MaisOpinião - Philippe Botas

Médico Generalista

MGFamiliar ® - Monday, January 21, 2019





Quem é o vulgarmente chamado médico generalista?

Seja o médico de clínica geral ou o médico especialista em medicina geral e familiar ou mesmo o médico especialista em medicina interna, são normalmente os médicos vistos como generalistas pela sociedade. A história da medicina teve um percurso sempre indissociável desta imagem do médico generalista.

No início, o médico era um médico. A evolução da sociedade e da medicina determinou a emergência de especialidades. O médico com interesse em determinadas áreas concentrou-se em campos específicos, aperfeiçoando conhecimentos e técnicas em constante desenvolvimento. A evolução da medicina, como disciplina com áreas de conhecimentos, atitudes e práticas inerentes e únicos, tem sido no sentido da especialização. Sabemos hoje que cada área de especialização acompanha um ritmo de evolução galopante e abre novas oportunidades de especialização que na teoria parecem infindáveis. O que se conhece hoje é diferente de ontem e será diferente de amanhã.

Mas parece-me que o papel do médico generalista começa a ganhar novamente destaque. Não se trata de uma moda, mas sim de uma necessidade.

Na minha prática como médico especialista em medicina geral e familiar, não raras vezes, apercebo-me da fragmentação da pessoa em sistemas, doenças, condições. A pessoa é esquecida e o todo transforma-se num pedaço. Quando presto cuidados procuro sempre “ver a pessoa”. É esta perceção que me faz amar a minha especialidade.

Sim, a medicina geral e familiar é uma especialidade. Confuso? Somos especialistas na pessoa. Procuramos unir todas as peças do puzzle e perceber o todo. Este processo permite ser o fio condutor para todas as outras abordagens e permite cuidados de saúde contextualizados. De que outra forma poderia ser?

O médico de família deve ser o médico da pessoa. Não é uma tarefa fácil e exige formação contínua num programa com objetivos bem delineados. A formação de formadores deve ser uma prioridade, assim como as universidades devem rever o ensino que se centra ainda num contexto maioritariamente hospitalar. 

O todo permite ver as partes, mas as partes nem sempre mostram o todo. Ver a pessoa, o que sente e o que sabe, o que teme e o que acha, o que quer e o que não quer. Parece poesia, mas não é. É a realidade.

Na minha atividade médica agradeço ter a possibilidade de me auxiliar e referenciar os meus utentes para colegas mais diferenciados em determinadas áreas. O que me assusta é quando fracionamos a pessoa em pedaços tão pequenos ao ponto de já não conseguirmos unir as partes. E acontece tantas vezes.

Ao longo desta reflexão percebo uma coisa. Afinal a evolução da medicina foi sempre no sentido da especialização. Ao contrário do que pensava no início deste texto, não se verifica um regresso às origens, mas sim um caminho com novas aprendizagens e oportunidades. Foi necessário fragmentar para voltar a unir. Agora que sabemos mais das partes podemos reconstruir a forma como cuidamos da nossa saúde.

Por Philippe Botas






Um caminho com muitas curvas

MGFamiliar ® - Thursday, February 22, 2018



Quantas vezes estou aqui! Nesta encruzilhada, a tentar decidir o que fazer. Quantas vezes escolho uma solução e depois percebo que fiz demais que resultou em pouco ou nada. Sem dúvida muitas vezes! E quantas vezes penso que fiz tudo e depois parece que foi pouco.

Da pessoa que sou faz parte uma identidade que é médico. E a pessoa que sou hoje é indissociável desta profissão. É verdade que uma grande parcela de minutos da minha vida desenrola-se a ser médico. Partilho muitas vidas com outros. Absorvo o que escuto e vejo. Tudo me faz mudar e sentir. A cada momento, a cada instante.

Hoje escrevo porque sinto. Sinto a inquietude de casos e vidas que me fazem pensar,mesmo quando estou em casa com a minha família.

Esta profissão que tantas vezes me faz sentir realizado, também me lança em dúvidas e receios que por vezes são ampliados por opiniões de quem não pode compreender. Ampliados por falta de recursos de todos os tipos. Ampliados por pressões e opiniões públicas que não sabem, não podem realmente saber e nem querem saber.

E sim, o utente não pode compreender. Só se for médico. E mesmo assim não poderá compreender totalmente. Para a generalidade das pessoas não é possível saber o que o médico pensa, como pensa e como quer pensar.  Isto não é uma crítica, mas sim um facto.

