MaisOpinião - Philippe Botas

A consulta e a lista de compras


MGFamiliar ® - Sunday, September 29, 2013

 

“Foi só quando consegui olhar mais criticamente para o meu próprio comportamento e para o comportamento das pessoas, como se fossem dados clínicos, sem vergonha ou culpa, que fui capaz de formular respostas que tinham hipótese de quebrar o ciclo desanimador e de reescrever os roteiros que haviam sido escritos muitos anos antes.”

Grant 1996

Esta frase citada na linha 34 da página 138 do Manual de Medicina de Família e Comunidade, dos autores McWhinney e Freeman, complementa a reflexão que me surge após um episódio de consulta.

Após se sentar, a pessoa que, naquele momento, procurava a resposta às suas preocupações, procurava na carteira um papel onde tinha registado tudo o que queria esclarecer. Eu aguardava pacientemente na expectativa de poder ajudar e aceder à agenda do utente. Contudo, já tinha consultado o registo clínico e também tinha elaborado mentalmente a minha lista de assuntos a abordar.

Após um minuto de procura, lá estava ele. O papel que a pessoa tanto desesperava para encontrar. Mas fui surpreendido por um murmúrio com conteúdo semelhante ao seguinte: “oh… não é este! Este é a lista de compras!”. A procura continuou.

Não pude deixar de sorrir. Lembrei-me de um excelente livro que li há algum tempo. “A Cabana” de Paul Young. A reflexão centra-se em torno da palavra expectativa.

O episódio da lista de compras proporcionou-me imaginar, que para o utente com uma lista de assuntos, a consulta é como ir ao supermercado sob consultadoria de um especialista. No mundo em que a informação está facilmente disponível (nem sempre a mais correcta), a pessoa cria expectativas para este contacto.

A consulta desenrola-se em torno da expectativa. O utente espera que o médico tenha determinadas atitudes e acções. O médico espera que o utente tenha determinadas atitudes e acções. O desencontro destas expectativas pode gerar conflito ou dificultar a relação médico-utente.

Mas a consulta não se limita a estas expectativas. A considerar, por exemplo, a expectativa da equipa de saúde, a expectativa dos familiares, a expectativa da comunidade, a expectativa das entidades reguladoras e governamentais…

Ao médico solicita-se a difícil capacidade de articular todas estas expectativas e promover uma boa relação médico-utente. A capacidade de gestão do tempo e conteúdo da consulta e a capacidade de reconhecer as expectativas do utente, que por vezes não estão totalmente desvendadas no papel que escreveu, são essenciais na prática clínica. Todas essas expectativas serão conflituantes em alguns momentos.

A questão que devemos colocar a nós próprios: “o ciclo desanimador” é resultado do utente difícil ou do médico difícil?

Philippe Botas

 

 

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