A não perder

Fiabilidade do BNP no diagnóstico de insuficiência cardíaca em ambulatório

MGFamiliar ® - Monday, January 28, 2019




Pergunta clínica: Em doentes seguidos em cuidados de saúde primários, qual o papel do teste point-of-care do peptídeo natriurético no diagnóstico da insuficiência cardíaca?

Desenho do estudo: Revisão sistemática e meta-análise de artigos publicados até 31 de março de 2017. Os estudos elegíveis avaliaram o teste point-of-care do peptídeo natriurético tipo B (BNP) ou o fragmento N-terminal do peptídeo natriurético tipo B (NT-proBNP) para diagnóstico de insuficiência cardíaca crónica, comparando com qualquer padrão de referência relevante, incluindo ecocardiografia, exame clínico ou a combinações destes, em doentes adultos.

Resultados: 42 publicações de 39 estudos individuais cumpriram os critérios de inclusão e 40 publicações de 37 estudos foram incluídas na análise. Dos 37 estudos, 30 avaliaram o teste point-of-care do BNP e 7 avaliaram o teste NT-proBNP. Desses estudos, 15 foram realizados em ambulatório em populações com baixa prevalência de insuficiência cardíaca crónica. Cinco estudos foram realizados nos cuidados de saúde primários (CSP). Para valores > 100 pg/mL, a sensibilidade do BNP foi de 0,95 (intervalo de confiança de 95% 0,90 a 0,98) a 100 pg/mL. Nos valores <100 pg/mL, a sensibilidade variou de 0,46 a 0,97 e a especificidade de 0,31 a 0,98. Estudos em cuidados de saúde primários que usaram o teste do NT-proBNP relataram uma sensibilidade de 0,99 (0,57 a 1,00) e especificidade de 0,60 (0,44 a 0,74) a 135 pg/mL. Não houve diferença estatisticamente significativa na precisão diagnóstica entre os testes BNP e NT-proBNP.

Conclusão: A sensibilidade do peptídeo natriurético (BNP) é elevada, pelo que este poderá ser um bom teste a usar para excluir a hipótese de insuficiência cardíaca em pacientes nos Cuidados de Saúde Primários. Isto, usando, pelo menos, o limiar de 100 pg/mL. A especificidade foi muito variável e relativamente baixa, pelo que este teste apresenta limitações no que concerne à sua capacidade de confirmação do diagnóstico de insuficiência cardíaca.

Comentário: Os equipamentos point-of-care são sistemas de fácil utilização para realização de testes junto do doentes e confirmação do diagnósticos de certas patologias. Esta revisão sistemática e meta-análise foi a primeira a focar a temática do point-of-care do péptido natriurético para a insuficiência cardíaca crónica ao nível dos cuidados de saúde primários. No entanto, os resultados foram variáveis, não sendo ainda claro se estes testes poderiam ser utilizados para exclusão de insuficiência cardíaca crónica no contexto dos cuidados de saúde primários. Por outro lado, nenhum dos estudos avaliou se o uso do teste point-of-care conduziu a melhores resultados para os pacientes. Dada a falta de estudos a este nível de cuidados e possíveis limitações metodológicas nos estudos incluídos nesta revisão, são necessários outros estudos, em larga escala, para avaliar o papel do teste point-of-care do peptídeo natriurético e clarificar os limiares apropriados, de modo a melhorar os cuidados de doentes com suspeita ou insuficiência cardíaca crónica.

Artigo original: BMJ

Por Ana Fontes, USF Uma Ponte para a Saúde  




Tratamento da hipertensão arterial apenas se justifica a partir de 140 mmHg

MGFamiliar ® - Saturday, January 19, 2019





Pergunta clínica: A partir de que valor de pressão arterial sistólica devemos iniciar tratamento? Por outras palavras, a partir de que valor de pressão arterial sistólica o tratamento contribuí para reduzir a morbi-mortalidade cardiovascular e cerebrovascular?

Desenho do estudo: Revisão sistemática com meta-análise. A pesquisa incluiu estudos randomizados e controlados com pelo menos 1000 pacientes-ano  que comparavam tratamento farmacológico vs placebo ou que comparavam diferentes metas de pressão arterial.

