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O efeito de “lembretes” na adesão à medicação crónica

MGFamiliar ® - Sunday, July 23, 2017




Pergunta clínica: Em pacientes com necessidade de fazer medicação crónica, os dispositivos de “lembrete” da medicação melhoram a adesão terapêutica?

População: adultos a fazer medicação crónica, um a três medicamentos. 
Intervenção: esquema com a medicação, temporizador digital ou caixa de medicação standard.
Comparação: controlo vs esquema com a medicação vs temporizador digital vs caixa de medicação standard.
Outcome: ótima adesão terapêutica (índice de cumprimento terapêutico >= a 80%).

Enquadramento: o processo de adesão terapêutica é dinâmico, na medida em que num mesmo doente há períodos de tempo em que este adere à medicação crónica e outros há em que não adere. Isto é explicado pelo facto da própria motivação e conhecimento do paciente em relação à sua doença crónica e consequentemente à medicação ser mutável ao longo do tempo. Por outro lado, os custos com a medicação são muitas vezes uma barreira importante à adesão terapêutica.

Desenho do estudo: Ensaio clínico controlado e randomizado, com 53480 pacientes (dos 18 aos 64 anos de idade) que tomavam um a três medicamentos crónicos (com uma adesão entre 30 e 80% no ano anterior à randomização). Os doentes foram estatificados e randomizados em dois grupos com base na medicação crónica. O primeiro grupo inclui os doentes medicados cronicamente para doença cardiovascular ou outra patologia crónica (excluindo depressão). O segundo grupo incluiu os doentes com medicação antidepressiva. Em cada um dos grupos os pacientes foram randomizados em quatro grupos: o controlo (não recebeu qualquer notificação ou dispositivo), os que receberam por correio um esquema com a medicação, um temporizador digital e caixa de medicação standard. Objectivo primário: ótima adesão terapêutica (índice de cumprimento terapêutico >= a 80%) para toda a medicação nos pacientes com doença crónica durante 12 meses de seguimento. O estudo decorreu durante cerca de 2 anos. Dos 53480 participantes, a média de idade foi de 45 anos e 56% foram do sexo feminino

Resultados:  A ótima adesão à terapêutica foi alcançada em 15,5% dos pacientes que receberam a caixa de medicação standard, 15,1% dos que receberam um temporizador digital e em 16,3% dos que receberam o esquema da medicação. Não houve diferença estatisticamente significativa na adesão à terapêutica entre o grupo controlo e os restantes grupos. Na comparação direta, a adesão foi superior na caixa de medicação standard em relação ao esquema de medicação. 

Conclusão: Este estudo não conseguiu demonstrar o benefício de dispositivos “de lembrete” de baixo custo na adesão terapêutica.

Comentário: O Médico de Família tem um papel primordial na adesão à terapêutica pelos seus doentes. Será que não é a comunicação a principal barreira na adesão terapêutica e aquela em nós poderemos ter um papel ativo na sua melhoria? Seria fundamental desenvolver mais estudos controlados e randomizados em que se estudasse a informação fornecida pelos profissionais de saúde e a adesão terapêutica.

Artigo original: JAMA

Por  Marisa Gomes, USF S. Miguel-o-Anjo 



Ensaio clínico: educação para a saúde por SMS

MGFamiliar ® - Thursday, December 10, 2015





Pergunta clínica: Será que o envio de mensagens de texto via telemóvel (sms), que incentivem a alteração de estilos de vida, tem efeito nos fatores de risco modificáveis em doentes com doença coronária estabelecida?

Enquadramento: A prevenção da doença cardiovascular, que inclui a alteração de estilos de vida, é fulcral para controlo da patologia, mas encontra-se subaproveitada. As estratégias de melhoria da saúde que incluam o uso das novas tecnologias, nomeadamente o telemóvel, pode colmatar esta falha. No entanto, o seu uso apresenta falta de evidência científica no seu benefício terapêutico.

