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Lúpus: novos critérios de diagnóstico

MGFamiliar ® - Thursday, July 23, 2020




Pergunta clínica: Qual deverá ser a abordagem diagnóstica de doentes com suspeita de Lupus Eritematoso Sistémico?

Enquadramento: A Liga Europeia contra o Lupus e o Colégio Americano de Reumatologia reúnem-se frequentemente para actualização de normas para o diagnóstico e seguimento de uma grande diversidade de problemas reumatológicos. Desde 1982 que foram nomeadas várias abordagens para avaliação de doentes com suspeita de Lupus Eritematoso Sistémico. Cada atualização reflete o desenvolvimento da compreensão da doença e novos ensaios clínicos.

Desenho do estudo: Estes novos critérios de classificação foram desenvolvidos através de um processo que incluiu várias abordagens, desde revisões sistemáticas; método Delphi; revisões por especialistas; aplicação dos critérios em doentes com Lúpus Eritematoso Sistémico precoce ou condições que se assemelham a Lúpus Eritematoso Sistémico; aperfeiçoamento e ponderação dos critérios em doentes com Lúpus Eritematoso Sistémico confirmado; e incorporando opinião dos doentes com Lúpus Eritematoso Sistémico.

Resultados: A recomendação final consiste em realizar em primeiro lugar o doseamento do Anticorpo Antinuclear; se existir titulação de pelo menos 1:80, aplicam-se os critérios adicionais e a sua ponderação. Se for superior a 10 ou mais pontos, é provável que o doente tenha Lúpus Eritematoso Sistémico. Os critérios adicionais e sua ponderação assentam em vários domínios e são os seguintes: febre (2), leucopenia (3), trombocitopenia (4), hemólise autoimune (4), delírio (2), psicose (2), convulsão (5), alopecia não cicatrizada (2), aftas (2), lúpus cutâneo subagudo ou lúpus discoide (4), lúpus cutâneo agudo (6), derrame pleural ou pericárdico (5), pericardite aguda (6), envolvimento articular (6), proteinuria >0.5g/24h (4), biopsia renal classe II ou nefrite lúpica tipo V (8), biópsia renal classe III ou nefrite lúpica tipo IV (10), anticorpo anti-cardiolipina OU anticorpo anti beta 2GP1 OU anticoagulante lúpico (2), C3 baixo OU C4 baixo (3), C3 baixo E C4 baixo (4), anticorpo anti-dsDNA OU anticorpo anti-smith (6). Para  criar uma estrutura de apoio à telemedicina, estabeleceram-se critérios fotográficos tais como alopécia, afta ou manifestações cutâneas. Comparativamente com os critérios de 1997, estes novos critérios apresentam maior sensibilidade (96.1% vs 82.8%) e a mesma especificidade (93.4%). Comparativamente aos critérios de 2012, a sensibilidade foi semelhante (96.1% vs 96.7%) mas apresentam maior especificidade (93.4% vs 83.7%).

Comentário: Estes novos critérios de classificação do Lúpus Eritematoso Sistémico para além de serem mais sensíveis e específicos, permitem um diagnóstico mais preciso e adequado de Lúpus Eritematoso Sistémico. De acordo com este documento se o doseamento de Anticorpo Antinuclear for negativo, está excluído o diagnostico de Lúpus Eritematoso Sistémico, o que poderá contribuir para uma maior clareza na abordagem do doente evitando uma cascata de novos exames.

Artigo original: Arthritis Rheumatol

Por Marta Fraga, USF Araceti



A prática de futebol profissional associa-se a um risco aumentado de doenças neurodegenerativas

MGFamiliar ® - Sunday, July 05, 2020




Pergunta clínica: Os jogadores profissionais de futebol têm maior risco de doença neurodegenerativa?

Enquadramento: A prática de actividade física através do desporto tem evidentes ganhos em saúde para a população em geral e para os atletas de alta competição. Não obstante, têm sido publicados alguns estudos que referem que em desportos com risco de exposição prolongada a traumatismo craniano (como no futebol americano) existe risco acrescido de doença neurodegenerativa.

Desenho do estudo: Coorte retrospetiva. Foram selecionados 7676 jogadores profissionais de futebol (identificados através da base de dados de praticantes da modalidade na Escócia) e 23028 controlos da população geral não praticante desta modalidade (ratio 1:3). As causas de morte foram determinadas através do acesso aos certificados de óbito, tendo sido ainda recolhida informação acerca da medicação habitual a que estes estariam sujeitos na altura do seu óbito..

Resultados: Durante o período de follow-up (mediana de 18 anos), 1180 jogadores profissionais de futebol (15,4%) e 3807 controlos (16,5%) faleceram. A mortalidade por todas as causas foi menor nos praticantes da modalidade comparativamente aos controlos (Hazard Ratio (HR): 0.87; 95% CI 0.80–0.93, p<0.001). A probabilidade de qualquer doença neurodegenerativa ser listada como a principal causa de morte foi significativamente maior nos ex-jogadores do que nos controlos (HR: 3.45; 95% CI 2.11–5.62, p<0.001). Similarmente, as doenças neurodegenerativas foram listadas mais frequentemente nos ex-jogadores como causa primária ou como possíveis causas contribuidoras de morte comparativamente aos controlos (HR: 3.53; 95% CI 2.72–4.57, p<0.001). O risco foi maior para a doença de Alzheimer (HR: 5.07; 95% CI 2.92–8.82, p<0.001) e menor para a doença de Parkinson (HR: 2.15; 95% CI 1.17–3.96, p=0.01), embora sempre superior nos ex-praticantes da modalidade. A prescrição de medicação antidemencial foi significativamente superior nos ex-jogadores comparativamente aos controlos (HR: 4.90; 95% CI 3.81–6.31, p<0.001). Comparando os guarda-redes com os restantes jogadores de campo, a probabilidade de qualquer doença neurodegenerativa ser listada como a principal causa de morte ou como possíveis causas contribuidoras de morte foi semelhante, embora a prescrição de medicação antidemencial fosse menos frequente nos primeiros (OR: 0.41; 95% CI 0.19–0.89, p=0.02).

Comentário: Este estudo demonstra que os ex-jogadores de futebol da Escócia têm um risco aumentado de doenças neurodegenerativas. As taxas absolutas foram de 2,9% versus 1,0% numa mediana de 18 anos (número necessário para jogar futebol profissional para dano = 52). Estes resultados não devem causar pânico nos jogadores, pais e treinadores. Os autores salientam que não é correto transpor estes resultados para a prática recreativa de desporto. O futebol beneficia a saúde das crianças e é esse o foco mais relevante e com mais evidência. A investigação tem limitações, tais como a possibilidade de existência de um viés de atribuição (devido à atribuição imprecisa da causa da morte nos atestados de óbito) e ao facto de todos os jogadores incluídos no estudo serem todos homens. Novos estudos serão importantes para consolidar esta possível ligação (associação não é sinónimo de causa-efeito) e, idealmente, verificar se esta mesma existe na prática de futebol recreativo (feminino e masculino) e não só a nível profissional.

Artigo original: N Engl J Med

Por Filipe Cabral, USF Marco




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