Prescrição Racional

Infecção por Helicobacter Pylori: actualização das recomendações de Maastricht


MGFamiliar ® - Sunday, May 28, 2017




Pergunta clínica: Em pacientes com dispepsia, qual o melhor método para diagnosticar e tratar a infeção por Helicobater pylori (Hp)?

Enquadramento: O Hp é o principal fator de risco para cancro gástrico. Dados nacionais de 2013 mostram que a prevalência desta infeção ronda os 84% e que em 2014 morreram cerca de 2300 pessoas por cancro gástrico. A norma nº 36/2011 da DGS sugere o teste respiratório da ureia ou o teste de antigénio nas fezes para diagnóstico da infeção, apontando a biópsia gástrica como método preferencial, se for realizada endoscopia digestiva alta (EDA). Aconselha tratar a infeção por Hp com terapia tripla, durante 7-14 dias. Devido ao crescente aumento da resistência aos antibióticos verifica-se uma diminuição da taxa de sucesso da erradicação do Hp e, por isso, novos tratamentos têm surgido.

Tipo de estudo: Maastricht Consensus Report. Consenso desenvolvido com o método Delphi. Um painel de peritos elaborou um conjunto de recomendações e, para serem incluídas no documento final, cada recomendação teve que reunir 80% das votações com “concordo” ou “concordo fortemente”.

Resultados: A estratégia testar-e-tratar a infeção por Hp é apropriada para situações de dispepsia ainda não investigada, em utentes mais jovens sem sintomas de alarme, sendo o teste respiratório da ureia considerado de 1ªlinha. O diagnóstico através de biópsia na EDA é uma opção para utentes com dispepsia quando a prevalência local de Hp é baixa. Os testes serológicos podem ser usados, tendo em conta a sua validação local. Fármacos como bismuto, antibióticos e inibidores da bomba de protões (IBP) devem ser suspensos 2-4 semanas antes da realização do teste de diagnóstico. A infeção deverá ser testada em utentes com história de úlcera péptica que tomem aspirina ou anti-inflamatórios não-esteróides. Para o tratamento, quando a taxa local de resistência à claritromicina é menor que 15%, deve usar-se a terapia tripla (IBP + amoxicilina + claritromicina). Quando for superior a 15%, optar por IBP + amoxicilina + metronidazol (se resistência ao metronidazol for baixa) ou por terapia quádrupla com bismuto (IBP + metronidazol + tetraciclina + bismuto) ou terapia quádrupla sem bismuto (IBP + amoxicilina + claritromicina + metronidazol) se a resistência ao metronidazol for elevada, durante 10-14 dias. A terapia quádrupla com bismuto é uma opção quando há resistências altas à claritromicina e ao metronidazol. Após falência da terapia quádrupla com bismuto, optar por terapia tripla ou quádrupla que inclua uma fluoroquinolona. Estudos demonstram que a erradicação do Hp reduz significativamente o risco de cancro gástrico e isso parece ser custo-efetivo em países com alta prevalência de cancro gástrico.

Comentários: O benefício do tratamento da infeção por Hp é indiscutível quer na melhoria da sintomatologia, quer na diminuição do risco de cancro gástrico. Portugal tem alta prevalência desta infeção e o teste ideal para diagnóstico, o teste respiratório da ureia, não é comparticipado. Isto deve fomentar a reflexão/discussão entre médicos e responsáveis governamentais no sentido de optimizar recursos e obter mais e melhores ganhos em Saúde. Portugal apresenta alta resistência à claritromicina e ao metronidazol e, não estando disponível o bismuto, a terapia quádrupla sem bismuto será a mais adequada. 

Artigo original: Gut

Por Célia Maia, USF  Ponte Velha



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