Desenho do estudo: Ensaio clínico, randomizado, duplamente cego, realizado num centro australiano, entre setembro de 2011 e novembro de 2013. A população incluiu 710 doentes (idade média de 58 anos; 82% homens; 53% fumadores ativos), com patologia arterial coronária comprovada (enfarte de miocárdio prévio ou coronariopatia comprovada angiograficamente). A intervenção consistiu no envio de sms: a incentivar a cessação tabágica; a prática de exercício físico e hábitos alimentares saudáveis. Os doentes do grupo de intervenção (n=352) receberam quatro sms, semanalmente, durante 6 meses, além de cuidados assistenciais. Os doentes do grupo controle (n=358) receberam os cuidados de saúde habituais. O marcador primário avaliado foi o colesterol LDL e os secundários consistiram na avaliação da pressão arterial, IMC, atividade física e hábitos tabágicos.

Resultados: Aos 6 meses, o nível de colesterol LDL foi menor no grupo de intervenção, com redução simultânea dos valores de pressão arterial sistólica e IMC, aumento na atividade física, e uma redução dos hábitos tabágicos (p<0,05). A maioria dos participantes referiram a utilidade dos sms para estes resultado (91%), a fácil compreensão deste método (97%), e a frequência adequada do envio (86%).

Comentário: Este ensaio clínico é interessante pois pretendeu provar que, através de uma tecnologia de informação acessível (sms), é possível promover estilos de vida saudáveis. No entanto, e atentando para os marcadores avaliados (orientados para a doença) não se pode extrapolar o efeito na morbi-mortalidade cardiovascular destes doentes. Por esse motivo é necessário outros estudos que avaliem os eventuais ganhos em saúde e a efectividade destas estratégias num grupo mais alargado, durante mais tempo e com marcadores orientados para o paciente.

Artigo original:JAMA

Por Débora Monteiro, USF Pirâmides 





Testar para tranquilizar?

MGFamiliar ® - Sunday, March 30, 2014

 

Pergunta clínica: qual o efeito dos testes de diagnóstico em doentes sem sintomas de doença grava (baixa probabilidade pré-teste - testes efectuados apenas para tranquilização dos doentes) na ansiedade, na persistência dos sintomas e na posterior utilização de recursos de saúde?

Desenho do estudo: Revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados. 

Resultados: Preencheram os critérios de inclusão 14 ensaios clínicos aleatorizados e controlados (ECAC) que incluíram 3828 pacientes. A maioria dos estudos avaliou a eficácia da endoscopia e radiologia para a dispepsia; imagiologia na lombalgia, eletrocardiograma e estudo analítico para a precordialgia; a ressonância magnética no caso de cefaleias crónicas, entre outros. Três dos estudos não evidenciaram qualquer impacto dos testes de diagnóstico na preocupação com a doença e dois deles não mostraram nenhum efeito sobre a ansiedade. Onze estudos não mostraram qualquer efeito global a longo prazo sobre a persistência dos sintomas (ie, "teste terapêutico"). Havia heterogeneidade significativa entre alguns dos estudos. Uma meta-análise mostrou uma pequena redução nos atendimentos em ambulatório (odds ratio = 0,77, IC, 95% 0,62 - 0,96). Na prática, este efeito traduz-se em uma visita a menos para cada 16 pacientes com dispepsia e uma visita a menos para cada 26 pacientes com lombalgia.

Comentário: Segundo este artigo, os testes de diagnóstico não tranquilizam os doentes com baixa probabilidade de doença grave, além de não diminuírem os seus sintomas crónicos. Este é mais um dado que reforça a importância da prevenção quaternária, não só na gestão dos parcos recursos que temos à nossa disposição, mas principalmente na gestão das “angústias” dos utentes que recorrem aos serviços de saúde.


Artigo original

 Por Ricardo Rocha, UCSP Moimenta da Beira



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