Neste momento estou a pensar na vulnerabilidade da pessoa médico. “De bestial a besta” é um tema que encaixa na perfeição. Bem sei que também é assim para muitas outras pessoas com outras profissões. Mas quantas envolvem contextos tão peculiares como o nosso. A pessoa vulnerável que nos procura. A pessoa com felicidade, raiva, tristeza, desalento, esperança, revolta, e… expetactiva.

Muitas vezes não decido aquilo que queres. Muitas não decido aquilo que achas melhor. Mas sempre te oiço e tento ir de encontro às tuas expectativas. E quantas vezes me ouves e decides em acordo comigo? Quantas vezes procuras outra opinião que te agrada mais? Outra opção que seja mais alguma coisa que preferes?

Então, fico assim a pensar. Penso na pessoa que está doente quando não devia estar. No sopro de vida que não era esperado. Na surpresa que nada fazia prever. E apesar de pensar que fiz tudo, fica sempre um “amargo” na alma. Um desejo de ter conseguido mais quando nada fazia prever.

Mas posso lidar com isso. Fazer sempre o melhor e refletir sobre tudo. Mesmo que o meu melhor não seja o que tu ves no teu momento.

A morte e a doença são duas realidades que devemos perceber e aceitar. E muitas vezes está traçado desta forma. Longe do controlo de qualquer pessoa, mesmo que seja um médico.

Por Philippe Botas




A espera

MGFamiliar ® - Wednesday, August 30, 2017




Estou sentado na sala. À espera. As paredes brancas transmitem calma que é interrompida pelo sonoro das conversas cruzadas entre os muitos que esperam. Não sou o único aqui. O jovem que em pé olha para a televisão fixa na parede. O pai que reclama com a senhora da secretaria porque tinha a consulta marcada para há 15 minutos. A idosa que suspira de impaciência por ainda faltar uma hora para o seu atendimento; ela sabe que é essa a hora, mas tenta a sorte ao vir mais cedo. 

Na sala não há nenhum relógio. Olho para a mesa de brinquedos deslocada para o canto, onde uma menina pinta um livro. Recordo a minha infância. Momentos perenes. Sorrio ao divagar em lembranças de aventuras e desventuras. 

Observo. Minutos após minutos o médico vem à sala chamar as pessoas que esperam. É jovem e veste a bata branca. Ao abrir as portas que guiam pelo corredor dos consultórios recebe as pessoas com um cumprimento. Não raras vezes é interrompido por alguém que quer “uma palavrinha”. Qualquer um percebe que cordialmente transmite a inconveniência desta interrupção. Mas há alguns bem insistentes que testam os limites da paciência. 

A manhã avança e o médico continua no vai e vem. Ainda não fez uma pausa. Talvez tenha “engolido” um iogurte num intervalo entre consultas. Agora, a sua expressão demonstra algum cansaço. E percebo bem a razão. As solicitações além das marcações são diversas. Já atendeu uma pessoa que apareceu com queixas de dor no peito e orientou para cuidados hospitalares. Contei pelo menos quatro pessoas que fizeram bypass à secretaria e a quem teve que recomendar dirigirem-se à mesma. A assistente técnica foi pelo menos três vezes falar com o médico. Também o sistema informático não funcionou durante cerca de 30 minutos. 

Estou na sala de espera e a minha consulta tinha hora marcada há 20 minutos. Há coisas que devo saber antes de julgar. Muitas das consultas estão marcadas com intervalos de 15 ou 20 minutos. O consultório é o último do corredor. O utente idoso com dificuldade na marcha demora o tempo necessário. A senhora que estava a reclamar do atraso, e entrou logo a confrontar indelicadamente o médico, ultrapassou bem o tempo de consulta. 

Reflito. Compreendo que é necessário um tempo de consulta para garantir acessibilidade; para organizar o atendimento aos utentes. Julgo que ao médico deve ser dada a flexibilidade necessária para organizar o seu horário de acordo com as características do ficheiro. As imposições na limitação do tempo de consulta para períodos inferiores a 15 minutos são determinações que não consideram a realidade da atividade clínica. Só quem não conhece o contexto pode na sua arrogância comparar uma consulta médica com uma linha de montagem industrial. Estes tempos de consulta só podem ser determinados por cientistas que não conhecem ou não querem conhecer o terreno. 

É a minha vez. O médico cumprimenta-me e desculpa-se pelo atraso. Retribuo com um sorriso de compreensão. Avanço para o consultório, sento-me e falo sobre o que me traz à consulta.  