Resultados: Foram incluídos 74 estudos envolvendo um total de 306.273 pacientes (60,1% homens; idade média 63,6 anos). Em doentes sem doença cardíaca pré-existente, isto é, em prevenção primária, a diminuição da pressão arterial sistólica que era inicialmente superior a 140mmHg diminuiu o risco de morte (risco relativo(RR)=0.93, 95%; 0.88-1.0 se pressão arterial sistólica < 160mmHg; RR=0.87, 0.75-1.00 se pressão arterial sistólica 140-159mmHg) e de eventos cardiovasculares (RR=0.78, 0.7-0.87 se pressão arterial sistólica > 160mmHg; RR=0.88, 0.8-0.96 se pressão arterial sistólica 140-159mmHg). Nos pacientes que iniciaram o tratamento com valores inferiores a 140mmHg, não se verificou alteração no que concerne à morbilidade ou mortalidade. Nos pacientes com doença coronária prévia e uma pressão arterial sistólica média de 138mmHg, o tratamento reduziu o risco de novos eventos cardiovasculares major (RR = 0.9; 0.84-0.97). No entanto, não prolongaram a vida. Segundo os autores, houve um alto grau de heterogeneidade entre os resultados desses ensaios que acabaram por reduzir a confiança nos resultados, ressaltando a existência de viés de publicação em estudos que avaliaram o efeito em eventos cardiovasculares major, isto é, os estudos que não mostraram diferenças não foram publicados.

Conclusão: A redução da pressão arterial sistólica para valores superiores a 140mmHg está associada a redução da mortalidade e risco de doença cardiovascular. O tratamento anti-hipertensivo para valores pressão arterial sistólica inferiores a 140 mmHg não esteve associado a protecção adicional, excepto em doentes com doença coronária prévia.

Comentário: Estes resultados devem ser enquadrados com a leitura crítica do estudo SPRINT e orientações deste ano. Recomendamos a leitura complementar e a audição deste podcast. A salientar que no estudo SPRINT, o uso, em condições de "laboratório", de medidores automatizados terão resultado em leituras 10-20 mmHg inferiores às leituras habituais do consultório, pelo que o os 120mmHg do estudo SPRINT não andarão, no mundo real, muito longe dos 140 mmHg. Esta revisão sistemática é muito relevante numa perspetiva da prescrição racional em que o foco principal deve ser o ganho em saúde para o doente.

Artigo original: JAMA Intern Med

Por Carlos Santos, USF Alcaides de Faria





Revisão USPSTF: rastreio de doença coronária por ECG

MGFamiliar ® - Tuesday, December 11, 2018




Pergunta clínica: Em adultos assintomáticos e com baixo risco cardiovascular, o rastreio de doença coronária por ECG traz mais benefício do que dano?

Enquadramento: As doenças cardiovasculares são a causa mais comum de morte nos Estados Unidos da América. A prevenção de eventos cardiovasculares através da modificação de fatores de risco é atualmente determinada pela avaliação de risco de doença cardiovascular com ferramentas como o Framingham Risk Score ou o Pooled Cohort Equations. Em 2012, a United States Preventive Services Task Force emitiu um parecer contra o rastreio de doença coronária com ECG em adultos de baixo risco.

Desenho do estudo: Revisão da evidência pela United States Preventive Services Task Force.

Resultados: Para adultos assintomáticos e com baixo risco de eventos cardiovasculares (risco a 10 anos < 10%), é muito pouco provável que as informações do ECG (em repouso ou de exercício) resultem numa mudança na categoria de risco do doente, avaliada pelos scores de risco. Possíveis danos estão associados ao rastreio com ECG de repouso ou de exercício, especificamente os potenciais efeitos adversos de testes invasivos subsequentes. Para adultos assintomáticos com risco intermédio ou alto para doença cardiovascular a evidência disponível é insuficiente para determinar até que ponto as informações do ECG em repouso ou de exercício complementam os modelos atuais de avaliação de risco de doença cardiovascular.

Conclusão: A United States Preventive Services Task Force não recomenda o rastreio com ECG em repouso ou exercício para prevenir eventos cardiovasculares em adultos assintomáticos com baixo risco (Força de Recomendação D). A evidência disponível é insuficiente para concluir relativamente ao risco-benefício do rastreio com ECG de repouso ou de exercício na prevenção de eventos cardiovasculares em adultos assintomáticos com risco cardiovascular intermédio ou alto.

Comentário:  O ECG, pode levar à realização de outros exames e procedimentos invasivos, que em última análise nada contribuem para a melhoria do prognóstico do doente. A aplicação de escalas de risco, envolvendo o doente neste processo, pode constituir uma oportunidade para demonstrar quais os fatores que influenciam o seu maior ou menor risco, podendo motivar o cidadão para um estilo de vida saudável.

