Prescrição Racional

Omadaciclina, um novo antibiótico

MGFamiliar ® - Sunday, July 28, 2019




Pergunta clínica: Em adultos com pneumonia adquirida na comunidade, a omadaciclina é tão eficaz como a moxifloxacina?

População: adultos com pneumonia adquirida na comunidade
Intervenção: omadaciclina
Comparação:
moxifloxacina
Outcome:
resposta clínica precoce com melhoria sintomas, e ausência de agravamento em 72 a 120 horas

Enquadramento: A pneumonia adquirida na comunidade é uma patologia infeciosa comum que causa hospitalização e mortalidade elevada, particularmente nos idosos frágeis. A resistência de Streptococcus pneumoniae e Haemophilus influenzae aos antibióticos actuais tem vindo a aumentar. A omadaciclina é um novo antibiótico (tetraciclina) que pode ser administrado por via oral ou intravenosa.

Desenho do estudo: Ensaio clínico randomizado, duplamente cego. Critérios de inclusão: adultos com pneumonia adquirida na comunidade com um “Pneumonia Severity Index” igual ou superior a 2 e inferior a 5. Os doentes foram aleatorizados em dois grupos com estratégias terapêuticas diferentes: esquema de omadaciclina (100mg IV bid duas doses seguido de 100mg IV id com opção de transição em 3 dias para omadaciclina 300mg PO) id ou esquema de moxifloxacina (400mg IV id com opção de transição em 3 dias para moxifloxacina 400mg PO id). A duração total do tratamento foi de 7 a 14 dias. O marcador primário foi a resposta clínica precoce com melhoria em, pelo menos dois de quatro sintomas (tosse, expectoração, dor pleurítica e dispneia) e ausência de agravamento em 72 a 120 horas sem antibioterapia de resgate. O marcador secundário era a resolução ou melhoria clínica sem necessidade de antibioterapia avaliada 5 a 10 dias após a última dose de tratamento.

Resultados: 386 pessoas receberam tratamento com omadaciclina e 388 com moxifloxacina. A média da duração total de tratamento foi de 9.6 dias, sendo a média do tratamento intravenoso 5.7 dias nos dois grupos. A omadaciclina não foi inferior à moxifloxacina no que respeita à resposta clínica precoce (81.1% vs. 82.7%) e à resposta clínica após tratamento (87.6% vs. 85.1%). No grupo tratado com omadaciclina, 41.1% dos pacientes experienciaram efeitos adversos vs. 48.5% no grupo tratado com moxifloxacina. Os efeitos adversos mais frequentes foram gastrointestinais, sendo a diferença mais significativa no que concerne à diarreia (10.2% e 18%, respetivamente). Registaram-se um total de 8 mortes no grupo da omadaciclina e 4 no grupo da moxifloxacina.

Comentário: Este estudo demonstra que este novo antibiótico, a omadaciclina, não é inferior (nem superior) à moxifloxacina no tratamento da pneumonia da comunidade. A omadaciclina é um antibiótico novo, dispendioso, que pertence a um novo grupo de antibióticos, as aminometilciclinas. Este novo grupo relaciona-se com as tetraciclinas e tem um perfil de ação semelhante. Face ao crescendo do problema da resistência bacteriana aos antibióticos, é muito positivo que vão surgindo novos antibióticos. No fundo, são novas alternativas terapêuticas que se poderão tornar muito úteis no futuro.

Artigo original: NEJM

Por Cláudia Bessa, USF Lusitana  



Ácido acetilsalicílico em idosos saudáveis: mais dano do que benefício

MGFamiliar ® - Sunday, July 21, 2019


Pergunta clínica: Em idosos saudáveis, o ácido acetilsalicílico previne eventos e morte de etiologia cardiovascular? 

População: idosos com idade ≥ 70 anos 
Intervenção: terapêutica com ácido acetilsalicílico (100 mg/dia)
Comparação: placebo 
Outcome: enfarte do miocárdio fatal e não fatal, acidente vascular cerebral, internamentos por insuficiência cardíaca e hemorragias major

Desenho do estudo: Ensaio clínico randomizado e controlado realizado nos Estados Unidos da América e Austrália. Incluiu 19.114 participantes com idade igual ou superior a 70 anos (ou 65 anos se de raça negra ou hispânicos), sem qualquer tipo de comorbilidade relacionada com doença cérebro ou cardiovascular, demência, alto risco de hemorragia ou contra-indicação para ácido acetilsalicílico. Indivíduos com esperança de vida inferior a 5 anos foram excluídos do estudo. O estudo teve início em 2010 e teve um seguimento de 4,8 anos. Os participantes foram distribuídos por dois grupos. O grupo intervenção foi medicado com 100mg de ácido acetilsalicílico diário (n=9525) e o grupo controlo recebeu um placebo (n=9589). O marcador primário incluiu um composto do número de casos de enfarte do miocárdio fatal e não fatal, acidente vascular cerebral, internamentos por insuficiência cardíaca e hemorragias major.

Resultados: A mediana da idade dos participantes foi de 74 anos, sendo 56% do género feminino e 8,7% não-caucasianos. 74% dos participantes eram hipertensos, 65% apresentava dislipidemia e 11% diabetes. Não houve diferenças significativas na taxa de eventos cérebro ou cardiovasculares entre os dois os grupos (10,7 vs 11,3 eventos/1000 pessoas-ano; RR 0,95; IC95% [0,83-1,08]). O número de eventos por hemorragia major foi superior no grupo de intervenção (8.6 vs 6.2 eventos/1000 pessoas-ano; RR 1,38; IC95% [ 1,18-1,62]; P< 0,001; número de pessoas necessários tratar para causar dano= 417 por ano).

Comentário: Este estudo, vem demonstrar que a prevenção primária em idosos com ácido acetilsalicílico de baixa dose não parece reduzir o risco de eventos cardiovasculares e surge associado a um risco aumentado de hemorragia major.

Artigo original: N Engl J Med

Por Ana Aires, USF Alpha  





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