Prescrição Racional

AINEs no início da gravidez aumentam o risco de abortamento


MGFamiliar ® - Wednesday, May 01, 2019




Pergunta clínica: Estará o uso de anti-inflamatórios não esteróides durante a gravidez associado a abortamento espontâneo?

Enquadramento: Sendo a presença de prostaglandinas crucial para uma implantação embrionária saudável, existe a explicação biológica plausível de que os anti-inflamatórios não esteróides, ao interferirem com as prostaglandinas, tenham impacto adverso na normal implantação, aumentando o risco de abortamento.

Desenho do estudo: Estudo coorte prospetivo realizado em grávidas de um sistema de saúde americano, representativo da população onde residiam. Entre as elegíveis, 63% (n=1097) concordaram em participar, sendo divididas em 3 coortes: (1) Expostas: Grávidas que usaram anti-inflamatórios não esteróides (n=241); (2) Controlo por indicação: Grávidas que usaram Paracetamol (n=391); (3) Controlo não exposto: Grávidas que não usaram nem anti-inflamatórios não esteróides nem paracetamol (n=465). Excluídas grávidas que usaram ambas as medicações ou ainda ácido acetilsalicílico. Realizadas entrevistas presenciais inicial e de seguimento às 20 semanas de gestação.

Resultados: Após ajustamento dos fatores de confundimento, foi verificado que o uso de anti-inflamatórios não esteróides esteve associado a um aumento do risco de abortamento espontâneo quando comparado com o controlo não exposto (Hazard ratio ajustado [aHR] 1.59; intervalo de confiança [IC] 95%, 1.13-2.24) e o controlo por indicação (aHR 1.45, IC 95%, 1.01-2.08). O aumento do risco esteve associado ao uso nas 2 primeiras semanas pós-conceção (aHR 1.89; IC 95%, 1.31-2.71), não se verificando quando iniciado após este período (aHR 0.89; IC 95%, 0.43-1.85). O risco de abortamento com o uso de  anti-inflamatórios não esteróides por mais de 14 dias foi superior a tempos de exposição inferiores (aHR 2.10 vs. aHR 1.36). A associação foi mais forte para abortos precoces, isto é, <8 semanas de gestação (aHR 4.08; IC95%, 2.25-7.41). Apenas as mulheres com IMC ≤25 kg/m2 pareceram ser suscetíveis aos efeitos dos anti-inflamatórios não esteróides no aumento de risco (aHR 3.78; IC 95%, 2.04-6.99).

Conclusão: Este estudo demonstrou que o uso de anti-inflamatórios não esteróides próximo da conceção está associado a um aumento do risco de abortamento espontâneo, especialmente precoce, e que o risco aumenta com o tempo de exposição. Mulheres com IMC <25 parecem estar mais vulneráveis.

Comentário: O estudo foi desenhado de forma a ultrapassar fraquezas de estudos anteriores recorrendo a entrevistas presenciais para deteção de fatores de confundimento, análise de grupo controlo por indicação, e um antecipado recrutamento na idade gestacional para deteção de abortamento precoce. As associações encontradas com o momento de exposição aos anti-inflamatórios não esteróides e também com o momento de aborto suportam a hipótese da interferência na implantação embrionária. No entanto, não foi comparado o efeito de diferentes anti-inflamatórios não esteróides (risco pode variar) nem a dose utilizada (sendo avaliada dose-resposta através do tempo de exposição). Considerando que o diagnóstico de gravidez é habitualmente realizado já algumas semanas após a conceção, é recomendável que mulheres a planear uma gravidez evitem o uso de anti-inflamatórios não esteróides para reduzir o risco de abortamento.

Artigo original: Am J Obstet Gynecol

Por Luís Teixeira, USF Senhora de Vagos



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