Artigo original: JAMA

Por Andreia Ramalho, USF Sobreda 



Incidência e causas de morte súbita cardíaca em jovens atletas

MGFamiliar ® - Wednesday, November 28, 2018




Pergunta clínica: Qual a incidência e quais as causas de morte súbita cardíaca em jovens atletas?

Enquadramento: A morte súbita cardíaca em jovens atletas aparentemente saudáveis é um acontecimento devastador, e leva a repensar as estratégias preventivas, nomeadamente o papel do rastreio cardíaco nesta população. A ausência de um registo sistematizado destes casos constitui um entrave à determinação da sua incidência. A associação de futebol britânica implementou um programa de rastreio para jovens atletas. O objetivo deste estudo foi determinar a incidência e as causas de morte súbita cardíaca nos jogadores de futebol adolescentes do Reino Unido.

Desenho do estudo: Estudo prospectivo longitudinal, com 20 anos de seguimento. Entre 1/1/1996 e 31/12/2016 foram submetidos a rastreio cardíaco 11168 jovens atletas de 92 clubes, com idade entre os 15 e os 17 anos, com elevada performance nos últimos 5 anos (todos tinham recebido bolsas de estudo, tendo em vista a progressão para uma carreira profissional). A avaliação incluiu história clínica, exame objetivo, eletrocardiograma (ECG) de 12 derivações e ecocardiograma. De acordo com o rastreio, cada atleta foi classificado como “normal”, “doença cardíaca detetada”, ou “avaliação adicional requerida” (anomalias que implicavam a investigação de doença cardíaca). A investigação adicional foi levada a cabo em centros especializados, com critérios de diagnóstico bem definidos. Após categorização da amostra, os atletas com anomalias associadas a morte súbita cardíaca foram aconselhados a abandonar o desporto competitivo de acordo com as orientações da European Society of Cardiology e da American Heart Association. O registo das mortes foi assegurado através de relato voluntário à associação de futebol pelos clubes. Foi ainda enviado um pedido aos profissionais de saúde dos clubes para reportar as mortes por todas as causas, e desde 2005 foi feita pesquisa informática para eventual deteção de casos não reportados. Foram obtidas todas as certidões de óbito, e todos os casos de morte súbita cardíaca foram submetidos a autópsia, com confirmação diagnóstica.

Resultados: Durante um período de 20 anos, 11168 atletas (95% meninos) foram rastreados através da anamnese, exame físico, ECG e ecocardiograma. Um total de 820 atletas (7%) necessitou de avaliação adicional que pode ter incluído a prova de esforço, o Holter de 24 horas, a ressonância magnética cardíaca ou um estudo eletrofisiológico. Em 42 atletas, detetou-se anomalias normalmente associadas à morte cardíaca, destacando-se o síndrome de Wolff-Parkinson-White (n = 26) e a cardiomiopatia hipertrófica (n = 5). Em 225 (2%) atletas, detetaram-se outras patologias cardíacas, destacando-se a válvula aórtica bicúspide, comunicação interauricular, regurgitação aórtica, prolapso da válvula mitral ou persistência do canal arterial.  Enquanto que, no global, o ecocardiograma foi o teste que mais anomalias detetou (237 dos 267 problemas cardíacos totais), o ECG detectou 36 dos 42 casos de anomalias normalmente associadas à morte cardíaca. Contudo, apenas em dois casos o ecocardiograma foi o único exame a detetar a anomalia, isto tendo em consideração a restante avaliação que incluiu a história clínica, o exame físico e o ECG.  Os atletas com anomalias normalmente associadas à morte cardíaca foram aconselhados a efectuar o respectivo tratamento, se possível, antes de voltar a jogar, e, se não fosse possível, foramaconselhados a abandonar a competição desportiva. Durante os cerca de 118.000 pessoas-ano de acompanhamento, verificaram-se 8 mortes cardíacas súbitas. Duas destas mortes ocorreram em atletas com cardiomiopatia detectada, mas que, contrariando o aconselhamento recebido, se mantiveram a jogar futebol. Uma destas 8 mortes deveu-se a uma arritmia súbita e as restantes 5 tinham uma cardiomiopatia que não estava presente ou não havia sido detectada nos rastreios efectuados. A taxa de morte súbita cardíaca foi de aproximadamente 7 por 100.000 pessoas-ano. Embora a morte súbita cardíaca tenha sido responsável por 35% das mortes nestes jovens atletas, os acidentes automobilísticos foram responsáveis ​​por 30% das mortes, doenças oncológicas por 22% e a overdose de drogas e o suicídio por 13% das mortes. 

