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Estudo coorte: álcool e rosácea


MGFamiliar ® - Sunday, May 27, 2018




Pergunta clínica: Na mulher adulta, o consumo de álcool associa-se ao aumento do risco de desenvolvimento de rosácea?

Enquadramento: A rosácea é uma dermatose caracterizada por eritema crónico da face. A disfunção na resposta imune inata e adaptativa, a desregulação dos sistemas vascular e nervoso e a sua interação com a resposta inflamatória, têm sido implicadas no desenvolvimento da rosácea. Tem sido postulado que a vasodilatação cutânea e os efeitos pro-inflamatórios resultantes da ingestão etílica contribuem para o desenvolvimento e/ou exacerbação da rosácea, contudo, sem resultados conclusivos.

Desenho do estudo: Estudo coorte. Foi aplicado um questionário (auto-preenchimento) sobre hábitos etílicos a um total de 82.737 enfermeiras no contexto do “Nurses Health Study II” entre os anos de 1991-2005. Foi questionada a frequência de consumo de bebidas alcoólicas específicas, nomeadamente cerveja, cerveja light, vinho tinto, vinho branco e bebidas destiladas, durante os 12 meses anteriores e agrupadas em 9 categorias, de acordo com o número de bebidas ingeridas em: nenhuma ou <1/mês; 1-3/mês; 1/semana; 2-4/semana; 5-6/semana; 1/dia; 2- 3/dia; 4-5/dia e >6/dia. As informações sobre hábitos etílicos foram recolhidas a cada 4 anos. No final do seguimento do estudo (em 2005) forram recolhidos os dados relativos ao diagnóstico clínico de rosácea (incluindo data do diagnóstico). Para a análise estatística dos dados foram utilizados modelos de riscos proporcionais de Cox. A análise foi ajustada à idade, raça, IMC, uso de terapia hormonal de substituição, hábitos tabágicos e atividade física.

Resultados: Durante os 14 anos de seguimento foram identificados 4945 novos casos de rosácea. Comparativamente com a abstinência, o consumo de álcool associou-se a um risco significativamente aumentado de rosácea (p<0,0001), que foi tanto mais elevado quanto maior a quantidade de álcool ingerido, HR ajustado de 1.12 ( IC 95% 1.05-1.20) para consumos de álcool entre 1-4 g/dia e de 1.53 (IC 95% 1.26-1.84) para consumos de 30 g/dia. As associações mantiveram-se consistentes quando se analisou de forma independente diferentes categorias de consumo tabágico. Uma análise adicional aos tipos de bebidas alcoólicas implicados revelou que o vinho branco (p<0,0001) e as bebidas destiladas (p<0,0006) foram associadas a um risco significativamente superior de desenvolver rosácea, comparativamente às restantes.

Conclusão: Verificou-se que o consumo de álcool está associado ao aumento do risco de desenvolvimento de rosácea nas mulheres. Esta associação foi mais significativa para o consumo de vinho branco e de bebidas destiladas.

Comentário: Pese embora este estudo não tenha incidido sobre os mecanismos etiológicos envolvidos na associação positiva entre o consumo de álcool e o risco aumentado de desenvolvimento de rosácea, contribuiu para um melhor conhecimento da patologia, confirmando a existência deste fator de risco para o seu desenvolvimento, com potenciais implicações no tratamento. Ressalva-se, contudo, a existência de algum viés no diagnóstico de rosácea, por este ter sido auto-reportado e não validado clinicamente, um efeito que, no entanto, pode ter sido minimizado por se tratar de um grupo de profissionais de saúde, sendo expectável que forneçam informações credíveis. Por outro lado, um estudo epidemiológico não pode excluir a possibilidade de viés residual causada por variáveis não avaliadas, ou medidas incorretamente.  Este estudo releva a importância das ações de promoção do consumo moderado e prevenção das doenças associadas ao consumo de álcool, em particular nas mulheres.

Artigo original: J Am Acad Dermatol

Por Patrícia Zlamalik, USF Prelada 




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