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Workshops: intervenções no consumo excessivo de álcool


MGFamiliar ® - Monday, February 01, 2016




O consumo de álcool é causa de mais de 60 doenças e ocupa o terceiro lugar no ranking dos factores de risco para a morbimortalidade a nível global. Se considerarmos apenas as pessoas com idades compreendidas entre os 15 e os 49 anos, o consumo de álcool assume-se como o principal factor de risco a nível mundial, à frente do tabaco, da hipertensão, e do excesso de peso. O consumo excessivo desta substância pode estar presente entre 15 a 30% da população adulta.

É do senso comum associar os problemas ligados ao consumo de álcool com as pessoas com dependência desta substância, ou àquelas com estado de embriaguez mais ou menos frequente. No entanto, a maioria destes problemas está associado aqueles que, consumindo álcool em quantidades leigamente vistas como “adequadas”, o fazem de forma excessiva sem apresentarem critérios de dependência. A título de exemplo, um homem de 45 anos, saudável, que beba dois copos de vinho ao almoço e outros dois ao jantar, apresenta um consumo de risco de álcool, uma vez que esta quantidade aumenta de forma significativa a probabilidade de vir a ter uma doença causada pelo consumo desta substância.

Os Cuidados de Saúde Primários, tendo em conta as suas características únicas, estão idealmente posicionados para abordar este importante problema de saúde pública. Em mais nenhum outro nível de cuidados de saúde é tão forte a evidência de que a identificação precoce e o aconselhamento (intervenção breve) da pessoa com consumo excessivo de álcool é uma medida com elevadas efectividade e relação custo-efectividade, podendo mesmo em determinadas situações ser geradora não apenas de ganhos em saúde mas também de mais-valias económicas. Para se ter uma ideia da efectividade das intervenções breves no consumo de álcool, estima-se que seja necessário aconselhar apenas oito doentes com consumo excessivo para que um reduza para os níveis recomendados (NNT=8).

Não obstante a comprovada efectividade destas práticas, verifica-se uma fraca implementação das mesmas no âmbito dos Cuidados Saúde Primários. Os estudos mostram que, em média, apenas um em cada seis doentes irá ser abordado pelo seu Médico de Família acerca do consumo de álcool… ao longo de toda a vida desse doente! É pois urgente reforçar a importância do problema entre os Médicos de Família e, porque não, entre todos os profissionais dos Cuidados de Saúde Primários. Neste sentido, realizar-se-ão no próximo Encontro Nacional de Medicina Geral e Familiar dois workshops sobre esta temática, coordenados pela Professora Cristina Ribeiro, que terão lugar no dia 5 de Março.

No primeiro workshop, a realizar entre as 09:00 e as 10:30, pretende-se dar aos participantes uma ideia transversal do problema. Serão abordadas questões ligadas à evidência científica actual, à investigação realizada nesta área (a nível nacional e internacional), e às políticas já desenvolvidas e a desenvolver no nosso país.

No segundo workshop, a realizar entre as 11:00 e as 12:30, serão abordadas estratégias práticas, na óptica dos Cuidados de Saúde Primários, para a implementação sistemática da identificação precoce e intervenção breve para o consumo excessivo de álcool. Mais concretamente serão apresentados, e discutidos com os participantes, exemplos práticos de como ultrapassar as barreiras que têm dificultado a implementação destas práticas nos Cuidados de Saúde Primários. Serão ainda abordadas, de uma forma prática, técnicas de entrevista motivacional que podem ser usadas para ajudar as pessoas com consumo excessivo de álcool a mudar os seus hábitos.

Os workshops contarão com a importante presença do Dr. Lodewijk Pas, Médico de Família a exercer na Bélgica, membro do EUROPREV e da rede INEBRIA, ligado ao ensino da Medicina Geral e Familiar na Universidade Católica de Louvain, e à investigação em diversas áreas, de que são exemplo os problemas ligados à violência familiar e de género, e os problemas ligados ao consumo de álcool. No que respeita à investigação na área do álcool salienta-se a sua participação em projectos patrocinados pela Organização Mundial de Saúde.

Não podia deixar passar a oportunidade de divulgar este evento entre nós. Penso que estes workshops abordam uma questão importante da nossa prática clínica em que nós, Médicos de Família, podemos fazer a diferença na vida dos nossos doentes.

Vemo-nos por lá!

Frederico Rosário







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