Por Philippe Botas






O meu umbigo

MGFamiliar ® - Tuesday, February 28, 2017



O ser humano é solidário por natureza. Bondoso e altruísta. Sempre preocupado com o outro. Põe os seus interesses em segundo plano para ajudar os que mais precisam. É tolerante e respeita a liberdade dos outros. O ser humano é um exemplo de integridade, honestidade e humildade. Não há no mundo outra espécie com todas estas características tão peculiares. 

Qualquer um de vós, a ler estas palavras, mesmo que acredite e conheça alguns bons exemplos, percebe o exagero, até mesmo a hipocrisia desta descrição. Agora sendo realista, sabemos que somos tudo, algumas vezes isto, mas muitas vezes o oposto. 

No meu dia-a-dia de atividade clínica, como médico, observo cada vez com menos surpresa a incoerência e o egocentrismo das pessoas. Estas características são peculiares de todos nós, como pessoas que somos e fazemos. Em contextos similares podemos ser influenciados por coisas tão discretas como o nosso humor e ser bastante incoerentes. Agora que estou a escrever estas palavras, estou a refletir se não estou a exagerar. Acho que não, funcionamos mesmo assim. O que nos resta é tentar ser ponderados, agir de forma mais precisa e corrigir as nossas falhas. Sim, todos nos falhámos (desde já as minhas desculpas para este segredo que vos revelo, principalmente para aqueles que não erram e não pedem desculpa). 

Isto não significa que somos maus ou que não prestamos. Muito pelo contrário, isto é o que nos torna tão únicos. Mas não podemos manter os olhos fechados, assobiar para o lado e esperar que as coisas fiquem no esquecimento. 

Falemos de coisas concretas que me perturbam porque o caminho não pode ser este. Como médico pretendo estabelecer uma boa relação com os meus utentes. Profissional mas cordial. De facto o meu objetivo é responder com uma solução para os assuntos que me colocam. 

Então porque que raio (utilizo esta expressão conscientemente) tenho que lidar diariamente com burocracias que minam de forma irreversível os laços que se criam em anos de interação. O médico de família é a solução última de inúmeras personalidades, a citar: 

- Médicos que dizem ao utente para pedir este ou aquele exame ao médico de família e ainda reforçam que “se ele quiser pode ser que passe”. Caros colegas vocês conhecem a lei, não se façam de ingénuos.

- A personificação das “baixas” que indica sempre o médico de família como alguém que se não emite este documento é porque não quer. Será que na própria entidade não conhecem os documentos que elaboram sobre a matéria? Recomendo que se atualizem e leiam os próprios manuais.

- A personificação de “juntas médicas” e “seguradoras” que indicam ao utente para se dirigir ao médico de família para pedir mais um relatório. Os vossos médicos não sabem interpretar os exames e queixas que os utentes vos apresentam?

- A personificação das “cartas de condução” que é um dos expoentes máximos da melhor forma de complicar a atividade do médico de família. Na minha opinião e experiência pessoal, vejo este procedimento como algo que não deveria ser competência do médico de família, mas sim de departamento clínico constituído para este efeito. Como médico de família já tenho atividade que ocupa mais do que as 40 horas de horário laboral. Quantas vezes faço horas extra para tratar de papelada. Horas que não são reconhecidas. Já agora um pensamento para refletir. Porque será que se chegar 5 minutos além de hora de entrada poderei ser penalizado e as vezes que saio 1 ou 2 horas além do horário previsto, que fica devidamente registado no tão aclamado registo biométrico, simplesmente é esquecido por quem de direito. 

Continuando na saga das cartas de condução, é com isto que temos que lidar, se não quisermos fazer de conta: sou recente médico de família de utentes numa determinada região, ou seja, o meu conhecimento dos utentes, em muitos casos, é o mesmo que outro médico. A pessoa vem à consulta e diz “é só para pedir o atestado para renovar a carta de condução” ou então deixa este assunto para o último segundo da consulta. Centremo-nos nas circunstâncias que devem ser consideradas, nomeadamente o estado de saúde da pessoa e nos trâmites legais tão bem elaborados por alguém que conhece bem a realidade (ironia). Começa pelo facto de muitas vezes ser necessário parecer de médico que acompanha o utente em consulta por determinado problema de saúde, e persiste em problemas de saúde e medicação que podem condicionar a segurança da condução, o não registo de consultas em anos anteriores, na avaliação de parâmetros que não são possíveis no consultório sem instrumentos necessários (a avaliação oftalmológica determinada em documentos oficiais é simplesmente… bem nem tenho palavras. Pode ser que os cientistas que as elaboram possam explicar). Aliado a estes fatores, destaca-se a urgência que a pessoa tem em resolver esta situação porque não se apercebeu da data limite e o facto dos colegas de saúde pública se terem descartado desta função que na minha opinião poderia ser da sua competência. Mas o médico de família cala e consente. 

