MaisOpinião - Philippe Botas

A avaria


MGFamiliar ® - Monday, May 26, 2014

 

Nove horas da manhã. O jovem médico aproxima-se da vila onde trabalha, a conduzir, concentrado nos mil pensamentos que o preocupam. Um som agudo acorda-o do automático e apercebe-se que alguma coisa não está bem com o carro. Uma luz vermelha acendeu-se e persiste, para angústia do condutor. É a terceira avaria em quatro meses. Nunca tinha dado problemas. O serviço de manutenção estava atualizado e de acordo com as recomendações, num especialista da marca… Sem conhecimentos nesta área, verifica que não tem água no radiador. Qual será o problema num carro tão jovem? Enfim, só tem uma solução. Regressar ao especialista para o diagnóstico do problema. Depois de 30 minutos de espera, o especialista traz um papel na mão e diz: “É a bomba de água”. Mostra o orçamento da reparação. O jovem médico, perturbado com os acontecimentos, questiona se é normal a sucessão de avarias num carro novo, com consultas e exames de check-up regulares. O especialista orienta para outro especialista, sem fazer qualquer comentário. O condutor fica descontente com o esclarecimento. “São avarias independentes… é azar”, disseram-lhe. “É do tipo de condução e combustível”, tentaram convencer. A reparação foi feita, a reclamação não teve efeitos práticos e as cicatrizes ficaram. A confiança não será mesma.

A terceira consulta do dia, o médico recebe o utente à porta, que lhe responde com o olhar carregado e uma expressão pouco simpática. Sexo masculino, com 31 anos. O pai e o avô tiveram enfarte agudo do miocárdio na quinta década de vida. “Trago aqui as análises… parece que não estão muito bem”, diz num murmúrio. Excesso de peso, sedentário, fumador, colesterol elevado. Diz que se sente cansado. Foi correr, mas teve que parar porque se sentiu muito cansado. Acorda cansado. O valor de pressão arterial mantém-se elevado na consulta. O médico fala-lhe de questões genéticas/hereditárias (defeito de origem) e de hábitos de vida (tipo de combustível e trajetos feitos). Reforça os conselhos sobre os cuidados a ter. Conselhos que lhe tem dado em consultas anteriores, nos últimos anos. O utente abana a cabeça e comenta: “Isto é de família. Quem sai aos seus…”. Falam sobre risco. Problemas que podem surgir. A relevância da hereditariedade, mas a importância de controlar fatores de risco modificáveis. “Por isso é que venho às consultas”, diz o utente com alguma rispidez. Então, o médico fala-lhe do carro, do programa de manutenção, dos defeitos de fabrico, do tipo de condução e das avarias que podem ocorrer. Tudo é importante, todos os fatores são relevantes, mas investir só num não é suficiente. Se o “azar” acontecer, o proprietário do carro é que fica com o prejuízo. A analogia pode ser feita ao corpo humano (mesmo que o sucesso terapêutico possa ser mais limitado no que concerne à medicina). O plano foi discutido entre ambos, a próxima consulta e objetivos foram combinados. O objetivo é a prevenção e assim evitar as “avarias”. Na despedida o utente sorri, aperta a mão ao médico e parece satisfeito com a consulta.

Sabemos que nem sempre é assim. Reconheço que nem sempre o utente compreende todo o contexto e muitas vezes transfere a resolução do problema para o médico. A diferença estará na honestidade, compreensão, comunicação e humildade. No nosso quotidiano, quantas vezes nos apercebemos deste distorcer de "humanitude"?   

Philippe Botas 

 

 

Comments
Post has no comments.

Post a Comment




Captcha Image