Comentário: Apesar de muito pertinente, este estudo apresenta algumas limitações. Os dados relativos à mortalidade dependeram essencialmente do reporte dos casos pelos clubes. O único outcome avaliado quanto ao desfecho foi a mortalidade, sem menção de casos de miocardiopatia detetados após o rastreio inicial ou de sobreviventes de paragem cardiorespiratória. Por último, a população estudada era formada por atletas muito jovens e com excelente capacidade física, o que pode subestimar a carga das doenças cardíacas e a prevalência de morte súbita cardíaca em atletas mais velhos ou com menor capacidade. No que toca à aplicabilidade do rastreio realizado, os resultados em saúde podem parecer modestos, nomeadamente pela elevada incidência de casos de morte súbita cardíaca em atletas com rastreio prévio normal (dos 8 casos de morte súbita cardíaca, 6 tinham rastreio normal), além dos elevados custos. O ECG teve elevada sensibilidade na deteção de algumas anomalias. O rastreio limitado à história clínica, ao exame físico e ao ECG detectará aproximadamente 90% ou mais dos atletas com risco de morte súbita cardíaca.

Artigo original: N Engl J Med

Por Sara Coelho, USF Mondego




Meta-análise: valor alvo da pressão arterial sistólica

MGFamiliar ® - Tuesday, September 18, 2018




Pergunta clínica: A partir de que valores de pressão arterial sistólica se deve iniciar tratamento de forma a diminuir o risco de morte e os eventos cardiovasculares?  

Enquadramento: Apesar de se reconhecer que a hipertensão arterial é um importante fator de risco para a mortalidade e doença cardiovascular, o valor de pressão arterial a ser atingido com tratamento farmacológico ainda é alvo de debate, assim como o valor a partir do qual se deve iniciar tratamento.

Desenho do estudo: Revisão sistemática e meta-análise. Incluídas revisões sistemáticas anteriormente publicadas, identificadas a partir da PubMed, Cochrane Database of Systematic Reviews e Database of Abstracts of Review of Effect, bem como ensaios clínicos aleatorizados e controlados (RCTs) publicados após 1 de novembro de 2015 (pesquisa em fevereiro de 2017). RCTs considerados tinham seguimento mínimo de 1000 pacientes-ano, comparando fármacos hipotensores vs placebo ou objetivos de PA diferentes. Os seguintes outcomes foram avaliados: mortalidade para todas as causas, mortalidade cardiovascular, eventos cardiovasculares major, doença coronária, AVC, insuficiência cardíaca e doença renal terminal. Ensaios foram agrupados em prevenção primária (se menos de 50% dos pacientes avaliados possuíam doença cardiovascular estabelecida ou doença aterosclerótica documentada) ou prevenção secundária (se mais de 50% tinha doença cardiovascular prévia).

Resultados: Incluídos 74 ensaios, com um total de 306.273 pacientes (60.1% sexo masculino, idade média 63.6 anos).  Em prevenção primária (51 ensaios), o valor tensional de base influencia a associação entre o tratamento hipotensor e os eventos cardiovasculares major. Se PAS≥160 mmHg, o tratamento hipotensor associou-se a redução do risco de mortalidade global (RR=0.93, 95% IC, 0.87-1.00) e de eventos cardiovasculares major (RR=0.78, 95% IC, 0.70-0.87). Se 140≤PAS≤159 mmHg, o tratamento associou-se a redução do risco de mortalidade global (RR=0.87, 95% IC, 0.75-1.00), mas a associação com eventos cardiovasculares major foi menos pronunciada (RR=0.88, 95% IC, 0.90-1.04); 3) Se PAS<140 mmHg, o tratamento hipotensor não se associou a redução de risco de mortalidade global ou por eventos cardiovasculares major. Em prevenção secundária, e considerando um valor base tensional de 138 mmHg, o tratamento hipotensor associou-se a redução de risco para eventos cardiovasculares major (RR=0.90, 95% IC, 0.84-0.97), não se registando diferenças significativas na sobrevivência.

Comentário: A salientar algumas limitações existentes, nomeadamente, viés ecológico, inclusão dicotómica nos níveis de prevenção de forma grosseira, inclusão de estudos patrocinados pela indústria cujos outcomes são mais favoráveis, falta de representação das mulheres em estudos de prevenção terciária (que os autores consideram como prevenção "secundária"). Apesar do acima exposto, a demonstração de benefício vem reforçar a importância da introdução de tratamento hipotensor se PAS≥140 mmHg. Com base na evidência científica que este artigo reúne, e reconhecendo o papel central dos cuidados de saúde primários na vigilância e controlo deste fator de risco cardiovascular, os Médicos de Família deverão refletir sobre a sua atuação e adequá-la, procurando exercer medicina baseada na evidência.