E agora, esta panóplia de “prioridades” do utente é resolvida de que forma? Da melhor forma que sabem, porque só faz sentido assim. A pessoa sabe que existe a consulta aberta e é assim que vai fazer porque o seu problema é mais importante do que a criança que tem febre há 3 dias ou o idoso que se sentiu mal. E o médico recebe o utente e percebe o motivo de consulta, tenta ser cordial e explicar qual a forma mais assertiva de resolver estas situações. Nunca sabe qual vai ser a resposta, mas sabe que as pessoas pensam que só têm direitos. E os direitos dos outros ficam em que ponto?

Para terminar, relato um caso que reflete o estado das coisas em que vivemos. Utente vai à consulta aberta para solicitar o dito atestado. Depois de breves palavras para explicar que a consulta aberta não é para este efeito, de forma ponderada procuro a melhor forma de resolver esta situação. Articulo com o utente as avaliações necessárias. Escassos dias depois, emito o atestado médico sem restrições. Alguns dias depois, o utente interrompe as minhas consultas, com comportamento desadequado insiste que me esqueci de colocar informação em como deve usar óculos. No meio de palavras e comportamento agressivo, explico que na avaliação que fizemos não tem indicação para esta restrição. Então percebo que alguém não médico decidiu colocar esta restrição e banalizar o atestado médico que emiti. Consultas atrasadas, humor destabilizado e burocracias para resolver. E ainda percebo o quanto ridículo é a situação quando do outro lado culpabilizam o utente porque este disse que usava óculos.

E com isto fico a pensar que é o jogo do faz de conta que domina. Faz de conta que tudo corre bem. Faz de conta que os direitos são para todos. Faz de conta que as coisas se resolvem onde têm que ser resolvidas. Faz de conta que as coisas funcionam bem. E no final o meu umbigo é mais importante do que o do outro. 

Por Philippe Botas





Síndrome de abstinência informática

MGFamiliar ® - Sunday, September 18, 2016





“Hoje tenho a agenda preenchida. Ainda bem que cheguei um pouco mais cedo. Vamos a isto”.

Das inúmeras formas que um dia de consultas pode decorrer com incidentes, diferente do que idealizamos, há um fator que nos desgasta com frequência.

Quantas vezes vou para casa a programar as atividades de amanhã, para que tudo possa correr melhor para mim e para os utentes. Quantas vezes surgem situações não programadas que exigem a minha atenção no imediato. Quantas vezes deixo para amanhã o que não consigo fazer hoje. E quantas vezes tudo fica um caos por causa de um fator que me causa mais incómodo.

De facto, estou dependente. Assim como muitos colegas meus. Não consigo imaginar a minha atividade sem esta ferramenta, apesar das contingências que já me obrigaram a trabalhar sem este recurso. Tão útil e precioso é o nosso sistema informático de apoio ao médico. Mas tão desesperante e incómodo são as suas falências. E tão recorrentes.

Num mundo em que se exige a utilização de ferramentas informáticas e cada vez mais de desencoraja o recurso a outras alternativas, será que não há maneira de minimizar as recorrentes falências do sistema. É certo que nada é perfeito e pode melhorar, mas algumas situações são inadmissíveis. Períodos de horas em que desesperamos por uma resolução do problema e tudo continua na mesma. No dia seguinte, confiantes que o dia vai correr melhor e o problema persiste. Bem sei que temos que melhorar, mas aqui ficam os meus sentimentos por causa de todas estas circunstâncias.

Para o utente que nos consulta e procura solução para os seus problemas ou dúvidas: o médico está com menos paciência ou com semblante carregado porque o sistema falhou mais uma vez. Queiram desculpar estes sentimentos de desagrado e impaciência, pois o médico está assim porque não vos pode atender da melhor maneira. E sim, estamos dependentes dos sistemas informáticos. Tudo é melhor quando funcionam e tudo é melhor do que quando não existiam. Sabemos que sim. Sabemos que podemos fazer mais e trabalhar melhor. Sem esta ferramenta também é possível, mas não é a mesma coisa. Pois, a evolução foi neste sentido, da mesma forma que vocês não se imaginam sem eletricidade ou meios de transporte, também não me imagino sem sistema informático. E quero que ele funcione melhor.

