Prescrição Racional

Antidiabéticos orais no controlo da diabetes gestacional


MGFamiliar ® - Sunday, December 10, 2017



Pergunta clínica: Em grávidas com diabetes gestacional, é possível e seguro o controlo desta patologia com antidiabéticos orais de forma a evitar a administração de insulina?


População: Grávidas entre as 13 e as 33 semanas de gestação com diabetes gestacional não controlada com tratamento não farmacológico.

Intervenção: Terapêutica com glibenclamida, metformina ou ambos. 

Comparação: glibenclamida versus metformina.

Outcome: taxa de falha de tratamento e escasso controlo glicémico após terapêutica farmacológica de primeira linha.


Enquadramento: A diabetes gestacional, é uma patologia com uma incidência mundial cada vez maior e considerada uma questão prioritária de saúde pública. A prescrição de antidiabéticos orais na diabetes gestacional começa a ser comum em muitos países, como terapêutica de primeira linha.

Desenho do estudo: Ensaio clínico controlado e aleatorizado, realizado entre janeiro de 2012 e junho de 2014. Foram recrutadas grávidas com idades compreendidas entre os 18 e 45 anos, diagnosticadas entre as 13 e 33 semanas com diabetes gestacional, com indicação para iniciar terapêutica farmacológica devido a escasso controlo da glicemia, após iniciar dieta hipocalórica com 25 kcal/Kg (se obesidade ou excesso de peso) ou dieta com 35 kcal/Kg (se índice de massa corporal normal). Para definir um escasso controlo da glicemia, foram estabelecidos os seguintes valores: glicemia pré-prandial > 95 mg/dL e glicemia pós-prandial (1,5h) >130 mg/dL ou uma glicemia média diária  >100 mg/dL , sob tratamento dietético de pelo menos 1 semana. As grávidas com diabetes gestacional não controlada com o tratamento não farmacológico, foram distribuídas aleatoriamente por dois grupos. Um grupo foi medicado com metformina 850-2.550 mg/dia (após as refeições e/ou às 22h). O segundo grupo foi medicado com glibenclamida 2,5-20mg/dia (30 minutos antes das refeições e/ou às 22h). A terapêutica com insulina estava indicada apenas para os casos em que a diabetes gestacional não estava controlada mesmo após a toma metformina e glibenclamida ou se fossem registados efeitos secundários com a toma de metformina e glibenclamida. Critérios de exclusão: grávidas sem datação ecográfica da idade gestacional, antes das 24 semanas; grávidas com diagnóstico de diabetes prévio ou glicemia em jejum > 105 mg/dL no primeiro trimestre; suspeita de atraso de crescimento intra-uterino antes das 24 semanas e presença de malformações fetais grosseiras. A glibenclamida foi iniciada em 53 pacientes e a metformina em 51.

Resultados: No grupo da glibenclamida, houve 18 (34%) casos de insucesso, devido a efeitos secundários (hipoglicemia) em 6 (11%) e por falta de controlo glicémico 12 (23%). No grupo da metformina, houve 15 (29%) de casos de insucesso, devido a efeitos secundários (gastrointestinais) 1 (2%) e 14 (28%) por falta de controlo glicémico. O sucesso terapêutico com a segunda linha terapêutica foi superior no grupo da metformina em comparação com o grupo da glibenclamida, 13 de 15 [87%] vs. 9 de 18 [50%], respectivamente (P = 0.03). No grupo da glibenclamida, 9 (17%) das pacientes foram posteriormente tratadas com insulina, comparando com apenas 2 (4%) no grupo da metformina (P=0,03). A combinação de ambos os fármacos reduziu a necessidade de iniciar insulina, desde 33 (32%) a 11(11%) das pacientes (P=0,0002). A glicemia média diária e os outcomes obstétricos ou neonatais foram comparáveis entre os dois grupos, incluindo a macrossomia, hipoglicemia neonatal e desequilíbrios hidroeletrolíticos.

Conclusão: a glibenclamida e a metformina são terapêuticas farmacológicas comparáveis para tratar a diabetes gestacional. A sua combinação demonstrou elevada eficácia ao reduzir a necessidade de insulinoterapia, com maior destaque para a metformina como primeira linha terapêutica, em relação à glibenclamida.

Comentário:  Este estudo apresenta conclusões que podem implicar alterações na prática clínica corrente. A principal limitação deste estudo reside no facto de ter envolvido um número reduzido de grávidas, pelo que será pertinente a realização de estudos adicionais.  Não obstante, a metformina e a glibenclamida parecem ser uma opção eficaz e segura no tratamento farmacológico da diabetes gestacional. Futuros ensaios clínicos devem reportar outcomes a curto e longo prazo que incluam dados clínicos relativos a grávidas, puérperas e recém-nascidos.

Artigo original: Diabetes Care

Por Marta Ribeiro, USF D. Diniz 



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