Prescrição Racional

O impacto das novas guidelines da hipertensão arterial


MGFamiliar ® - Sunday, October 21, 2018




Pergunta clínica: Qual o efeito na prevalência da hipertensão arterial (HTA) e na indicação para iniciar ou intensificar tratamento tendo das orientações clínicas propostas pelo American College of Cardiology (ACC) e a American Heart Association (AHA)?

Contexto: No início de 2018, as novas recomendações para diagnóstico e tratamento da HTA publicadas pela ACC e a AHA geraram grande controvérsia (ver aqui). Estas defendem o diagnóstico de HTA quando na presença de uma pressão arterial sistólica (PAs) igual ou superior a 130 mmHg ou uma pressão arterial diastólica (PAd) igual ou superior 80mmHg. Também recomendam o tratamento se a PAs for 130-139mmHg ou PAd 80-89mmHg e o doente for idoso, tiver doença aterosclerótica cardiovascular, um Framingham de 10% ou superior, doença renal crónica ou diabetes. Os alvos terapêuticos seriam PAs inferior a 130mmHg e de PAd de 80mmHg para todos os doentes.

Desenho do Estudo: Estudo observacional tendo como fonte bases de dados nacionais representativas da população norte-americana (National Health and Nutrition Examination Survey) e chinesa (Chine Health and Retirement Longitudinal Study). De ambas as bases de dados, foram selecionados todos os indivíduos com idades entre os 45 e os 75 anos com registo de pelo menos duas medições dos valores de pressão arterial e registo da medicação que tomavam. Também foi colhida informação clínica como história de enfarte agudo do miocárdio ou angina, acidente vascular cerebral, tabagismo, diabetes, valores séricos de creatinina, colesterol total e HDL. A prevalência da HTA, da indicação para iniciar ou intensificar tratamento com base nos critérios das guidelines da ACC/AHA foram comparados com os mesmos dados mas tendo como base os critérios das guidelines da Joint National Committee (JNC-8) (HTA definida como PAs igual ou superior a 140mmHg ou PAd igual ou superior a 90mmHg).

ResultadosAs novas recomendações rotulariam 70,1 milhões (95% CI 64,9 - 75,3 milhões) de pessoas nos Estados Unidos e 266,9 milhões (252,9 - 280,8 milhões) de pessoas na China, entre os 45 e os 75 anos, como tendo hipertensão arterial. Estes valores correspondem a 63% (60,6% - 65,4%) da população dos EUA e 55% (53,4% - 56,7%) da população da China nessa faixa etária. De 3,9 a 11,2 milhões de pessoas nos Estados Unidos e 33,9 a 76,8 milhões em pessoas na China necessitariam de iniciar tratamento e de 12,2 a 15,6 milhões de americanos e 24,3 a 35,7 milhões de chineses necessitariam de ver o seu tratamento intensificado.
Os doentes com novo diagnóstico seriam mais novos (idade média passaria de 60 para 56 anos), homens, de raça negra, com diabetes, doença renal crónica, doença aterosclerótica e Framingham mais baixo.

ComentáriosEmbora a adopção das novas orientações para diagnóstico e tratamento da HTA possa levar à redução da taxa de eventos cardiovasculares major em doentes de risco, resultaria num aumento assustador de doentes com HTA e no seu tratamento. Dezenas de milhões de indivíduos (apenas nos 2 países estudados) estariam em risco de efeitos negativos psicológicos do diagnóstico e de sofrer efeitos adversos do tratamento. A mesma atenção seria dada a doentes de baixo e alto risco, embora tenham numbers needed to prevent bastante díspares (333 em comparação com 26, no caso de doença arterial coronária, e 250 em comparação com 18 no caso dos acidentes vasculares cerebrais). É de realçar que a escolha do risco de Framingham igual ou superior a 10% não tem fundamento científico.

Artigo original: BMJ

Por Mariana Rio, UCSP Tâmega e Douro






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