Por Philippe Botas






Vicissitudes

MGFamiliar ® - Tuesday, March 22, 2016


Três meses de uma nova realidade. Três meses em readaptação. Três meses de coisas novas. Três meses de momentos bons e maus. Onze meses de três realidades profissionais distintas. É assim que decorre a situação laboral de um recém-especialista de MGF no SNS. E tanta coisa que podia ser diferente. Tanta coisa que mudava. Mas não é fácil. É um vai e vem de opiniões, de vícios e resistências. Cada um tem a sua razão e vivemos numa crise de valores. As pessoas aprendem a ter uma menor tolerância à frustração, fruto de uma sociedade consumista e materialista. As dificuldades e os problemas que surgem são transferidos para outros. E talvez sempre tenha sido assim. Mas desse tempo não tenho eu memória, pois sou um recém-especialista. “Tão novinho” como alguns utentes arriscam dizer no primeiro contacto.

Talvez, eu seja rigoroso demais. Ou talvez, não goste de atalhos. Ou talvez, seja da personalidade. Mas uma coisa que mexe comigo é a falta de assertividade. E talvez, esta surja por falha do sistema. E o sistema de saúde como o conheço tem falhas em todos os seus níveis (e mesmo assim é muito bom). A culpa é de todos, uns mais do que outros.

As pessoas devem saber que a nível administrativo e de gestão existem diferentes tipos de consultas. Uma consulta programada com o médico de família não se reveste das mesmas circunstâncias que uma consulta aberta. Uma consulta aberta com o médico de família não se reveste das mesmas circunstâncias que uma consulta aberta complementar. Quando me refiro a pessoas, não falo só de utentes, mas também de todos os profissionais de saúde, e também daqueles com competências de administração dos Serviços. Todos devem falar a mesma linguagem para que não surjam equívocos: “Mas o médico X faz assim” e “Na Unidade Y funciona assim” e “Vou reclamar”.

Num jogo de “encontre os erros”, seria difícil encontrar as falhas em muitos dos episódios com os quais já fui confrontado. E porquê? Porque continuam a haver resistências à mudança e ao trabalho em equipa. Muitos colegas (médicos, enfermeiros, secretários clínicos, técnicos operacionais) não querem mudar e preferem trabalhar como sempre trabalharam e com orgulho defendem que sabem bem o que fazem. Este pensamento egoísta apenas perpetua vícios e aumenta o descontentamento e desmotivação. De todos.

E assim continua o dia-a-dia de um recém-especialista, com dias bons e dias maus, momentos bons e momentos maus. E para vocês que estão a ler e a pensar “é mesmo novinho”, eu respondo com um desafio: voltem a refletir sobre os vossos comportamentos e atitudes, voltem a preocupar-se com a crise de valores que também vos contaminou. 

Philippe Botas





NNT - número necessário tratar

MGFamiliar ® - Sunday, November 08, 2015



Episódio 1

- São as anginas senhor doutor.

O médico conduz a entrevista e faz o exame físico. Uma provável infeção vírica, pensa. Tudo aponta para isso e explica à consulente.

- Não me faça isso doutor. Eu preciso sempre de antibiótico.

Episódio 2

- Venho à consulta de rotina doutor… fazer umas análises.

A consulta prossegue. O médico entrega a requisição de análises e faz a marcação da consulta, quando é interpelado pelo consulente.

- O doutor esqueceu-se do PSA. O outro doutor pede sempre.

 

Estes resumidíssimos excertos de episódios de consulta do quotidiano de um médico de família, pretendem revelar a complexidade que emerge da relação médico-consulente. Mas para perceber essa complexidade e identificar os mitos escondidos é preciso conhecer a verdade dos números. A verdade que muitos não conhecem, muitos não querem conhecer e muitos recusam-se a conhecer. Uma verdade que o livro “Hippocrates’ Shadow”, do autor David H. Newman, põe a descoberto, com título traduzido para português “Onde falham os médicos”. Uma tradução errada, pois o livro revela a complexidade de uma sociedade com todas as suas fragilidades que se transmitem à relação entre médicos e consulentes. Mas estamos em Portugal e opta-se por uma tradução que vende…

Neste livro li coisas que confrontam a minha prática clínica. Axiomas que me foram ensinados, que agora se encaixam mais em pseudo-axiomas. Vamos a alguns números e factos, que analiso com recurso a este livro.

