A não perder

Fiabilidade do BNP no diagnóstico de insuficiência cardíaca em ambulatório

MGFamiliar ® - Monday, January 28, 2019




Pergunta clínica: Em doentes seguidos em cuidados de saúde primários, qual o papel do teste point-of-care do peptídeo natriurético no diagnóstico da insuficiência cardíaca?

Desenho do estudo: Revisão sistemática e meta-análise de artigos publicados até 31 de março de 2017. Os estudos elegíveis avaliaram o teste point-of-care do peptídeo natriurético tipo B (BNP) ou o fragmento N-terminal do peptídeo natriurético tipo B (NT-proBNP) para diagnóstico de insuficiência cardíaca crónica, comparando com qualquer padrão de referência relevante, incluindo ecocardiografia, exame clínico ou a combinações destes, em doentes adultos.

Resultados: 42 publicações de 39 estudos individuais cumpriram os critérios de inclusão e 40 publicações de 37 estudos foram incluídas na análise. Dos 37 estudos, 30 avaliaram o teste point-of-care do BNP e 7 avaliaram o teste NT-proBNP. Desses estudos, 15 foram realizados em ambulatório em populações com baixa prevalência de insuficiência cardíaca crónica. Cinco estudos foram realizados nos cuidados de saúde primários (CSP). Para valores > 100 pg/mL, a sensibilidade do BNP foi de 0,95 (intervalo de confiança de 95% 0,90 a 0,98) a 100 pg/mL. Nos valores <100 pg/mL, a sensibilidade variou de 0,46 a 0,97 e a especificidade de 0,31 a 0,98. Estudos em cuidados de saúde primários que usaram o teste do NT-proBNP relataram uma sensibilidade de 0,99 (0,57 a 1,00) e especificidade de 0,60 (0,44 a 0,74) a 135 pg/mL. Não houve diferença estatisticamente significativa na precisão diagnóstica entre os testes BNP e NT-proBNP.

Conclusão: A sensibilidade do peptídeo natriurético (BNP) é elevada, pelo que este poderá ser um bom teste a usar para excluir a hipótese de insuficiência cardíaca em pacientes nos Cuidados de Saúde Primários. Isto, usando, pelo menos, o limiar de 100 pg/mL. A especificidade foi muito variável e relativamente baixa, pelo que este teste apresenta limitações no que concerne à sua capacidade de confirmação do diagnóstico de insuficiência cardíaca.

Comentário: Os equipamentos point-of-care são sistemas de fácil utilização para realização de testes junto do doentes e confirmação do diagnósticos de certas patologias. Esta revisão sistemática e meta-análise foi a primeira a focar a temática do point-of-care do péptido natriurético para a insuficiência cardíaca crónica ao nível dos cuidados de saúde primários. No entanto, os resultados foram variáveis, não sendo ainda claro se estes testes poderiam ser utilizados para exclusão de insuficiência cardíaca crónica no contexto dos cuidados de saúde primários. Por outro lado, nenhum dos estudos avaliou se o uso do teste point-of-care conduziu a melhores resultados para os pacientes. Dada a falta de estudos a este nível de cuidados e possíveis limitações metodológicas nos estudos incluídos nesta revisão, são necessários outros estudos, em larga escala, para avaliar o papel do teste point-of-care do peptídeo natriurético e clarificar os limiares apropriados, de modo a melhorar os cuidados de doentes com suspeita ou insuficiência cardíaca crónica.

Artigo original: BMJ

Por Ana Fontes, USF Uma Ponte para a Saúde  




Tratamento da hipertensão arterial apenas se justifica a partir de 140 mmHg

MGFamiliar ® - Saturday, January 19, 2019





Pergunta clínica: A partir de que valor de pressão arterial sistólica devemos iniciar tratamento? Por outras palavras, a partir de que valor de pressão arterial sistólica o tratamento contribuí para reduzir a morbi-mortalidade cardiovascular e cerebrovascular?

Desenho do estudo: Revisão sistemática com meta-análise. A pesquisa incluiu estudos randomizados e controlados com pelo menos 1000 pacientes-ano  que comparavam tratamento farmacológico vs placebo ou que comparavam diferentes metas de pressão arterial.

Resultados: Foram incluídos 74 estudos envolvendo um total de 306.273 pacientes (60,1% homens; idade média 63,6 anos). Em doentes sem doença cardíaca pré-existente, isto é, em prevenção primária, a diminuição da pressão arterial sistólica que era inicialmente superior a 140mmHg diminuiu o risco de morte (risco relativo(RR)=0.93, 95%; 0.88-1.0 se pressão arterial sistólica < 160mmHg; RR=0.87, 0.75-1.00 se pressão arterial sistólica 140-159mmHg) e de eventos cardiovasculares (RR=0.78, 0.7-0.87 se pressão arterial sistólica > 160mmHg; RR=0.88, 0.8-0.96 se pressão arterial sistólica 140-159mmHg). Nos pacientes que iniciaram o tratamento com valores inferiores a 140mmHg, não se verificou alteração no que concerne à morbilidade ou mortalidade. Nos pacientes com doença coronária prévia e uma pressão arterial sistólica média de 138mmHg, o tratamento reduziu o risco de novos eventos cardiovasculares major (RR = 0.9; 0.84-0.97). No entanto, não prolongaram a vida. Segundo os autores, houve um alto grau de heterogeneidade entre os resultados desses ensaios que acabaram por reduzir a confiança nos resultados, ressaltando a existência de viés de publicação em estudos que avaliaram o efeito em eventos cardiovasculares major, isto é, os estudos que não mostraram diferenças não foram publicados.

Conclusão: A redução da pressão arterial sistólica para valores superiores a 140mmHg está associada a redução da mortalidade e risco de doença cardiovascular. O tratamento anti-hipertensivo para valores pressão arterial sistólica inferiores a 140 mmHg não esteve associado a protecção adicional, excepto em doentes com doença coronária prévia.

Comentário: Estes resultados devem ser enquadrados com a leitura crítica do estudo SPRINT e orientações deste ano. Recomendamos a leitura complementar e a audição deste podcast. A salientar que no estudo SPRINT, o uso, em condições de "laboratório", de medidores automatizados terão resultado em leituras 10-20 mmHg inferiores às leituras habituais do consultório, pelo que o os 120mmHg do estudo SPRINT não andarão, no mundo real, muito longe dos 140 mmHg. Esta revisão sistemática é muito relevante numa perspetiva da prescrição racional em que o foco principal deve ser o ganho em saúde para o doente.

Artigo original: JAMA Intern Med

Por Carlos Santos, USF Alcaides de Faria






Recent Posts


Tags

 

Archive