Artigo original: JAMA Intern Med

 Por Maria João Xará, USF Entre Margens 


Repetir a medição da pressão arterial é "Evidence-Based"

MGFamiliar ® - Sunday, September 09, 2018




Pergunta clínica: Perante um paciente hipertenso que, numa consulta de Medicina Geral e Familiar, apresente numa primeira medição da pressão arterial um valor superior a 140/90 mmHg,  qual o impacto de repetir a medição da pressão arterial?

Enquadramento: A hipertensão arterial é uma das patologias mais frequentes nos Cuidados de Saúde Primários, sendo importante o seu controlo adequado, de forma a prevenir o aparecimento de complicações. No entanto, apenas cerca de metade dos doentes avaliados nos cuidados de saúde primários, têm a sua pressão arterial controlada. Os diferentes erros na medição da pressão arterial são as principais causas de má qualidade da avaliação e a correção desses erros pode corrigir o sobretratamento.

Desenho do estudo: Estudo de coorte prospetivo. Foi avaliado o efeito da segunda avaliação da pressão arterial (1 minuto após a 1ª medição) na taxa de controlo da mesma. Incluídos mais de 38 000 doentes com diagnóstico de hipertensão arterial e acompanhados nos cuidados de saúde primários, entre 1 de janeiro e 31 de dezembro de 2016, em Cleveland, Ohio. Como parte da melhoria contínua da qualidade, foi introduzido um recordatório a nível eletrónico, para os profissionais de saúde reavaliarem a pressão arterial, nos casos em que a pressão arterial inicial estivesse elevada (≥140 / 90 mmHg). Os outcomes primários foram a diferença na pressão arterial sistólica (entre as leituras final e inicial) entre os doentes com uma pressão arterial  inicialmente elevada e a proporção de doentes cuja pressão arterial  estava controlada na medição final global e estratificada pelo nível da pressão arterial  sistólica inicial.

Resultado: Durante o período do estudo, 38 260 doentes com hipertensão arterial tiveram 80 864 consultas médicas. A pressão arterial inicial foi de pelo menos 140/90mmHg em 39% das consultas e uma pressão arterial inicialmente elevada foi reavaliada em 83% dos casos. A média da diferença na pressão arterial sistólica foi de aproximadamente -8 mmHg. A mudança na pressão arterial sistólica foi positivamente associada ao valor inicial da pressão arterial uma vez que quanto maior a pressão arterial sistólica inicial, maior a mudança na pressão arterial sistólica final. Entre todos os doentes com uma repetição da medida da pressão arterial, 36% foram inferiores a 140/90mmHg, sendo que, aqueles que apresentavam pressão arterial mais próxima do limiar, tinham uma maior probabilidade de ficarem controladas em medições repetidas. A repetição da avaliação da pressão arterial inicialmente elevada foi associada ao aumento da taxa de controlo da hipertensão arterial de 61% para 73%.

Conclusão: A repetição da avaliação de uma pressão arterial inicialmente elevada, foi associada a uma descida média de 8 mmHg na pressão arterial sistólica. Esta redução observada é clinicamente importante, sendo um efeito equivalente ao de certos medicamentos anti-hipertensores. 

Comentário: Os resultados deste estudo vêm reforçar a recomendação para a repetição da avaliação da pressão arterial e está de acordo com os resultados de outros estudos. No entanto, na realidade dos cuidados de saúde primários, nem sempre essa reavaliação da pressão arterial é realizada. Este facto deve-se maioritariamente à escassez de tempo em consulta. Numa perspetiva de prevenção quaternária e economia em saúde, esta reavaliação da pressão arterial , constitui uma importante medida a instituir nos cuidados de saúde primários, tanto em termos de consulta, como em ambulatório, ao fomentar-se a participação dos utentes no controlo correto da sua pressão arterial .

Artigo original: JAMA Intern Med

Por Mafalda David, USF Nova Via



Pressão arterial no ambulatório: melhor preditor de mortalidade

MGFamiliar ® - Sunday, July 08, 2018




Pergunta Clínica: Em pacientes hipertensos, a medição ambulatória da pressão arterial será um melhor preditor de mortalidade do que a medição de pressão arterial efetuada no consultório?

Enquadramento: Nos últimos anos, a medição da pressão arterial no ambulatório tem vindo a assumir uma importância crescente quer no diagnóstico da hipertensão arterial quer no na vigilância e controlo dos hipertensos. Avaliar se os valores de pressão arterial medidos no consultório se associam de forma diferente com a mortalidade quando comparados com os valores obtidos no ambulatório é pertinente e relevante.

