MaisOpinião - Carlos Arroz

O Preconceito


MGFamiliar ® - Friday, May 31, 2013

Estava ensonado. Uma CA despesista e destruidora da MGF desgasta qualquer santo e uma forçada ida a Lisboa incentiva a toma de um café antes que o cansaço traga dissabores numa A23 deserta.

Um café se faz favor.

Obrigado (bolas um euro para tirar o sono!).

Ia sentar-me mas deambulei pelo espaço flutuando entre a oferta de queijos, as capas dos desportivos, os chapéus de cortiça e os CD pimba.

De súbito algo não está bem.

Do cesto, caoticamente arrumado, pego num CD. Seria?

Carlos Paredes, com Fernando Alvim, no concerto de Frankfurt, gravação original da Polydor de 1983 e reedição de 1990?

Nunca me passaria pela cabeça encontrar numa estação de serviço um CD raro de Carlos Paredes no meio de outros estranhos e esforçados cantores onde nem o Grilo da Zirinha escapava.

De volta à A23, revendo Paredes naquele ataque inconfundível à guitarra, sons puros e belos pautados pelo soprar de adunco nariz, dei por mim a reviver o ano de 83 na capela do Hospital de S. José, lá bem escondida junto à Urgência de Ortopedia, para onde os anos de P me empurrarem no ensino prático da Medicina.

Entrávamos sorrateiros à hora de almoço e sabíamos, poucos, que ali se refugiava um humilde funcionário do RX de S. José e que, embora sendo o mais proeminente génio da guitarra portuguesa, necessitava daquele refúgio e daquele roubo de tempo à sua refeição para tinir cordas, fazendo-nos sonhar com um friozinho no estômago, oprimidos pela humildade e beleza de um homem bom.

A memória do som que se escapava pelas paredes da capela e que se reflectia na sisuda imagem de santificadas estátuas é algo de irrepetível mas que ainda agora, escrevendo este texto, me deixa profundamente emocionado.

Belo concerto em Frankfurt! Acha? Acho. A imprensa diz que foi um sucesso. Não me parece que tenha tocado bem. Como pode dizer isso! Procuro o som perfeito e ainda o não encontrei!

Mas, com esta saudosa recordação, cavalgou outro pensamento.

O preconceito.

Fui, durante anos, preconceituoso em relação à perspectiva de encontrar um CD decente num escaparate de uma estação de serviço de uma auto-estrada. E defini, por preconceito, como inútil qualquer procura.

Também na vida de médico de família o preconceito existe.

Há dias, na CA do Fundão, dei por mim a olhar para o ecrã perante um nome dos doentes em espera, provavelmente de criança. Cardoso e Sá nos apelidos não enganavam na origem. Etnia cigana.

Com o nome, de forma preconceituosa, presumi o menor aprumo de roupas, a maior exuberância da expressão verbal, o histrionismo típico, o cheiro, a barba de pai, a boca desdentada e tantas outras mazelas de estigmas sociais milenares.

Mas, ao contrário de muitos colegas, sempre consegui estabelecer uma boa relação com esta etnia e até algumas conquistas de presença regular em consultas, nomeadamente para os mais novos e grávidas.

Chamei.

Rapaz aprumado, cabelo bem à moda com gel qb, roupa de marca e bem conjugada. Educadíssimo. Dor de garganta, etc. Mãe entrando apressada e arrumando óculos de meia lua com aro de tartaruga. Perfumada, camisa escura linda. Calça justa, pregueada com bota curta de camurcine, preta, impecável. Dentes bem tratados, de ambos, sorriso fácil, tracto elegante e educado. Diecurso claro, termos bem empregues, verbos e adjectivos a propósito e nos tempos certos.

Mas, para meu supremo espanto e para acicatar a minha irreprimível curiosidade, a mãe pediu licença para pousar um livro na secretária, onde vi colocar marca definidora de leitura recente até à chamada para consulta.

Sim claro.

Os olhos saltaram das amígdalas para a chancela.

Alfaguara.

Entre a amoxicilina e a impressora não resisti.

O que anda a senhora a ler?

Upps. Vira-se o livro.

A máquina de fazer espanhóis de Valter Hugo Mãe.

Gosta?

Estou a terminar este ciclo de 4 e gostei muito.

Também ando a ler precisamente este livro, entre outros pois gosto de andar a ler 2 ou 3.

Ar fresco na literatura portuguesa.

Sim a par de outros.

Mas os clássicos merecem releitura.

De acordo, o importante é ler.

Cardoso Sá.

Toma para não seres preconceituoso.

E aprende, sempre.

Carlos Arroz, médico de família

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