Newman disserta sobre o “Número Necessário Tratar”, ou seja, NNT – “O NNT mede o impacto de um medicamento ou de uma terapia calculando o número de pacientes que necessitam de ser tratados para que esse medicamento ou terapia tenha impacto sobre uma pessoa.” A sua descrição no livro é simplesmente brilhante pelo que aconselho a leitura aos interessados em saberem mais.

Perante uma dor de garganta, coloca-se a questão do diagnóstico. Para além das vicissitudes deste diagnóstico, ponderaremos que o médico assume que está perante uma faringite estreptocócica. Como tratar? Neste caso os antibióticos têm apenas como objetivo a prevenção da febre reumática.

“…determinámos que seria necessário tratar aproximadamente um milhão de faringites estreptocócicas para impedir que uma única pessoa contraísse a febre reumática”.

Com apenas esta informação, podem responder que é melhor prevenir… mas analisemos os efeitos adversos potenciais da toma de antibióticos.

“Por cada caso de febre reumática que se evita ao tratar um milhão de pessoas com antibióticos, provocaremos também uma estimativa de 100 000 casos de diarreia, 100 000 casos de erupções cutâneas e 100 000 infeções por fungos. E mataremos 420 pessoas”.

E agora, como terminaria o episódio 1 num mundo perfeito?  

E o que nos diz o PSA? Essa análise que todos os homens querem fazer, porque conhecem alguém que tem cancro da próstata ou conhecem alguém que faz este exame todos os anos ou simplesmente porque sempre fizeram esta análise. Numa tabela exposta no livro pode-se verificar o seguinte:

“PSA, para prevenir a morte em geral ou a morte por cancro da próstata – nenhum benefício.”

E mesmo assim queremos fazer. Mas será que sabemos tudo? Não me vou perder em números neste ponto em específico, apenas colocar algumas questões. Perante nenhum benefício, quantos falsos positivos, biópsias, cirurgias, incontinências, disfunções erétil, achamos ser aceitáveis? E então, como terminaria o episódio 2 num mundo perfeito?

De facto, são inúmeros os contextos em que a medicina não é coerente. E os médicos não são os únicos responsáveis e toda a gente sabe isso, mas é mais fácil apontar o dedo. Mas estes têm um papel importante. O mais fácil e mais rápido é passar uma receita com o antibiótico ou uma requisição com o PSA. Não me recuso a faze-lo, mas o consulente deve estar informado. Nós devemos estar informados. E se a pessoa decidir de forma informada que quer fazer o exame ou tomar o antibiótico, então…

Em alguns casos, o risco para o utente suplanta os benefícios, e como médico não me permito a perpetuar determinada intervenção. Todos deveríamos agir desta forma e em muitos casos não deveríamos ser confrontados com um “o outro doutor pede sempre”.

Na prática atual teremos tempo para explicar tudo o que sabemos e não sabemos aos consulentes? Deveríamos ter. Aumentam o número de utentes, reduzem o tempo de consultas, aumentam as evidências (ou a falta dela), aumentam os interesses comerciais na saúde. E no final quem perde somos todos nós. 

Uma coisa é não ter a informação. Outra, totalmente diferente, é estar informado e não querer saber…

Philippe Botas










O que me diz a MGF

MGFamiliar ® - Sunday, June 28, 2015





A MGF foi tímida nos anos da faculdade. Não se revelou de forma insistente e disfarçou-se no emaranhado de especialidades que me acompanharam. Logo percebi que era diferente de todas as outras. Sem arrogância, muitas vezes desprezada pelas outras especialidades e mesmo por alguns que a assumiram como sua. Penso que foi esta postura que me despertou a curiosidade em a conhecer melhor. Nessa altura dava-se a conhecer pelo nome de Clínica Geral e ainda é assim conhecida por muitos. De facto, nesse tempo só ficou mesmo o fascínio pelo Médico de Família, que já vinha de tempos da minha infância. E foi esse sentimento, sem grandes influências, que me indicou o caminho no momento da escolha da minha especialidade. A experiência no ano comum deu uma ajuda.

