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Frutas e vegetais: reduzem a mortalidade?

MGFamiliar ® - Wednesday, November 12, 2014


Pergunta clínica: Qual é a relação entre o consumo de frutas e vegetais e o risco de mortalidade por todas as causas, por patologia cardiovascular e por cancro?

Enquadramento: O consumo de frutas e vegetais tem sido descrito como o ponto-chave numa dieta saudável para a prevenção de doenças crónicas. A relação entre o seu consumo e o risco de mortalidade foi amplamente estudada, mas a associação dose-dependente não foi determinada. As principais causas de mortalidade em todo o mundo são a patologia cardiovascular e o cancro.

Desenho do estudo: Foram pesquisados estudos de coorte que reportaram riscos estimados para todas as causas, patologia cardiovascular e cancro associadas ao consumo de frutas e vegetais. Assim, foram incluídas no estudo 16 metanálises com follow-up de 4.6 a 26 anos e 833 234 participantes. Cada porção foi definida com 77 gramas para vegetais e 80 gramas para fruta.

Resultados: Durante os períodos em estudo foram registadas 56 423 mortes (11 512 por patologia cardiovascular e 16 817 por cancro). Quanto à mortalidade por todas as causas, denotou-se uma relação dose-resposta com diminuição deste risco associada ao consumo de frutas e vegetais com hazard ratio (HR) de 0.95 por cada porção adicional (0.94 para frutas e 0.95 para vegetais). Isto é, quando comparado com indivíduos que não consumiam fruta ou vegetais diariamente, o HR estimado foi de 0.91 para uma porção, 0.85 para duas porções, 0.79 para três, 0.76 para quatro e 0.74 para cinco porções diárias. Consumos superiores a 5 porções de frutas ou vegetais não apresentaram benefícios adicionais. Em relação à mortalidade cardiovascular houve uma redução média de 4% por cada porção de fruta e vegetais (5% para a fruta e 4% para vegetais). A mortalidade por cancro não foi significativamente influenciada por estes consumos.

Comentário: O aconselhamento dietético é um pilar fundamental na educação do doente. Um dos conselhos mais frequentes da nossa prática prende-se com o reforço no consumo de frutas e vegetais em detrimento dos hidratos de carbono e gorduras (típico de uma dieta mediterrânea). Esta meta-análise vem apoiar estas medidas, na medida em que demonstrou associação do consumo de 5 porções de fruta ou vegetais diárias com menor risco de mortalidade por todas as causas, nomeadamente por patologia cardiovascular, mas não na mortalidade por cancro.

Artigo original: BMJ

Por Diana Matos, USF S. João de Braga 

Que evidência para a dieta mediterrânica?

MGFamiliar . - Thursday, April 25, 2013

 Por Luís Monteiro, UCSP Fernão de Magalhães

Pergunta clínica: que dieta devemos recomendar como prevenção primária para os doentes com elevado risco cardiovascular?

Desenho do estudo: O PREDIMED (Prevención con Dieta Mediterránea) foi um ensaio clínico espanhol, multicêntrico, em que os participantes tinham elevado risco cardiovascular (CV) mas sem patologia CV. Os participantes foram aleatoriamente distribuídos por três grupos com dietas distintas: 1) Dieta mediterrânica  acrescida de um suplemento de azeite diário (50 g/dia, aproximadamente 4 colheres de sopa); 2) Dieta mediterrânica acrescida de um suplemento diário de nozes (30 g/dia); 3) Dieta com reduzida ingestão de gordura. Foram realizadas sucessivas  sessões de educação para a saúde (em grupo e individualmente) a todos os participantes. O objectivo principal foi medir a taxa de eventos cardiovasculares major: enfarte agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e morte por patologia cardiovascular. Devido a uma análise interina o estudo foi interrompido após seguimento durante uma média de 4,8 anos.

Resultados: Este estudo seguiu um total de 7447 pessoas durante 4,8 anos. Os participantes tinham idades compreendidas entre os 50 e 80 anos de idade; 57% eram género feminino. As duas dietas mediterrânicas tiveram uma boa adesão. Ocorreram 288 eventos (enfarte agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, morte por patologia cardiovascular) 96 no grupo da dieta mediterrânica + suplemento de azeite (3.8%), 83 na dieta mediterrânica+suplemento de nozes (3.4%) e 109 no grupo de controlo (4.4%).

