particularidades da pessoa que adoece e não apenas da doença; que devemos ponderar as expetativas e medos do utente no nosso processo de decisão. Temos cadeiras na faculdade que se focam na visão holística e na importância de uma boa relação médico-doente enquanto fatores influenciadores dos resultados obtidos em saúde; em que falamos no nosso próprio papel como veículo de cura.

Mas, por muito que estudemos a teoria, por muitos workshops que façamos ou por muitos conselhos que peçamos aos nossos mestres, nada nos prepara para certas situações na prática clínica – para a comunicação de más notícias; para a gestão dos utentes difíceis; para as decisões nos cuidados em fim de vida; para os seus problemas financeiros, que dificultam os demais.

No meio do reboliço do dia-a-dia procuramos uma plataforma de entendimento com o utente, incorporamos a prevenção e promoção de saúde, somos realistas com as nossas limitações de tempo e recursos, atendemos o telefone, fazemos registos com qualidade, vamos “só dar uma palavrinha”, reiniciamos o computador por falha do sistema, confirmamos os rastreios, renovamos medicação, e cumprimos as restantes folhinhas da árvore da WONCA, num equilibrismo maníaco. E nisto, somos tentados a esquecer a pedra angular de todas estas questões difíceis – a empatia.

A empatia é um “lugar sagrado” que todos os médicos de família devem ser capazes de criar, mesmo nas condições mais adversas. Ela assenta em quatro pilares: reconhecer as emoções transmitidas pelo outro; ser capaz de entender a sua perspetiva e reconhecê-la como a sua própria verdade; não tecer julgamentos; e ser capaz de comunicar.

A empatia é uma escolha vulnerável, porque para nos conseguirmos conectar com o outro, temos de nos conectar com algo dentro de nós que reconhece aquele sentimento. E são precisamente estas as consultas que nos desgastam emocionalmente, que nos deixam a pensar ao fim do dia.

Por vezes, a nossa propensão imediata perante situações difíceis é transmitir simpatia, a qual é muito diferente de empatia. Quando alguém acaba de partilhar algo extremamente doloroso, a tendência natural é tentar dourar o cenário e ficar por aí. Mas raramente, se alguma vez, uma resposta empática começa por “pelo menos”:

– O meu filho mais novo vai ser expulso da escola.
– Pelo menos a mais velha é uma aluna brilhante.
...
– Tive um aborto.
– Pelo menos sabe que é capaz de engravidar.
...
– O meu pai faleceu.
– Pelo menos teve uma vida longa.

Quando a pessoa à nossa frente se encontra assoberbada pela situação que atravessa e procura apoio, mesmo que não o manifeste euforicamente, o médico de família deve ser capaz de ir até esse abismo, entrar nessa bolha e fazê-la entender que não está sozinha. Reconfortar o utente não passa por menosprezar o seu problema, mas sim reconhecê-lo, integrá-lo no seu contexto e reforçar positivamente o facto de ter procurado ajuda, apesar do desconforto que situações difíceis tantas vezes causam. Porque raramente uma resposta simpática melhora o problema, o que melhora é a ligação que estabelecemos com aquela pessoa. E isso, não se aprende nos livros.

Por Vânia de Oliveira





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