Prescrição Racional

Ansiedade: risco de recaída após descontinuação do tratamento


MGFamiliar ® - Tuesday, July 17, 2018




Pergunta clínica: Qual o risco de recaída nas perturbações de ansiedade após descontinuação do tratamento com antidepressivos?

Enquadramento: Em Portugal a proporção de utentes inscritos nos cuidados de saúde primários com registo de perturbação da ansiedade em 2016 foi de 6,06% e foram prescritas 11.795.898 embalagens de antidepressivos (Programa Nacional para a Saúde Mental 2017). Idealmente, pretende-se que o utente com perturbação de ansiedade faça o seu tratamento com as terapêuticas estipuladas e que não necessite de terapêutica farmacológica a longo prazo. Porém, o receio de recorrência de sintomas após descontinuação da medicação assombra tanto o doente como o clínico.

Desenho do estudo: Revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados. Foram incluídos doentes com distúrbios de ansiedade, perturbação obsessivo-compulsiva ou perturbação de stress pós-traumático com boa resposta de sintomas ao tratamento com antidepressivos. Foram incluídos estudos em que os doentes foram aleatorizados de forma duplamente cega: um grupo que continuava sob antidepressivo e outro sob placebo. Foi avaliada a prevalência de recaída em cada um dos grupos, risco de recaída e tempo decorrido até à recaída, tipo de perturbação de ansiedade, tipo de antidepressivo, forma de descontinuação da medicação, tratamentos anteriores, duração do follow-up, inclusão ou não de psicoterapia, avaliação de co-morbilidades e tolerância à medicação.

Resultados: Foram incluídos 28 estudos. O odds ratio (OR) para recaída foi 3.11 (IC 95%, 2.48-3.89) nos doentes sob placebo em comparação com os doentes sob antidepressivo. Contudo, o risk ratio foi de 2.21 (1.85-2.64). Na análise da influência da duração do tratamento (P=0.95) ou da duração do follow-up (P=0.24), não foi encontrada relação estatística. A descontinuação da medicação resultou num espaço temporal mais curto para a recaída nos indivíduos sob placebo (hazard ratio 3.63, 2.58-5.1; n=11 estudos). A prevalência da recaída foi de 16.4% no grupo sob antidepressivo (IC 95%, 12.6-20.1%). No grupo sob placebo, foi de 36.4% (30.8-42.1%). A informação sobre tolerância e síndrome de abstinência foi escassa. A maioria dos estudos defendia que os antidepressivos eram bem tolerados, emboras os efeitos laterais mais frequentes tenham sido cefaleias, infecções das vias aéreas superiores, sintomas gripais, náusea e insónia. Os casos de abandono da medicação foram mais frequentes no grupo sob placebo (21.9% vs 17.2%).

Conclusão: Cerca de um terço dos doentes com perturbação de ansiedade irá recair após a suspensão da terapêutica com antidepressivos. Essa recaída é mais prevalente nos pacientes que efectuaram tratamento por um período inferior a uma ano. Mesmo nos pacientes que mantêm a terapêutica, também existe o risco de recaída: tal verificou-se em 1 de cada 6 pacientes medicados.

Comentário:  Este estudo parece favorecer a recomendação a duração do tratamento com antidepressivo durante pelo menos 1 ano. Tendo em conta a cronicidade e complexidade da doença, a definição exacta da duração do tratamento farmacológico carece sempre de uma avaliação individual e decisão partilhada entre o médico e doente.

Artigo original: BMJ

Por Mariana Rio, UCSP Rio de Moinhos



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