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Quando eles teimam em entrar na nossa casa…


MGFamiliar ® - Tuesday, June 12, 2018



Estou a alguns meses de concluir o internato de Medicina Geral e Familiar e me tornar, finalmente, médica de família. Olhando para o meu percurso académico e profissional, foram muitas as horas a queimar pestanas para saber mais, bem como para realizar os inúmeros trabalhos científicos da faculdade e do internato. Na faculdade aprendi as várias disciplinas básicas e elementares, bem como as disciplinas mais clínicas, para um dia ser uma médica capaz de tratar os meus doentes. Mas o estudo e a dedicação não terminaram com a conclusão do Mestrado Integrado em Medicina. Durante o internato, para além do estudo e necessidade constante de actualização de conhecimentos, os “trabalhos para o currículo” também ocuparam grande parte do meu tempo.

No entanto, há algo que não aprendemos nos anfiteatros da faculdade nem nos livros, por mais que procuremos também não encontramos na Pubmed… É algo que ninguém nos pode ensinar…

No dia em que comecei a exercer esta profissão, percebi o quão difícil é a separação do Eu enquanto pessoa e do meu Eu enquanto médica. Estas duas entidades que estão tão próximas e que teimam em caminhar de mãos dadas. Mas se é tão verdade que esta proximidade possibilita que os meus problemas pessoais possam interferir no meu papel de médica, o contrário também é uma realidade.

No nosso dia-a-dia contactamos com os contextos dos nossos utentes. Quase diariamente temos que dar más notícias ou lidar com problemas de saúde, pessoais, sociais e económicos ou mesmo a morte dos nossos utentes…. E é aqui que reside um dos maiores desafios para mim! Enquanto médica, porque ninguém nos ensina a lidar com as frustrações, porque fomos talhados para curar e tratar os nossos doentes, não para termos as nossas perdas e por isso também sermos “falíveis”… Mas também o Eu pessoa, que sofre pois não consegue ficar indiferente à desgraça alheia. Muitas vezes dou por mim em casa, nas férias, no supermercado, a pensar no Sr. X que piorou da sua condição de saúde e que por isso não tem muito tempo de vida ou na Srª. Z que não tem dinheiro para comprar os medicamentos.

Por vezes gostava de ter uma profissão que me permitisse sair do local de trabalho e não pensar mais naqueles problemas. Mas ser médico não é isso, não é exercer apenas medicina… É SER Médico! E se isso tem muitas desvantagens, também as vantagens são imensas… Perceber que as vitórias dos meus utentes também são as minhas vitórias e que me enchem o coração de alegria. É aí que percebo a enorme felicidade que esta profissão me dá e o orgulho que tenho em ser Médica!

Por Ana Sofia Fontes, USF Uma Ponte para a Saúde



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