Desenho de Estudo: Estudo multicêntrico de coorte nacional (Espanha). Foram selecionados  63 910 adultos de 223 unidades de cuidados de saúde primários das 17 regiões de Espanha, observados entre 1 Março 2004 e 31 de Dezembro de 2014. Foram analisados os dados das medições da pressão arterial no consultório e no ambulatório (durante 24 horas). Foram consideradas as seguintes categorias: hipertensão sustentada (pressão arterial elevada no consultório e na medição ambulatória de 24 horas); hipertensão “bata branca” (pressão arterial elevada no consultório e normal na medição ambulatória de 24 horas); hipertensão “mascarada” (pressão arterial normal no consultório e elevada na medição ambulatória de 24 horas) e pressão arterial dentro dos valores normais (pressão arterial normal no consultório e na medição ambulatória de 24 horas)

Resultados: Foram incluídos no estudo 63.910 pessoas, com idade média de 58,9 ± 14,2 anos, 58% eram homens. A pressão arterial média de consultório foi de 147,9 / 86,7 mmHg e a média da pressão arterial média de 24 horas foi de 129,2 / 76,5 mmHg. Durante o seguimento (mediana de 4,7 anos) ocorreram 3808 mortes, das quais 1295 por causas cardiovasculares.
No modelo que inclui a avaliação da pressão arterial no consultório e de 24 horas, verificou-se que a pressão sistólica de 24 horas foi mais fortemente associada à mortalidade por todas as causas (HR 1,58 IC 95% [1,56-1,6]) do que a pressão sistólica no consultório (HR 1,02 IC 95% [1,00-1,04]). O risco de mortalidade aumentou à medida que todos os componentes da pressão arterial aumentavam (diastólica, sistólica, noturna, diurna e de 24 horas). Na mortalidade cardiovascular por causa específica verificou-se que a pressão sistólica de 24 horas mostrou uma associação mais forte com a cardiopatia isquémica, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca, do que a pressão sistólica de consultório.No cálculo de risco cardiovascular os valores de pressão sistólica de 24 horas tiveram melhor poder de discriminação de mortalidade, que a pressão sistólica de consultório. Estes achados não se verificam para os valores de pressão arterial diastólica. Dos fenótipos hipertensivos, a hipertensão mascarada foi o fenótipo com associação mais forte à mortalidade por todas as causas (HR 2,83 IC 95% [2,12 – 3,70]), do que HTA sustentada (HR 1,8 IC 95% [1,41 – 2,31]) ou HTA bata branca (HR 1,79 IC 95% [1,38 – 2,32]). Esta associação foi similar para a mortalidade de causas cardiovasculares.

Conclusão: A medição ambulatória da pressão arterial constituiu um melhor preditor de mortalidade cardiovascular e por todas as causas, do que a pressão arterial avaliada no consultório. A hipertensão sustentada, hipertensão da bata branca e hipertensão mascarada foram todas associados a um risco aumentado de morte, no entanto esta associação foi mais forte com hipertensão mascarada. Constatou-se que a hipertensão de bata branca não é benigna, facto que pode estar relacionado com uma maior pressão arterial média em 24 horas.

Comentário: Este estudo vem reforçar a importância medição ambulatória da pressão arterial para estabelecer o diagnóstico, caracterizar os fenótipos hipertensivos e monitorização da resposta à terapêutica. Sendo assim, a evidência suporta a importância do acesso do cidadão ao MAPA através do médico de família. Seria interessante que estudos futuros avaliassem também a associação entre os valores obtidos pela auto-medição da pressão arterial e a mortalidade, e compará-los com os resultados obtidos pelo MAPA.

Artigo original: N Engl J Med

Por Sandra Guedes, USF Ramalde   




Fibrilhação auricular detectada pelo smartwatch: ficção ou realidade?

MGFamiliar ® - Tuesday, June 05, 2018




Pergunta clínica: Até que ponto os dados de um sensor de um smartwatch poderão detectar a fibrilhação auricular?

Enquadramento: A fibrilhação auricular afeta 34 milhões de pessoas em todo o mundo e é uma das principais causas de acidente vascular cerebral. Um método simples, cómodo e acessível para monitorizar de forma contínua e passiva o ritmo cardíaco poderia prevenir e evitar um elevado número de acidentes vasculares cerebrais e a respetiva morbi-mortalidade.

