MaisOpinião - Philippe Botas

Errar é humano


MGFamiliar ® - Tuesday, September 09, 2014

 

 

Errar é humano... Não de um homem ou de uma mulher... É humano.

Quantos de nós, todos nós, recorremos a este pensamento no quotidiano da nossa existência e na relação com quem nos rodeia? Uma tentativa de apaziguar a vergonha que sentimos ao cometer um erro.

 

Semana de férias. Aproveito para ler o livro "A mão que nos opera - confissões de um cirurgião sobre uma ciência imperfeita" de Atul Gawande. Fácil de ler, viciante, com cada página a estimular a leitura de mais uma. O primeiro capítulo centra-se na falibilidade no contexto da medicina. "Estamos todos, façamos o que fizermos, nas mãos de seres humanos falíveis". Frase que se grava e ocupa espaço no disco rígido do meu cérebro. Pelo menos por enquanto. Sim, porque concordo com o autor quando diz que a atividade do médico está estreitamente dependente da atenção e da memória. E percebemos que estas são ferramentas falíveis... Muitas vezes...

Em medicina o erro é inevitável.

Numa leitura de alguns artigos portugueses sobre este tema, fico ainda mais confuso. Tenho dificuldades em encontrar uma definição simples. Um acontecimento adverso? Um desvio da prática correta (pelo menos a considerada como tal)? Apercebo-me da complexidade deste tema. Dos inúmeros contextos em que o erro pode ocorrer. Na comunicação com o utente. Na comunicação e partilha de informação com a equipa. Na prescrição de um medicamento, enquanto se procura conciliar a atenção ao utente, que relata alguns episódios da sua vida, a atenção ao registo no computador, a atenção à enfermeira que espreita pela porta a solicitar o nosso "olho clínico” para um caso que lhe surgiu agora e lhe parece urgente. Um exemplo entre muitos. Leio e apercebo-me das armadilhas das palavras, da sua interpretação: erro, engano, negligência, omissão, comissão.

Mas afinal o que é o erro médico? Poderemos apelidar desta forma tão singular? Em resposta a esta questão cito o artigo de João Lobo Antunes com o título "Erro em Medicina" (um título mais adequado para o assunto, mas menos apetecível para os media). O texto sublinha que a maioria dos erros de praxis médica são erros de ignorância. O que direciona a reflexão para o sistema responsável pela formação dos profissionais de saúde. Poderemos assumir que existe, na maioria dos casos, um erro de processo? Uma responsabilidade partilhada que envolve um sistema complexo? Este facto é muitas vezes camuflado. Ignora-se a base de um problema, o que resulta na persistência de um erro (erro sistemático). A abordagem redutora e punitiva do erro em medicina perpetua o erro! A abordagem construtiva e abrangente de todo o processo e sistema em que se verifica o erro não será o elemento decisivo para que este não se repita? Talvez o sistema não queira assumir as falhas e prefere culpar a parte para que a aparência permaneça intocável. Afinal de contas, vivemos num mundo de aparências.

Com esta reflexão não pretendo desculpabilizar o médico do erro. Antes pelo contrário, pretendo afirmá-lo como um elemento principal na sua génese e no processo de melhoria contínua que se exige. Termino com as palavras de Atul Gawande, que me parecem ser uma boa conclusão a este texto: "Sejam quais forem as medidas tomadas, os médicos irão vacilar às vezes e não é razoável pedir que atinjamos a perfeição. O que é razoável é pedir que nunca deixemos de ter esse objetivo".


 

 

 

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