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Quando o último deve ser o primeiro


MGFamiliar ® - Wednesday, February 07, 2018



Quarto ano de internato! Entretanto sozinha levarei o “barco a bom porto”. Deixo uma reflexão sobre o futuro.

Espera-me a obrigação de gerir dias completos de consulta de elevada exigência, contemplando: múltiplas atividades preventivas e de vigilância, avaliação da doença, suas complicações e revisão terapêutica, clicks nos programas informáticos e sua lentidão, preocupação com estratégias para o cumprimento de indicadores, entre outras. No final do dia de consulta, aguardar-me-á o múltiplo serviço de pasta, doentes para terminar de orientar, registos por completar, referenciações a fazer…

Em 2016, a Ordem dos Médicos (OM) emitiu um comunicado onde se refere ao quotidiano do médico como “um inferno de burocracias, desmoralização, desumanização, falhas informáticas, perdas de tempo, faltas de material, obsessão por indicadores estatísticos sem quaisquer ganhos em Saúde, indefinição quanto ao futuro, pressões de redução de tempos de consulta, falta de tempo para os doentes, persistência de problemas da rede informática da saúde em muitos locais […]”.1 Esta é a realidade enfrentada pelo médico de família dos dias de hoje, realidade esta potencialmente causadora de exaustão do profissional de saúde. A preocupação com a extenuação do médico e potenciais consequências quer para o profissional (má prática, erro médico, doenças de adição e suicídio) quer para o utente (insatisfação e diminuição da qualidade dos cuidados de saúde) deverá ser uma realidade para todos os profissionais e seus administradores.2 Como se compreende “só clínicos motivados, física e psicologicamente saudáveis podem prestar os melhores cuidados de saúde aos doentes que assistem” tal como a OM defende. 3

Com tanto trabalho e exigência diária, como prevenir o burnout médico? Este nível de prevenção, a quinquenária, é o mais recente identificado e destina-se a evitar práticas involuntariamente incorretas, ou seja, impedir que ocorra erro médico pelo cansaço. Isto assume especial importância nos dias de hoje dadas as exigências cada vez mais evidentes. Assim, justifico o título deste artigo que demonstra a importância deste último nível de prevenção, como primordial na sua instituição, nomeadamente desde o início das funções do profissional de saúde.

O burnout caracteriza-se por três dimensões: exaustão emocional, baixa realização pessoal e despersonalização (desenvolvimento de atitudes e sentimentos de indiferença e afastamento psicológico do utente). O estudo realizado em 2016 pela OM com a colaboração do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa concluiu que 66% dos médicos da amostra apresentam um nível elevado de Exaustão Emocional, 39% um nível elevado de Despersonalização, e 30% um elevado nível de Diminuição da Realização Profissional.3 Dos resultados, saliento que a dimensão “exaustão emocional” foi a mais afetada e sabe-se que esta se relaciona, em grande medida, com fatores de nível organizacional. Assim, apesar do contributo de outras variáveis na explicação das dimensões de burnout, realço a importância dos fatores de nível organizacional e a necessária discussão de políticas públicas para a implementação de medidas de mudança.3 Existe uma crescente preocupação com esta temática o que justificou a realização de vários estudos por todo mundo. A titulo de exemplo, nos Estados Unidos, apesar de realidades de trabalho diferentes, os valores de burnout rondam os 46-54% em médicos de família e têm vindo a aumentar. 4,5

Então, como melhorar as condições de trabalho, a satisfação pessoal e profissional e consequentemente a performance do clínico? Segundo Dr. José Agostinho Santos, para executar a prevenção quinquenária é necessário intervir em quatro esferas: no médico, no doente, no local de trabalho e na administração/governo. A implementação destas medidas deve ser realizada individualmente, em equipa na unidade de saúde e pelo Serviço Nacional de Saúde. Deixo alguns exemplos: 6

  1. 1. Atuar no médico: organizar atividades em equipa; favorecer uma boa relação interprofissional; intervalar tempos longos de consulta para pausas;
  2. 2. Atuar no utente: educar o utente quanto ao tipo e tempo de consulta existente na unidade de saúde; tornar o utente um elemento interveniente e responsável na sua condição de saúde;
  3. 3. Atuar no local de trabalho: evitar falhas de material e substituir ou reparar o material avariado atempadamente;
  4. 4. Atuar na administração: contrariar o encurtamento dos tempos de consulta e o aumento das listas de utentes; instituir uma boa rede de internet; melhorar a rapidez e disponibilidade dos programas informáticos.

Em jeito de conclusão, considero premente a revisão das condições e carga de trabalho dos médicos de família que o sujeitam a um nível de ansiedade e exaustão elevado. Por fim, deixo uma vontade enorme de trabalhar um dia como especialista de Medicina Geral e Familiar num ambiente que me permita prestar cuidados de saúde de qualidade, com consciência de trabalho árduo para uma melhoria contínua, mas com condicionantes locais e governamentais que me protejam de atingir níveis de extenuação. 

Por Cristiana Martins, USF das Ondas


Bibliografia

  1. 1. Médicos, Ordem. “Podemos trabalhar?”. Revista Ordem dos Médicos, no.172, 2016, pp. 22-23.
  2. 2. Drummond D. “Physician Burnout: Its Origin, Symptoms, and Five Main Causes”. Family Practice Management, vol.22, no.4, 2015, pp. 42-47.
  3. 3.  Vala J., et al. “Estudo Nacional do Burnout na Classe Médica”. Disponível em: http://www.burnout2016.ics.ulisboa.pt/home. Consultado a 10 de Outubro de 2017.
  4. 4. Rothenberger D. “Physician Burnout and Well-Being: A Systematic Review and Framework for Action”. Diseases of the Colon & Rectum, vol. 60, no.6, 2017, pp.567–576.
  5. 5. Shanafelt D. et al. “Changes in Burnout and Satisfaction With Work-Life Balance in Physicians and the General US Working Population Between 2011 and 2014”. Mayo Clinic Proceedings, vol.90, no.12, 2015, pp.1600-1613.
  6. 6.  Santos J. A. “Prevenção quinquenária: prevenir o dano para o paciente, actuando no médico”. Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, vol.30, no 3, 2014, pp.152-154.



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