Desenho do Estudo: Estudo de coorte multicêntrico (multinacional) coordenado na Universidade da Califórnia, em que foram utilizados smartwatches para obter dados de frequência cardíaca e contagem de passos para o desenvolvimento de algoritmo. Incluiu um total de 9750 participantes, entre fevereiro de 2016 e março de 2017. Um algoritmo foi desenvolvido a partir da medição do intervalo R-R. A validação foi realizada tendo como referência o ECG padrão de 12 derivações numa coorte de 51 doentes com fibrilhação auricular submetidos a cardioversão. Uma segunda validação exploratória foi realizada usando dados de smartwatch de indivíduos em ambulatório (1617 indivíduos) em relação ao padrão de referência de indivíduos com história reportada de fibrilhação auricular persistente.

Resultados: Dos 9750 participantes inscritos na coorte remota, incluindo 347 participantes com fibrilhação auricular, 6143 (63,0%) eram do sexo masculino e a média etária (DP) era de 42 (12) anos. Ocorreram mais de 139 milhões de medições da frequência cardíaca nas quais o algoritmo foi desenvolvido e trabalhado. Este exibiu uma concordância de 0,97 (95% IC, 0,94-1,00; P <0,001) para detectar fibrilhação auricular contra o padrão de referência de ECG de 12 derivações na coorte de validação externa de 51 doentes com fibrilhação auricular diagnosticada; a sensibilidade foi de 98,0% e a especificidade foi de 90,2%. Numa análise exploratória com base em fibrilhação auricular persistente reportada em participantes de ambulatório, a concordância foi de 0,72 (IC 95%, 0,64-0,78); a sensibilidade foi de 67,7% e a especificidade de 67,6%.

Conclusão: Este estudo demonstrou uma elevada precisão do smartwatch na capacidade de detecção de fibrilhação auricular em 51 participantes para cardioversão. Demostrou também uma precisão moderada entre um conjunto de doentes de ambulatório com fibrilhação auricular reportada.

Comentário: Este estudo suporta o conceito de que um smartwatch incorporando um sensor de fotopletismografia e um algoritmo específico tem capacidade para detectar fibrilhação auricular, embora com alguma perda de sensibilidade e especificidade versus um ECG padrão. Sendo um método que se baseia apenas na monitorização do intervalo entre batimentos, é susceptível de falhas pelos inúmeros factores que fazem oscilar a frequência cardíaca (respiração, exercício, temperatura, posição do corpo, ansiedade, etc). Na verdade, seria interessante analisar a ocorrência de falsos positivos e até de sobrediagnóstico associado ao uso destes dispositivos. O uso destes dispositivos também poderá acarretar algum dano. Aguardam-se mais estudos que validem estas conclusões e novos desenvolvimentos destas tecnologias de forma a identificar o papel que estes dispositivos poderão vir a desempenhar no diagnóstico precoce de arritmias e eventualmente em outras alterações electrocardiográficas relevantes.

Artigo original: JAMA Cardiol

Por Pedro Santos, UCSP Ansião



Gripe aumenta risco de enfarte agudo do miocárdio

MGFamiliar ® - Sunday, March 25, 2018



Pergunta clínica: A ocorrência da infeção por gripe aumenta o risco de enfarte agudo do miocárdio?

Enquadramento: A doença cardíaca isquémica continua a ser uma das principais causas de morte no mundo. Vários estudos de caso-controlo e de casos autocontrolados mostraram uma associação entre a observação médica por infeções agudas do trato respiratório e os eventos cardiovasculares agudos. Porém, nesses estudos foram utilizados métodos poucos específicos para o diagnóstico da infeção com maior suscetibilidade para eventuais enviesamentos. Neste estudo, a infeção pelo vírus da gripe foi sempre confirmada por análise laboratorial.

Desenho do estudo: Foi utilizada uma série de casos autocontrolados de modo a avaliar a associação entre hospitalizações por enfarte agudo do miocárdio e a infeção pelo vírus influenza confirmada laboratorialmente. Foram consultados os registos informáticos e laboratoriais de indivíduos com 35 ou mais anos, residentes no Ontário (Canadá) e testados para um ou mais vírus respiratórios. Os primeiros 7 dias após a colheita da amostra para análise foram definidos como o intervalo de risco e o intervalo de controlo corresponde às 52 semanas antes e às 51 semanas após o intervalo de risco.

