MaisOpinião - Carlos Arroz

A angústia do hidrocelo

- Sunday, January 20, 2013

Entrou. Adulto jovem, bem parecido, constituição acima da média portuguesa. Formalidades com vigoroso aperto de mão. Pequena abordagem de relaxamento relacional com saliência para primeiro contacto.

Relato simples.

Progressivo incómodo no escroto, testículo esquerdo em crescimento até ao limite do tolerável pelo trabalho. Ida a urgência hospitalar em horário pós laboral e necessidade de visita ao médico de família por ser portador de um papel passado pelo médico no hospital.

Indaga-se percurso.

Triagem, cor manchesteriana, médico de 1º linha, no caso um especialista de medicina geral e familiar que por estas bandas ainda se perdem pelas urgências hospitalares (parece que os médicos de família “dão” mais de 60 períodos ao hospital, mesmo em horas de normal funcionamento das UCSP), especialista em urologia, observação e carta para médico de família.

 “Vamos cá ver isso antes de ler a carta do meu colega”.

Confere. Hidrocelo já de respeito á esquerda e até um incipiente à direita. Palpação compatível com a transiluminação esperada. Para operar. Sossega-se. A coisa é simples e tem recuperação rápida. Pode esperar? Sim mas mantém crescimento com aumento do incómodo. Avancemos então.

Carta.

 “Hidrocelo bilateral com indicação cirúrgica. Favor pedir ecografia do escroto e fazer credencial para consulta de Urologia...”

 “Caramba. Isto nunca mais acaba! Então está no hospital e o médico do hospital quer uma credencial para o hospital e manda-o perder um dia de trabalho para pedir o que deveria já estar marcado de forma directa? E pede exames. Porque não os pediu para o próprio hospital ou, atendendo à sua residência a mais de sessenta quilómetros, porque não lhe passou a credencial para poder faze-lo onde lhe desse jeito? Ainda por cima isto é ilegal e se levar a coisa á letra não lhe posso passar o pedido do meu colega... E desde quando é preciso uma ecografia como exame complementar num hidrocelo diagnosticado e com indicação cirúrgica?” Doente acabrunha dando razão. É de facto ridículo estar na Urologia com o médico que certamente o vai operar e ter de vir ao médico de família pedir uma credencial para tornar a ser visto pelo mesmo médico, num diagnóstico já conhecido e para estabelecer data e protocolo de internamento ou de cirurgia ambulatória... mais cinco minutos de peroração acalorada bilateral. Isto está tudo maluco. Os pobres é que se lixam. Tanto corte vai afastar doentes do tratamento mas para os Bancos há sempre mais uns milhões. Cada um a matar e a esfolar mais o Governo e o Ministro, ausentes, longe dos problemas, mas alvos predilectos.

Fecha os olhos. Os doentes não têm culpa da estupidez dos gestores da Saúde nem têm culpa que os Hospitais tenham que inventar actos e papéis para se financiarem. Além disso o ecógrafo do hospital está avariado há meses e não há massa nem crédito para o arranjar (nos últimos dois meses acabaram com as Consultas Externas de Cardiologia, de Reumatologia, de Dermatologia, de ORL, de Neurocirurgia, restringiram Oftalmologia, e Psiquiatria e tornaram as consultas de medicina familiar num inferno – o cúmulo é que uma despudorada Directora Clínica enviou cartas aos doentes cancelando as consultas de Cardiologia e aconselhando a ida ao médico de família para pedir credencial para Medicina Interna!!!).

Siga.

Passa-se já a carta de referenciação e a credencial para consulta. Tudo em papelucho para seguir por ofício elaborado pela diligente assistente administrativa pois parece um luxo ter acesso ao Alert P1 para o fazer por via electrónica (sim, estamos numa aldeia gaulesa resistindo ao Alert, ao módulo estatístico, alguns até aos computadores mantendo-se impolutos nos registos anacrónicos das folhas das antigas Caixas). Tanta diferença entre ARS não se entende. E lá vai a credencial para ecografia do escroto, já agora passe por cá para ver se está tudo bem antes de ir à consulta. Vamos ter tempo com certeza.

Poucos dias depois o encerrado envelope com o resultado da ecografia nas mãos de um confiante doente. Abre-se a coisa. “Hidrocelo de grandes dimensões à esquerda. Testículo esquerdo com imagem densa de cerca de 9mm compatível com neoformação...” Pum. Engole. Repensa. Olho no olho explica ao confiante doente, o hidrocelo é canja, que afinal parece que pode haver ali um tumor testicular, a coisa não é vulgar, mas estamos certamente no início, é urgente saber do que se trata, histologia, o doente a perder-se na explicação, é um tumor e é para decidir depressa, falemos directo, não há outro modo, o que posso esperar, vamos ver mas as perspectivas são boas e o seu estado geral excelente, talvez o hidrocelo tenha sido uma sorte e o zelo do meu colega ainda mais, isto vai resolver-se bem, estou por aqui, espero (penso e nem me atrevo a ser alto) que não seja preciso radioterapia senão este desgraçado vai parar a Vila Real de Trás os Montes, a duzentos quilómetros, trampa de País injusto e assimétrico, favas para esta profissão onde um hidrocelo nos angustia sem aviso prévio.

Carlos Arroz, médico de família

Janeiro de Cima, UCSP do Fundão, ACES Cova da Beira