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Fibrilhação auricular detectada pelo smartwatch: ficção ou realidade?

MGFamiliar ® - Tuesday, June 05, 2018




Pergunta clínica: Até que ponto os dados de um sensor de um smartwatch poderão detectar a fibrilhação auricular?

Enquadramento: A fibrilhação auricular afeta 34 milhões de pessoas em todo o mundo e é uma das principais causas de acidente vascular cerebral. Um método simples, cómodo e acessível para monitorizar de forma contínua e passiva o ritmo cardíaco poderia prevenir e evitar um elevado número de acidentes vasculares cerebrais e a respetiva morbi-mortalidade.

Desenho do Estudo: Estudo de coorte multicêntrico (multinacional) coordenado na Universidade da Califórnia, em que foram utilizados smartwatches para obter dados de frequência cardíaca e contagem de passos para o desenvolvimento de algoritmo. Incluiu um total de 9750 participantes, entre fevereiro de 2016 e março de 2017. Um algoritmo foi desenvolvido a partir da medição do intervalo R-R. A validação foi realizada tendo como referência o ECG padrão de 12 derivações numa coorte de 51 doentes com fibrilhação auricular submetidos a cardioversão. Uma segunda validação exploratória foi realizada usando dados de smartwatch de indivíduos em ambulatório (1617 indivíduos) em relação ao padrão de referência de indivíduos com história reportada de fibrilhação auricular persistente.

Resultados: Dos 9750 participantes inscritos na coorte remota, incluindo 347 participantes com fibrilhação auricular, 6143 (63,0%) eram do sexo masculino e a média etária (DP) era de 42 (12) anos. Ocorreram mais de 139 milhões de medições da frequência cardíaca nas quais o algoritmo foi desenvolvido e trabalhado. Este exibiu uma concordância de 0,97 (95% IC, 0,94-1,00; P <0,001) para detectar fibrilhação auricular contra o padrão de referência de ECG de 12 derivações na coorte de validação externa de 51 doentes com fibrilhação auricular diagnosticada; a sensibilidade foi de 98,0% e a especificidade foi de 90,2%. Numa análise exploratória com base em fibrilhação auricular persistente reportada em participantes de ambulatório, a concordância foi de 0,72 (IC 95%, 0,64-0,78); a sensibilidade foi de 67,7% e a especificidade de 67,6%.

Conclusão: Este estudo demonstrou uma elevada precisão do smartwatch na capacidade de detecção de fibrilhação auricular em 51 participantes para cardioversão. Demostrou também uma precisão moderada entre um conjunto de doentes de ambulatório com fibrilhação auricular reportada.

Comentário: Este estudo suporta o conceito de que um smartwatch incorporando um sensor de fotopletismografia e um algoritmo específico tem capacidade para detectar fibrilhação auricular, embora com alguma perda de sensibilidade e especificidade versus um ECG padrão. Sendo um método que se baseia apenas na monitorização do intervalo entre batimentos, é susceptível de falhas pelos inúmeros factores que fazem oscilar a frequência cardíaca (respiração, exercício, temperatura, posição do corpo, ansiedade, etc). Na verdade, seria interessante analisar a ocorrência de falsos positivos e até de sobrediagnóstico associado ao uso destes dispositivos. O uso destes dispositivos também poderá acarretar algum dano. Aguardam-se mais estudos que validem estas conclusões e novos desenvolvimentos destas tecnologias de forma a identificar o papel que estes dispositivos poderão vir a desempenhar no diagnóstico precoce de arritmias e eventualmente em outras alterações electrocardiográficas relevantes.

Artigo original: JAMA Cardiol

Por Pedro Santos, UCSP Ansião



Pesquisa de sangue oculto nas fezes: guaiaco vs teste imunoquímico

MGFamiliar ® - Sunday, June 03, 2018




Pergunta clínica: No rastreio do cancro do cólon e recto, serão as taxas de deteção e a adesão ao rastreio superiores com o teste imunoquímico do que com a pesquisa de sangue oculto nas fezes com guaiaco?

Enquadramento: A pesquisa de sangue oculto nas fezes pode ser realizada através de um teste com guaiaco ou através da deteção de hemoglobina humana pelo método imunoquímico. Estudos randomizados mostram que o rastreio do cancro do cólon e recto (mesmo com guaiaco) reduz a mortalidade relacionada com a doença. O teste imunoquímico é um método mais recente, específico para o sangue humano (hemoglobina), com a vantagem de não necessitar restrições alimentares prévias. Uma outra diferença entre os dois métodos reside no número de amostras de fezes que é necessário para a realização do rastreio. No rastreio com guaiaco, costumam ser necessárias duas amostras de fezes retiradas de três dejeções, no total de seis amostras, enquanto no teste imunoquímico é suficiente uma única amostra. Mas será que estas vantagens se refletem numa maior adesão ao rastreio?

Desenho do estudo: Estudo controlado não randomizado, realizado em Inglaterra, em 2014. No âmbito do programa habitual de rastreio do cancro do cólon e do recto, efectuado com guaiaco, durante um período de 6 meses, 1 em cada 28 pessoas convidadas para o rastreio recebeu o teste imunoquímico em vez do kit habitual de guaiaco. Todos os casos positivos (cut off 20 µg Hb/g fezes) foram selecionados para seguimento. As análises secundárias incluíram diferentes concentrações como cut-off, idade, sexo, história de rastreio prévia, status socioeconómico e outros fatores demográficos. O objectivo era comparar o teste com guaiaco e o teste imunoquímico quanto à taxa de deteção e quanto à adesão ao rastreio.

Resultados: A adesão ao rastreio foi significativamente superior com o teste imunoquímico (66.4% vs 59.3%; p<0.001), em ambos os sexos mas sobretudo nos homens, em todos os grupos etários e níveis socioeconómicos. Nos utentes previamente não aderentes e propostos novamente ao rastreio, as taxas de adesão ao teste imunoquímico foram o dobro comparando com o guaiaco (23.9% vs 12.5%). Nos cut-offs inferiores de hemoglobina o número de colonoscopias necessárias aumentou 3 a 4 vezes mas a deteção de neoplasias e adenomas avançados foi significativamente superior. As taxas de deteção de neoplasia/adenoma avançado foram de 0.24% e 1.29% com o imunoquímico e apenas de 0.12% and 0.35% com guaiaco.

Comentário: O teste imunoquímico, para além de mais sensível e específico na deteção de doença parece ter aumentando a adesão ao rastreio em Inglaterra. Em Portugal, segundo o relatório 2015 do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, é efetuado o rastreio populacional organizado com guaiaco na região Centro e o imunoquímico na ARS Norte e Alentejo. A legislação publicada recentemente, e que estabelece os critérios técnicos para os rastreios oncológicos de base populacional realizados no Serviço Nacional de Saúde, determina que “o teste primário é a pesquisa de sangue oculto nas fezes, pelo método imunoquímico, a realizar de 2 em 2 anos”; a implementar até ao término de 2018. No caso dos locais não abrangidos pelo rastreio organizado, poderá fazer sentido estimular a realização do teste que tem demonstrado melhores resultados na deteção da doença. Quanto à adesão, teria interesse a realização deste estudo no nosso país para avaliar a extrapolação dos resultados, sobretudo considerando que ao contrário da amostra única em Inglaterra, é variável o número de amostras utilizadas em diferentes locais na realização do imunoquímico.

Artigo original: Gut

Por Joana Penetra, USF Topázio  



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