MaisOpinião - Philippe Botas

Atenção ao pormenor


MGFamiliar ® - Tuesday, July 02, 2013

Nove horas. O médico olha em seu redor e observa a equipa que vai integrar em mais um turno de doze horas no Serviço de Urgência. Não está habituado a esta equipa. A julgar pelas caras cansadas, a noite parece ter sido agitada. Agora até está calmo. Apenas se ouve o som de um monitor sem ninguém por perto. Menos mal.

O médico é interno de MGF. Não está habituado a este ambiente. É a décima urgência que faz e tudo parece tão estranho como no início. Aqui, os exames estão à distância de um “clic”. Agora avalia pessoas que muitas vezes vêm dos CSP. Períodos mais calmos alternam com períodos de stress, com pessoas a chegarem uma atrás da outra.

Doze horas. Chegou o reforço. Ainda bem! Hoje está especialmente caótico. Não há tempo para aprendizagens orientadas. O especialista procura responder a todas as solicitações, mas não está fácil.

Vinte horas. Está quase. Apesar de tudo foi uma experiência valiosa. É bom ter este treino. Será útil em CSP. Nem que seja para dar alguma estaleca. Se pensar bem, são filosofias diferentes. Aqui, se não realizar uma série de exames, não há desculpa. Mesmo que a clínica não o justifique! Pois, há quem diga que a exceção faz a regra.

Finalmente. Três horas de espera para fazer a radiografia do tórax. A utente veio ao Serviço de Urgência por lipotimia. Sente-se bem. Com uma saturação periférica de oxigénio de 93%, realizou-se uma gasometria arterial. Os valores não se enquadraram num perfil dito normal, mas considerando a idade da utente… O colega de medicina interna não ficou tranquilo, apesar de não se identificarem outras alterações relevantes no restante exame físico, hemograma e outros marcadores bioquímicos. Alguma coisa não o deixou tranquilo. Bem, ele tem mais experiência. Os marcadores cardíacos e D-dímeros vieram negativos. Falta a radiografia do tórax e depois poderá ir embora. Hum… se calhar não.

Esta experiência em relato, assim como muitas outras, fazem-me refletir (para além de outras reflexões) sobre o que li no livro “Ser Bom Não Chega”. O cirurgião Atul Gawande reflete sobre diligência, competência e engenho, no contexto da medicina. No caso particular da diligência, destaco a sua importância na prática clínica diária. Atul Gawande define a diligência como “…a necessidade de prestar atenção suficiente ao pormenor, para evitar erros e ultrapassar os obstáculos.” É fácil alguma coisa escapar. Principalmente, quando temos tanta coisa para concretizar na nossa agenda. Mesmo que involuntariamente, é fácil valorizar mais a nossa agenda do que a agenda do utente. Conduzir o consulente no sentido que nos interessa. Também é fácil cair na rotina do “aí vem ele outra vez…” e bloquear a nossa atenção para o pormenor. A diligência não é uma condição menor e assume um papel fundamental no ato clínico em geral e na relação médico-utente em particular. O médico como ser humano, sente, e não pode ser de outra forma. O importante é ter capacidade para reconhecer esses sentimentos e perceber de que forma influenciam a relação com cada pessoa. O crescimento pessoal e profissional alimenta-se de estímulos externos, mas concretiza-se num sentido centrífugo, de dentro para fora.     

Comments
Salomé commented on 02-Jul-2013 11:40 PM
Tão verdade... Eu queria ter estágios de urgência orientados e mais tempo para prestar atenção à "agenda do doente"!
Carlos Martins commented on 03-Jul-2013 09:45 AM
Muito interessante esta reflexão do Philippe... Adiferença de abordagem e da gestão das situaçoes entre CSP e do SU hospitalar, o conceito de diligência, a gestão das "agendas".. Gostei muito!
Carolina Pereira commented on 03-Jul-2013 06:49 PM
Gostei muito do teu texto, uma reflexão intensa centrífuga, muito bem escrita e com uma linguagem cativante até à última linha, tal como já nos habituaste. Continua assim a presentear-nos com as tuas reflexões, pois assim todos aprendemos. Obrigada.
Edgar Vaz commented on 30-Jul-2013 02:23 PM
Num dia-a-dia com 40 horas de trabalho e um mínimo de 1900 utentes (contrariamente ao acordo, as ARS andam a tentar que seja o mínimo e não o máximo), com consultas de raramente chegam aos 15 minutos (sob risco de não ver os doentes extra e atrasar a agenda, sim neste caso a do médico, mas indirectamente a dos restantes doentes que aguardam pela sua vez), atrevo-me a dizer que cada vez se torna mais difícil a atenção ao pormenor que é o doente!


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