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Prochaska na primeira pessoa


MGFamiliar ® - Tuesday, July 04, 2017




Ser médico de família implica desempenhar um dos papeis principais na promoção de um estilo de vida saudável. Quer como forma de prevenção da doença quer na prevenção das suas complicações, em todos as consultas há sempre lugar para aconselharmos os nossos utentes a mudar certos comportamentos em nome da sua saúde. 

Mas, quantos de nós, seguem os conselhos que dão? Lá diz o ditado: “Olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço.” Infelizmente, os médicos também adoecem, também morrem. E muitas vezes, não são o exemplo de um estilo de vida saudável que os seus utentes merecem. Muitos de nós fumam. Muitos de nós levam uma vida sedentária. Muitos de nós têm uma alimentação desequilibrada.

A ocidentalização dos hábitos alimentares e a pressão a que os médicos estão sujeitos hoje em dia faz com que ter um estilo de vida saudável não seja fácil. Se pensarmos bem nas desculpas que damos a nós próprios, estas não são muito diferentes das que os nossos utentes nos dão: a falta de tempo, o stress do dia-a-dia, etc. Mudar velhos hábitos é uma tarefa tão difícil para utentes como para médicos, sendo fundamental uma grande dose de motivação. 

Para mim, “mudar” foi e é uma conquista e luta diária. O meu grande calcanhar de Aquiles era o sedentarismo. No meu auge de pré-contemplação, lembro-me da jovem ingénua de 18 anos que secretamente festejou o fim das aulas de educação física com o início da faculdade. Nunca fui muito vocacionada para o desporto e o sedentarismo das horas e horas a queimar pestanas na faculdade não ajudaram. Acho que foi durante o meu percurso académico, ao aprender sobre os riscos de uma vida sedentária, que entrei em contemplação, mas estava ainda muito resistente a mudar. A falta de tempo e de aptidão eram sempre desculpas. Já no início da minha atividade como médica e como interna de MGF, as desculpas continuaram. Muitos fatores foram lentamente preparando-me para mudar: acho que de tanto aconselhar os meus utentes a mexerem-se, a mensagem lá deve ter criado raízes no meu cérebro. 

Assim, como resolução tardia para o ano de 2017, entrei para um ginásio. Aprendi que 10 anos de sedentarismo (e vários erros alimentares, convenhamos), mesmo numa idade jovem, podem ser muito prejudiciais: dificuldades no equilíbrio, alguns grupos musculares completamente desaproveitados, etc. Basicamente, um dos maiores ingredientes para o meu pequeno sucesso nesta mudança foi ter arranjado uma personal trainer. Aos 28 anos, fui aprender como fazer exercício físico e só me arrependo de não ter começado mais cedo. Além dos benefícios que sinto na minha saúde, sinto que o exercício me faz ser melhor médica. Não só sou mais exigente e mais insistente com as medidas de estilo de vida, como sinto que o exercício físico é um excelente aliado contra o burnout.

“Mudar” é ainda uma luta. Todos os dias, tenho medo de entrar em recaída. Tenho medo das desculpas, do stress do internato, dos obstáculos que possam vir a surgir... Mas encaro os medos com uma certeza: vou continuar a lutar e a treinar, porque ao cuidar de mim estou também indiretamente a cuidar dos meus utentes.

Por Carolina Araújo





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