Ainda sem saber bem como seria o reencontro com a MGF, avancei para a minha nova casa. O Centro de Saúde de Eiras. Em quatro anos e alguns meses pude conhecê-la melhor, de uma forma que nunca tinha tido oportunidade. Nesta fase, o primeiro encontro foi inovador e aos poucos foi possível a transformação de uma visão “hospitalocêntrica” para os Cuidados de Saúde Primários. A MGF revelou-se global, não descurando várias preocupações da pessoa, abrangente, não discriminando ninguém independente do motivo de procura, e esteve sempre presente numa perspetiva de continuidade, sem altas precoces. O fascínio pela sua maneira de ser, destacando-se de todas as outras, foi crescendo. O relacionamento com especialidades hospitalares nem sempre foi pacífico, mas foi assumindo uma posição importante para um objetivo comum. O segundo encontro foi na USF Topázio, onde se revelou mais coesa, solidária e com maior capacidade de trabalho em equipa. Centrou-se nos seus consulentes, estimulando para a sua participação nas atividades desenvolvidas e preocupou-se em autoavaliar-se de forma constante. Organizada e em colaboração multidisciplinar, preocupou-se com todos os elementos que a completam. Assim, foi-me possível aprender, ensinar, ganhar experiência, consolidar e reaprender. Abrir a mente a uma nova ideia.  

Agora que a conheço melhor, ainda há dias em que não a compreendo na sua essência, num modelo político que a diz valorizar, sem contudo o concretizar na prática. Sim, há dias menos bons, em que tento respirar fundo quando vou a caminho do local de trabalho. Dias que qualquer um de nós tem, por diversas razões da nossa vida. Sim, há dias em que posso ter uma atitude menos positiva, fruto de adversidades várias: excessos, burocracias, desvalorização, tempo, exigências. Pois, também a MGF vive de e para pessoas. Com todas as suas fragilidades e potencialidades. Mas, quando entro na minha nova casa, percebo que fiz a escolha certa em a conhecer melhor e quando regresso de mais um dia, é a MGF que me acompanha.  

Philippe Botas





Pensamento perseverante e um pedaço de pseudociência

MGFamiliar ® - Sunday, March 15, 2015

 

 

“Aquilo que consome a tua mente, controla a tua vida.”

Numa rápida pesquisa num livro da minha estante, “O Erro de Descartes” de António R. Damásio, procuro encontrar a resposta ao que nos preocupa. Pelo menos a mim. Não quero dissertar sobre o que desconheço e muito menos quero conjurar teorias sem fundamento. Apenas quero partilhar a minha opinião sobre algo que me incomoda. Uma realidade que se revela aos nossos olhos, sem camuflagem ou discrição. Não serei extremista porque não me identifico com essa atitude, mas não me permito a não duvidar daquilo que levanta dúvidas. Diariamente, devo questionar-me sobre o que faço e porquê. Na medicina, esta ação ainda é mais importante.

Regresso ao livro… reconheço que nunca o li todo. Vejamos… página 231: “O cérebro dum corpo com mente”. Bem, é plausível que a mente, difícil de localizar, emerge do organismo como um todo e depende das interações cérebro-corpo, num processo dinâmico. Para mim faz sentido. Ainda assim difícil de apreender. Mente tem origem do latim mente-, com idêntico sentido: “Faculdade intelectual, inteligência; espírito, pensamento, reflexão; disposição de espírito; coragem.”

Neste ponto posso refletir que a mente se desenvolve de forma contínua e em vários sentidos, a partir de aferências e eferências biológicas e sociais, entre outras, numa base genética predeterminada. A explicação para sermos diferentes uns dos outros. O que me preocupa pode não preocupar o outro, e vice-versa. O meu pensamento perseverante é diferente dos outros. Contudo, numa coisa somos todos iguais. O que me preocupa ocupa a minha mente e controla o que faço ou tento fazer. Sem solução ou ao permanecer passivo, o pensamento perseverante persiste, se me permitem a redundância.

Agora, centremo-nos na pessoa doente, em que nos é difícil perceber a causa do seu estado ou que não aceita a explicação que lhe damos. A pessoa precisa de uma explicação, faz parte da nossa condição humana, mas não se satisfaz com uma abordagem faseada, quer uma solução imediata. Uma mente com um pensamento perseverante que pode ser facilmente iludida. A procura de cuidados a vários médicos ou profissionais de saúde pode apenas resultar em frustração. Como médicos devemos ponderar o que podemos oferecer à pessoa que nos procura, sem desvalorizar a abordagem de outros colegas e sem cair no erro de tratar o superficial (“o essencial é invisível aos olhos”).