Resultados: Foram identificadas 364 hospitalizações por enfarte agudo do miocárdio no período das 52 semanas antes e nas 52 semanas após um teste positivo para influenza. Destes, 20 (20.0 admissões por semana) ocorreram durante o intervalo de risco e as restantes 344 admissões (3.3 admissões por semana) ocorreram durante o intervalo de controlo. A taxa de incidência para uma admissão por enfarte agudo do miocárdio durante o intervalo de risco foi 6.05 (Intervalo de confiança [IC] de 95%, 3.86 a 9.50) quando comparado com o intervalo de controlo. Não foi observado um aumento da incidência após o intervalo de risco. A taxa de incidência por enfarte agudo do miocárdio no intervalo de risco para a influenza B foi 10.11 (IC 95%, 4.37 a 23.38) e para o vírus influenza A foi 5.17 (IC95%, 3.02 a 8.84). Para o vírus sincicial respiratório e outros vírus, a taxa de incidência foi 3.51 (IC 95%, 1.11 a 11.12) e 2.77 (IC 95%, 1.23 a 6.24), respetivamente.

Conclusão: Os autores identificaram uma associação significativa entre as infeções por vírus do trato respiratório e o enfarte agudo do miocárdio, especialmente para os vírus influenza.

Comentário: Este estudo, em concordância com trabalhos já publicados anteriormente, vem alertar para o aumento do risco de enfarte agudo do miocárdio após uma infeção vírica respiratória, alertando para a importância da promoção de medidas preventivas, sendo a vacinação dos grupos de risco uma delas. Porém, apesar de neste estudo a taxa de vacinação ser apenas 31% e não ter sido encontrado diferença estatisticamente significativa entre os indivíduos que foram vacinados e os não vacinados, os autores alertam que este trabalho não tinha como objetivo avaliar a efetividade da vacinação. Deste estudo, resulta também a necessidade de uma vigilância mais cuidada nos pacientes de alto risco cardiovascular nos períodos em que são acometidos pela infeção da gripe. Com alguma frequência, encontramos pacientes na prática clínica que, quanto estão com gripe, suspendem a sua medicação habitual, o que aumenta ainda mais a sua suscetibilidade para os eventos cardiovasculares.

Artigo original: N Engl J Med

 Por Pedro Pereira, Centro de Saúde de Machico 





Flexopneia como fator de prognóstico na insuficiência cardíaca

MGFamiliar ® - Monday, February 12, 2018




Pergunta clínica: Nos doentes com insuficiência cardíaca sistólica, a presença de flexopneia aumenta o risco de resultados clínicos adversos?

Enquadramento: A flexopneia (do inglês bendopnea) é um sintoma de insuficiência cardíaca descrito em 2014 por Thibodeau et al, caracterizado por dificuldade respiratória com anteflexão do tronco. Está habitualmente associado a atividades de vida diária, como atar atacadores dos sapatos ou calçar meias.

Desenho do estudo: Estudo observacional, prospetivo e unicêntrico, realizado entre janeiro de 2014 e abril de 2015 com 179 doentes com insuficiência cardíaca sistólica, idade ≥ 18 anos e fração de ejeção ventricular ≤ 45%. Os doentes foram questionados sobre a presença ou não de flexopneia na admissão e depois acompanhados durante 1 ano. Outcome primário: morte ou internamento por insuficiência cardíaca. Outcomes secundários: iniciação de inotrópicos, transplantação cardíaca e implantação de dispositivo ventricular.

Resultados: O estudo decorreu durante cerca de 1 ano. Dos 179 participantes, 32 tinham flexopneia (18%). No final de um ano de acompanhamento, aqueles que tinham flexopneia tiveram maior risco de morte, de admissão por insuficiência cardíaca, de iniciação de terapêutica inotrópica e de implantação de dispositivo ventricular, embora nenhum desses outcomes individualmente fosse estatisticamente mais provável. A flexopneia foi mais fortemente associada a resultados a curto prazo, onde se inclui o internamento por insuficiência cardíaca aos 3 meses.

Comentário: Este estudo é inovador e coloca-nos em alerta para um possível fator prognóstico: a flexopneia. Apesar de nesta investigação a percentagem de doentes com flexopneia não ter sido elevada (18%) pode ser útil avaliar este tipo de dispneia e através disso estarmos mais atentos para o risco do doente ter resultados adversos a curto prazo. Há, contudo, que ressalvar que este estudo, foi um estudo unicêntrico, com uma amostra de conveniência e de reduzida dimensão, o que limita a generalização dos resultados a toda a população de pacientes com insuficiência cardíaca. Será pertinente aguardar se estuados adicionais confirmarão este resultado.  

Artigo original: Am Heart J

Por Marisa Gomes, USF Antonina




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