Prescrição Racional

Um novo fármaco para tratamento da gripe

MGFamiliar ® - Sunday, January 19, 2020




Pergunta clínica: Em adultos com gripe, o tratamento com baloxavir é eficaz e seguro? E será mais eficaz e seguro do que o oseltamivir?

Enquadramento: Nos últimos anos, a oferta terapêutica no combate ao vírus influenza tem-se baseado nos fármacos inibidores da neuraminidase e inibidores dos canais iónicos M2. No entanto, o aumento progressivo das resistências aos antivíricos disponíveis tem potenciado a procura de novas armas no tratamento das infeções provocadas por este agente. O baloxavir, um pró-fármaco inibidor seletivo da endonuclease do vírus influenza, demonstrou, em estudos de fase 1, redução da mortalidade e atividade eficaz contra os vírus influenza A e B, incluindo em estirpes resistentes aos agentes antivíricos atuais.

Desenho do estudo: Foram realizados dois ensaios clínicos randomizados e duplamente cegos. No estudo de fase 2 administraram-se doses únicas de baloxavir (10, 20 ou 40mg) ou placebo em adultos com idades entre os 20 e os 64 anos com infeção por influenza confirmada por testes antigénicos, entre dezembro de 2015 e março de 2016. No estudo de fase 3 foram administrados baloxavir (doses ajustadas ao peso dos doentes), oseltamivir (75mg 2 vezes por dia, 5 dias) ou placebo a doentes com síndrome gripal entre 12 e 64 anos de idade, de dezembro de 2016 a março de 2017. Foram avaliadas a gravidade e duração dos sintomas (tosse, odinofagia, cefaleia, congestão nasal, febre, mialgias e fadiga) e a evolução da temperatura corporal nos 15 dias após o início dos sintomas. Foram também avaliados parâmetros laboratoriais (hemograma, bioquímica, sedimento urinário) para confirmação da segurança farmacológica no mês após início da sintomatologia.

Resultados: No estudo de fase 2 (389 participantes), 60-71% estavam infetados pelo vírus influenza A. O tempo médio para alívio dos sintomas com baloxavir foi inferior para todas as doses (54, 51 e 49 horas vs. 77 horas com o placebo, p<0,05), e a redução da carga viral foi significativamente maior com a toma do fármaco, comparativamente com o placebo. Foram relatados efeitos adversos em 23-27% dos participantes com baloxavir e 29% com o placebo, que não implicaram a suspensão do estudo. No estudo de fase 3 (1064 participantes), 84,8-88,1% estavam infetados pelo vírus influenza A. O tempo médio para alívio dos sintomas foi semelhante entre baloxavir e oseltamivir, e inferior ao placebo (média 53 vs. 80 horas), sendo esta diferença mais marcada quando a toma era efetuada nas primeiras 24h de doença. O baloxavir foi associado a um declínio significativamente mais rápido na carga viral do que o oseltamivir ou o placebo. Os eventos adversos foram mais comuns com o oseltamivir (24,8%) do que com o baloxavir (20,7%, p<0,05) ou placebo (24,6%).

Conclusão: O estudo de fase 2 mostrou que doses únicas de baloxavir foram mais eficazes do que o placebo no alívio dos sintomas em doentes com infeção não complicada pelo vírus influenza, sem efeitos adversos clinicamente significativos. No estudo de fase 3, o baloxavir foi superior ao oseltamivir e ao placebo na atividade antivírica, apesar de o tempo de alívio de sintomas entre baloxavir e oseltamivir ter sido semelhante (principalmente se administrado nas primeiras 24 horas).

Comentário: Em Portugal, o principal fármaco disponível atualmente em ambulatório contra o vírus influenza é o oseltamivir (75mg, 2 vezes por dia, 5 dias). Este é mais eficaz se utilizado nas primeiras 48 horas de doença, reduzindo o período sintomático e a carga viral. O baloxavir oral, já aprovado pela Food and Drug Administration nos Estados Unidos, abre caminho a uma nova classe farmacológica com poucos efeitos adversos evidentes e que pode ser usada como alternativa nas estirpes do vírus influenza resistentes a oseltamivir. 

Artigo original: N Engl J Med

Por Mariana Mina, USF A Ribeirinha



Rimegepant: novo tratamento para a enxaqueca

MGFamiliar ® - Wednesday, January 01, 2020




Pergunta clínica: Em adultos com enxaqueca, o rimegepant é um tratamento seguro e eficaz?

População: adultos com ≥1 ano de história de enxaqueca e 2-8 crises/mês de intensidade moderada a grave
Intervenção: rimegepant
Comparação: placebo
Outcome: eficácia no tratamento da enxaqueca

Enquadramento:
O recetor peptídico relacionado com o gene da calcitonina tem sido implicado na patogénese da enxaqueca. Rimegepant, um antagonista desse recetor, administrado por via oral, pode ser eficaz no tratamento da enxaqueca.

Desenho do estudo: estudo multicêntrico, duplamente cego, em fase 3, realizado de julho de 2017 a janeiro de 2018. Incluiu 1186 adultos de 49 centros nos Estados Unidos, com idade média de 41 anos (89% do sexo feminino, com um número médio de 4,6 enxaquecas/mês), com pelo menos 1 ano de história de enxaqueca, com ou sem aura, e 2 a 8 crises/mês, de intensidade moderada ou grave (Headache Classification Committee of the International Headache Society. The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition), que receberam rimegepant 75 mg oral ou placebo para o tratamento de uma crise de enxaqueca. Outcome primário: alívio da dor e do sintoma mais incómodo identificado pelo doente (fonofobia, fotofobia ou náusea), ambos avaliados 2 horas após a administração de rimegepant ou placebo.

Resultados: Em pacientes com enxaqueca moderada ou grave frequente, para cada 13 pacientes tratados, o rimegepant foi eficaz num, com ausência de dor às 2 horas após administração (19,6% vs. 12,0%; P <0,001; NNT = 13). Um segundo desfecho primário de alívio do sintoma mais incómodo (fotofobia em mais de metade dos doentes) foi também mais provável com o tratamento ativo (37,6% vs. 25,2%; P <0,001; NNT = 8). Os resultados de alívio sustentado da dor em 24 horas e da necessidade de medicamentos de resgate foram melhores com o tratamento ativo. Os eventos adversos foram raros, sendo os mais reportados náusea e infeção do trato urinário.

Comentário: As principais limitações deste estudo são a ausência de um comparador ativo com o rimegepant, a avaliação do efeito do tratamento apenas num único episódio (que não permite avaliar a consistência dos efeitos do fármaco ao longo do tempo no mesmo doente) e, apesar de não haver evidência de efeitos adversos cardíacos, a população estudada não apresentava doença cardiovascular. Uma revisão da Cochrane relatou um número necessário para tratar (NNT) de 5 para o zolmitriptano (https://www.cochrane.org/CD008616). Esta nova classe de fármacos "gepants" não parece ser tão eficaz e terá um custo superior ao dos triptanos (agonistas dos receptores 5-HT1B e 5-HT1D da serotonina), que agora estão disponíveis na forma genérica. No entanto, poderá surgir como alternativa útil para doentes sem resposta ou com contraindicações aos triptanos, como doenças cardiovasculares, dado que não apresenta os mesmos efeitos vasoconstritores. Serão necessários outros ensaios para determinar a consistência da resposta e a segurança e eficácia do fármaco, em comparação com outras terapêuticas.

Artigo original: N Engl J Med

Por Gisela Santos, USF Nova Via




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