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Gravidez depois dos 30, mas porquê?


MGFamiliar ® - Tuesday, January 26, 2016





Num jantar de Natal neste nosso Portugal, um parente mais indiscreto (provavelmente nos seus 50’s ou 60’s) lembra-se de dizer: “Então? Quando vem o primeiro?”, “Já está na horinha...”, “Estais à espera de quê?”.

Sim, é verdade que a fertilidade diminui com o aumento da idade da mulher. Tal ocorre de forma gradual a partir dos 32 anos, mas de forma mais intensa a partir dos 37 anos.(1) Também é verdade que aumenta o risco de abortamento espontâneo. (2)(3) Além disso, o risco de baixo peso ao nascer e de parto pré-termo é maior em mulheres com idade mais avançada expostas a tóxicos ambientais (como o fumo do tabaco).(4)

Em Portugal, a idade média da mulher ao nascimento do primeiro filho aumentou dos 25,0 anos em 1960 para os 30,0 anos em 2014 (INE, PORDATA). Porque é que isto aconteceu?

Poderá haver imensas razões para uma primeira gravidez tardia: posto/local de trabalho instável, necessidade de emigrar, vontade de “aproveitar a vida” sem filhos, recursos familiares diminuídos, acesso fácil à interrupção voluntária da gravidez (sim, acredito que isto também possa ter influência), estar à espera de ter uma “vida estável”, sabe-se lá que mais...

A década de 60 do século XX (emigração guerra colonial) foi particularmente importante no acesso das mulheres à actividade laboral, nomeadamente à sua presença activa nas universidades, tribunais, hospitais, empresas, redacções de jornais, paradas militares, etc. Em 2009, a taxa de emprego feminino em Portugal, era das mais altas da União Europeia, 61,6% versus 58,6%.(5) e em 2014 o número de mulheres a emigrar foi cerca de 31000 e no ano 1992 foram perto de 12000. (INE, PORDATA).

Estando nós actualmente com um paradigma social diferente de há muitos anos (“Naquele tempo é que era!”), fará sentido manter as actuais restrições de acesso às consultas de infertilidade? Uma mulher de 43 anos que pretenda engravidar de forma assistida pela primeira vez, após ter passado 1 ano a fazer tudo como deve ser feito, tem direito a tal? Afinal, poderemos negar o acesso a uma consulta de infertilidade e à possibilidade de ter um filho a uma mulher que até então optou por não ter filhos para se dedicar, por exemplo, a tratar dos pais dependentes? Ou que encontrou o amor da sua vida com essa idade? Por outro lado, será economicamente sustentável oferecer estas consultas a todas as mulheres com infertilidade, qualquer que seja a idade?

É igualmente importante pensarmos nos confrangimentos laborais: as mulheres que engravidam ou querem engravidar estão protegidas pela lei, nomeadamente pela acção da Autoridade para as Condições do Trabalho. Porém, é frequente que estas comecem a ser pressionadas ou mudadas do seu posto de trabalho como forma de “bullying laboral”.

No fundo, todas as razões para o aumento da idade da mulher ao nascimento do primeiro filho resumem-se a uma só palavra: “Prioridade”. A mulher deixou de ficar em casa a limpar, a cuidar dos filhos e passou a querer uma carreira, a chegar longe profissionalmente, a ser independente. Não nos enganemos, a vida nunca vai ficar estável, mas imagine-se como uma mulher, de 25 anos, com uma relação duradoura e estável, gostaria de engravidar, mas começou agora a trabalhar numa empresa/fábrica, tem um posto bom. O que faria? Esperaria pelo timing correcto? Ele existe?

Este pode ser considerado um problema com grande interferência a nível social. Cabe a quem de direito produzir políticas que facilitem, ou pelo menos não compliquem, a maternidade. Estas medidas poderão envolver incentivos dados a empresas com local próprio para os seus colaboradores deixarem os filhos, diminuição do número de horas de trabalho semanal para os pais de crianças em idade pré-escolar. Outra medida importante passa pelo incentivo do cumprimento dos horários, nomeadamente a obrigatoriedade de o empregado ter de sair do seu local de trabalho na hora de saída, e não depois…

Só para recordar, estamos no século XXI, a viver tempos muito diferentes de 1960 (diz quem sabe... eu não sei).

Bibliografia:

1. Female Age-Related Fertility Decline - Committee Opinion. The Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine; 2014.

2. Advanced Reproductive Age and Fertility - SOGC Committee Opinion. 2011.

3. Delayed Child-Bearing - SOGC Committee Opinion. 2012.

4. Ahluwalia IB, Grummer-Strawn L, Scanlon KS. Exposure to Environmental Tobacco Smoke and Birth Outcome: Increased Effects on Pregnant Women Aged 30 Years or Older. American Journal of Epidemiology. 1997;42–7.

5. Coelho L. Mulheres e Desigualdades em Portugal: Conquistas, Obstáculos, Contradições e Ameaças.

Por Mariana Rio






Comments
Telma Miragaia commented on 03-Feb-2016 11:42 PM
Eu tenho uma "pseudo-solução" para este assunto: vir morar para os Açores (S. Miguel).
Onde a idade média de nascimento do 1º filho é aos 27,4 anos (era assim em 1990 a nível nacional) e onde a taxa de fecundidade na adolescência (21,7) é o dobro da nacional (10,6). Os meus utentes já me avisaram "Ó Dra. tem 29 anos e ainda não tem filhos? Já não vai ter....".
Só quando cheguei aqui percebi o verdadeiro sentido de "Naqueles tempos não havia televisão..." uma vez que a TV chegou aos Açores a 19 agosto de 1975, 20 anos depois do aparecimento da televisão no Continente. Afinal a TV é mesmo contraceptiva....


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