MaisOpinião - Philippe Botas

Pensamento perseverante e um pedaço de pseudociência


MGFamiliar ® - Sunday, March 15, 2015

 

 

“Aquilo que consome a tua mente, controla a tua vida.”

Numa rápida pesquisa num livro da minha estante, “O Erro de Descartes” de António R. Damásio, procuro encontrar a resposta ao que nos preocupa. Pelo menos a mim. Não quero dissertar sobre o que desconheço e muito menos quero conjurar teorias sem fundamento. Apenas quero partilhar a minha opinião sobre algo que me incomoda. Uma realidade que se revela aos nossos olhos, sem camuflagem ou discrição. Não serei extremista porque não me identifico com essa atitude, mas não me permito a não duvidar daquilo que levanta dúvidas. Diariamente, devo questionar-me sobre o que faço e porquê. Na medicina, esta ação ainda é mais importante.

Regresso ao livro… reconheço que nunca o li todo. Vejamos… página 231: “O cérebro dum corpo com mente”. Bem, é plausível que a mente, difícil de localizar, emerge do organismo como um todo e depende das interações cérebro-corpo, num processo dinâmico. Para mim faz sentido. Ainda assim difícil de apreender. Mente tem origem do latim mente-, com idêntico sentido: “Faculdade intelectual, inteligência; espírito, pensamento, reflexão; disposição de espírito; coragem.”

Neste ponto posso refletir que a mente se desenvolve de forma contínua e em vários sentidos, a partir de aferências e eferências biológicas e sociais, entre outras, numa base genética predeterminada. A explicação para sermos diferentes uns dos outros. O que me preocupa pode não preocupar o outro, e vice-versa. O meu pensamento perseverante é diferente dos outros. Contudo, numa coisa somos todos iguais. O que me preocupa ocupa a minha mente e controla o que faço ou tento fazer. Sem solução ou ao permanecer passivo, o pensamento perseverante persiste, se me permitem a redundância.

Agora, centremo-nos na pessoa doente, em que nos é difícil perceber a causa do seu estado ou que não aceita a explicação que lhe damos. A pessoa precisa de uma explicação, faz parte da nossa condição humana, mas não se satisfaz com uma abordagem faseada, quer uma solução imediata. Uma mente com um pensamento perseverante que pode ser facilmente iludida. A procura de cuidados a vários médicos ou profissionais de saúde pode apenas resultar em frustração. Como médicos devemos ponderar o que podemos oferecer à pessoa que nos procura, sem desvalorizar a abordagem de outros colegas e sem cair no erro de tratar o superficial (“o essencial é invisível aos olhos”).

E é aqui que falo da pseudociência. David Marçal, no seu livro “Pseudociência”, destaca as características da Ciência: é guiada por leis naturais; tem de ser explicável de acordo com leis naturais; tem de ser verificável no mundo empírico; as suas conclusões são provisórias e não necessariamente a palavra final; pode ser refutada. Destaca que a pseudociência “é qualquer tipo de informação ou atividade que se diz baseada em factos científicos, mas que não resulta da aplicação válida de métodos científicos”. Com a qual lidámos todos os dias e somos bombardeados de todas as direções, mesmo de organizações socialmente acreditadas. Uma solução apetecível que uma mente sem soluções vai aceitar de bom grado. A que custo? Como podemos confrontar esta pseudociência? Talvez a solução seja reconhecermos as limitações da medicina, as suas imperfeições, perceber que o modelo biomédico já não é suficiente, sermos sinceros e deixarmos de nos convencer a nós e aos outros que sabemos tudo e temos soluções para tudo. Porque tal coisa não existe. 

Philippe Botas

 

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