E é aqui que falo da pseudociência. David Marçal, no seu livro “Pseudociência”, destaca as características da Ciência: é guiada por leis naturais; tem de ser explicável de acordo com leis naturais; tem de ser verificável no mundo empírico; as suas conclusões são provisórias e não necessariamente a palavra final; pode ser refutada. Destaca que a pseudociência “é qualquer tipo de informação ou atividade que se diz baseada em factos científicos, mas que não resulta da aplicação válida de métodos científicos”. Com a qual lidámos todos os dias e somos bombardeados de todas as direções, mesmo de organizações socialmente acreditadas. Uma solução apetecível que uma mente sem soluções vai aceitar de bom grado. A que custo? Como podemos confrontar esta pseudociência? Talvez a solução seja reconhecermos as limitações da medicina, as suas imperfeições, perceber que o modelo biomédico já não é suficiente, sermos sinceros e deixarmos de nos convencer a nós e aos outros que sabemos tudo e temos soluções para tudo. Porque tal coisa não existe. 

Philippe Botas

 

Errar é humano

MGFamiliar ® - Tuesday, September 09, 2014

 

 

Errar é humano... Não de um homem ou de uma mulher... É humano.

Quantos de nós, todos nós, recorremos a este pensamento no quotidiano da nossa existência e na relação com quem nos rodeia? Uma tentativa de apaziguar a vergonha que sentimos ao cometer um erro.

 

Semana de férias. Aproveito para ler o livro "A mão que nos opera - confissões de um cirurgião sobre uma ciência imperfeita" de Atul Gawande. Fácil de ler, viciante, com cada página a estimular a leitura de mais uma. O primeiro capítulo centra-se na falibilidade no contexto da medicina. "Estamos todos, façamos o que fizermos, nas mãos de seres humanos falíveis". Frase que se grava e ocupa espaço no disco rígido do meu cérebro. Pelo menos por enquanto. Sim, porque concordo com o autor quando diz que a atividade do médico está estreitamente dependente da atenção e da memória. E percebemos que estas são ferramentas falíveis... Muitas vezes...

Em medicina o erro é inevitável.

Numa leitura de alguns artigos portugueses sobre este tema, fico ainda mais confuso. Tenho dificuldades em encontrar uma definição simples. Um acontecimento adverso? Um desvio da prática correta (pelo menos a considerada como tal)? Apercebo-me da complexidade deste tema. Dos inúmeros contextos em que o erro pode ocorrer. Na comunicação com o utente. Na comunicação e partilha de informação com a equipa. Na prescrição de um medicamento, enquanto se procura conciliar a atenção ao utente, que relata alguns episódios da sua vida, a atenção ao registo no computador, a atenção à enfermeira que espreita pela porta a solicitar o nosso "olho clínico” para um caso que lhe surgiu agora e lhe parece urgente. Um exemplo entre muitos. Leio e apercebo-me das armadilhas das palavras, da sua interpretação: erro, engano, negligência, omissão, comissão.

Mas afinal o que é o erro médico? Poderemos apelidar desta forma tão singular? Em resposta a esta questão cito o artigo de João Lobo Antunes com o título "Erro em Medicina" (um título mais adequado para o assunto, mas menos apetecível para os media). O texto sublinha que a maioria dos erros de praxis médica são erros de ignorância. O que direciona a reflexão para o sistema responsável pela formação dos profissionais de saúde. Poderemos assumir que existe, na maioria dos casos, um erro de processo? Uma responsabilidade partilhada que envolve um sistema complexo? Este facto é muitas vezes camuflado. Ignora-se a base de um problema, o que resulta na persistência de um erro (erro sistemático). A abordagem redutora e punitiva do erro em medicina perpetua o erro! A abordagem construtiva e abrangente de todo o processo e sistema em que se verifica o erro não será o elemento decisivo para que este não se repita? Talvez o sistema não queira assumir as falhas e prefere culpar a parte para que a aparência permaneça intocável. Afinal de contas, vivemos num mundo de aparências.

Com esta reflexão não pretendo desculpabilizar o médico do erro. Antes pelo contrário, pretendo afirmá-lo como um elemento principal na sua génese e no processo de melhoria contínua que se exige. Termino com as palavras de Atul Gawande, que me parecem ser uma boa conclusão a este texto: "Sejam quais forem as medidas tomadas, os médicos irão vacilar às vezes e não é razoável pedir que atinjamos a perfeição. O que é razoável é pedir que nunca deixemos de ter esse objetivo".