Analisando cada evento apenas para o AVC existiu um efeito protector para as dietas mediterrânicas com significado estatístico (p=0,005).

Comentário: Tal como os autores referem este estudo tem algumas limitações relevantes: 1) o protocolo foi alterado durante o estudo para reforçar as sessões de educação para a saúde no grupo controlo; 2) o estudo teve muitas desistências (11.3% no grupo controlo e 4,8% nos grupos com dieta mediterrânica); 3) o estudo foi realizado em Espanha pelo que todos os indivíduos pertencem a um país que já tem, em teoria, uma dieta mediterrânica generalizada;4) existiram menos eventos cardiovasculares do que era expectável.

Mas tal como foi salientado por James McCormack e Michael Allan no episódio 195 do excelente podcast Therapeutics Education Colaboration (http://therapeuticseducation.org) apesar deste estudo estar longe de ser perfeito, tendo em conta os dados até agora disponíveis, a dieta mediterrânica é a que reúne mais provas.

Concluindo, e tendo sempre em conta cada utente e o seu contexto, não parece insensato sugerir uma dieta mediterrânica para doentes com alto risco CV.

  Artigo original

 

 

Crianças: bebidas açucaradas vs obesidade

MGFamiliar . - Sunday, November 04, 2012

Por Mariana Rio, USF São João do Porto

A Obesidade é um dos maiores desafios globais do século XXI. O consumo de bebidas açucaradas (bebidas gaseificadas, bebidas energéticas e café ou chá com muito açúcar) pelas crianças, adolescentes (média de 357 kcal em bebidas por dia) e adultos tem contribuído para esta pandemia, estando associada ao aumento de casos de Diabetes Mellitus tipo 2, Hipertensão Arterial e Doença Coronária. É o produto com maior conteúdo calórico disponível nos Estados Unidos da América (E.U.A.), correspondendo a cerca de 15% do consumo calórico diário, para além de ser pobre noutros nutrientes, não contribuir para a saciedade e estar ligada ao consumo de produtos salgados.
Ruyter et al. realizaram o Double-blind, Randomized Intervention Study in Kids durante 18 meses, no qual substituíram as bebidas açucaradas por bebidas adoçadas artificialmente (light). Foram selecionadas crianças saudáveis, não obesas, entre os 4 anos e 10 meses e os 11 anos e 11 meses de idade e as latas (250mL) entregues a cada uma delas continham 0 ou 26g de sacarose (0 ou 104 kcal por dia). As 477 crianças que consumiram as bebidas light durante os 18 meses ganharam menos 35% de gordura corporal (avaliada por impedância) em relação às que mantiveram o consumo de bebidas açucaradas, o aumento de peso ajustado à altura foi menor (P=0,002), assim como o aumento do IMC (P=0.001). Os efeitos benéficos manifestaram-se principalmente nos primeiros 6 meses do estudo. O facto de o estudo ter sido realizado com crianças saudáveis não permite que se tire conclusões em relação à eficácia das bebidas light em crianças obesas. O ensaio aleatorizado de Ebbeling et al. estudou 209 crianças e adolescentes com excesso de peso ou obesidade e teve a duração de 2 anos (1 ano de intervenção seguido de 1 ano de follow-up). No grupo de ensaio foi efectuada uma intervenção motivacional para tentar reduzir o consumo de bebidas açucaradas. Foi encontrada uma diminuição do IMC ao fim de 1 ano estatisticamente significativa, mas tal não se verificou no IMC ao fim de 2 anos, na gordura corporal nem na atividade física. Porém, ocorreu uma diminuição significativa (P=0,002) no tempo passado a ver televisão. O fornecimento de bebidas não-calóricas diminuiu o consumo energético dos adolescentes com excesso de peso ou obesidade, em comparação com o grupo controlo.
Mas será que o consumo de bebidas açucaradas estimula as características genéticas individuais relacionadas com a adiposidade? Qibin et al. encontraram uma interação significativa entre o consumo deste tipo de bebidas e a predisposição genética para a obesidade.
A evicção do consumo de bebidas açucaradas é um comportamento dietético que por si só poderá ser um fator importante no controlo do peso. Com base nesta premissa, a venda de refrigerantes em embalagens "XXL" em restaurantes, roulottes, cinemas e estádios foi proibida na cidade de Nova Iorque.

Artigo original 1

Artigo original 2

Artigo original 3


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