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USPSTF: Rastreio do cancro da tiróide


MGFamiliar ® - Sunday, October 08, 2017




Pergunta clínica: Em adultos assintomáticos, o rastreio de cancro da tiróide conduz à diminuição da mortalidade e associa-se a mais benefícios do que malefícios?

Enquadramento: A incidência do diagnóstico de cancro da tiróide aumentou 4.5% por ano nos últimos 10 anos, mais do que qualquer outro tipo de cancro. No entanto, não se verificou semelhante evolução relativamente à taxa de mortalidade por este cancro. A grande maioria dos casos de cancro da tiróide têm um bom prognóstico, sendo a taxa sobrevida global aos 5 anos de cerca de 98.1%. Desta forma, e para atualizar as suas recomendações de 1996, a United State Preventive Services Task realizou este estudo com o objetivo de perceber os benefícios e malefícios do rastreio do cancro da tiróide em indivíduos assintomáticos, identificar a precisão diagnóstica dos métodos de rastreio existentes (palpação cervical e ecografia) e perceber os benefícios e malefícios do tratamento do carcinoma da tiroide detetado nestas formas de rastreio.

Desenho do estudo: Revisão sistemática da evidência científica existente através da pesquisa em bases de dados como a MEDLINE e Cochrane Central Register of Controlled Trials, de estudos relevantes publicados entre janeiro de 1996 e janeiro de 2016, com atualização constante dos estudos publicados até dezembro de 2016.

Resultados: A evidência científica atualmente disponível acerca da precisão diagnóstica da palpação cervical ou ecografia como forma de rastreio do cancro da tiróide em adultos assintomáticos é insuficiente. A evidência em relação à melhoria dos resultados em saúde das pessoas submetidas a rastreio, é de igual forma insuficiente. No entanto, a magnitude do possível benefício existente (que alguns estudos mostram) não será mais do que ligeira, tendo em conta a relativa raridade do cancro da tiróide, a aparente ausência de diferenças nos resultados entre doentes que foram tratados vs. doentes monitorizados e a evidência observacional da não existência de alteração na mortalidade com a introdução de um rastreio populacional organizado de cancro da tiroide. A United States Preventive Services Task Force encontrou evidência que relaciona o diagnóstico e tratamento do cancro da tiróide com um malefício de magnitude no mínimo moderada, tendo em conta os efeitos secundários resultantes do tratamento do cancro da tiroide e a evidência de sobrediagnóstico e sobretratamento como resultado do rastreio.

Conclusão: O rastreio de cancro da tiróide em pessoas assintomáticas resulta em malefícios que se sobrepõem aos seus benefícios, pelo que não se recomenda a realização deste rastreio.

Comentário: Nos últimos anos, temos assistido a um crescimento da realização de meios auxiliares de diagnóstico para rastreio de vários tipos de patologias oncológicas e não oncológicas, em consequência não só do desenvolvimento da medicina, mas também do fácil acesso dos utentes a informação sobre a saúde. Isto trouxe a necessidade de termos em atenção situações como o sobrediagnóstico e o sobretratamento, assim como os malefícios que por vezes suplantam os benefícios da realização destes testes. O cancro da tiróide tem sido um dos abordados frequentemente neste sentido, visto tratar-se de uma neoplasia muitas vezes indolente, com bom prognóstico e cujo tratamento está muitas vezes associado a efeitos adversos e consequências menos positivas. Neste sentido, as novas recomendações da United States Preventive Services Task Force em relação ao rastreio do cancro da tiróide vêm uma vez mais realçar a importância e pôr em discussão a necessidade da implementação de cuidados de Prevenção Quaternária em todos os níveis de cuidados de saúde.

Artigo original: JAMA

Por Carla Martins, USF Vale do Vez




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