Prescrição Racional

Estudo RCT: ómega 3 não evita declínio cognitivo


MGFamiliar ® - Monday, September 18, 2017




Pergunta clínica: Em adultos com mais de 69 anos, a suplementação com ómega 3 ou uma intervenção multifatorial (atividade física, treino cognitivo e conselhos nutricionais), tem um efeito protetor do declínio cognitivo?

Enquadramento: Dada a ausência de uma cura para a demência, a prevenção do declínio cognitivo tem assumido um interesse crescente na comunidade científica. Vários ensaios clínicos sugeriram um efeito protetor de algumas intervenções no declínio cognitivo, nomeadamente fármacos anti-hipertensores, suplementos nutricionais, treino cognitivo e atividade física. A suplementação com ácidos gordos polinsaturados ómega 3, uma vez que tem efeito anti-inflamatório, pode proteger a função cognitiva e ter um papel na prevenção da demência. Não obstante os resultados positivos de vários estudos com intervenções não farmacológicas, a eficácia da combinação de intervenções no estilo de vida com um composto específico não foi demonstrada. Assim, o objetivo deste estudo é testar o efeito da suplementação de ácidos gordos ómega 3 e de uma intervenção multifatorial (atividade física, treino cognitivo e conselhos nutricionais), isolados ou em combinação, no declínio cognitivo em adultos com mais de 69 anos.

Desenho do estudo: Ensaio clínico multicêntrico, controlado e randomizado (duplamente cego) com três anos de duração. Foram incluídos idosos com idade superior a 69 anos e um dos seguintes critérios: queixas de memória, limitações nas atividades de vida diária ou velocidade de marcha lenta. Foram excluídos os doentes institucionalizados e os que tinham diagnóstico de demência. Os participantes foram distribuídos aleatoriamente por quatro grupos, com quatro estratégias terapêuticas diferentes: 1º grupo: intervenção multifatorial associada a ácidos gordos polinsaturados ómega 3 (duas cápsulas por dia); 2º grupo: intervenção multifatorial associada a placebo; 3º grupo: ácidos gordos polinsaturados ómega 3 isolado; 4º grupo: apenas placebo. O objetivo primário era avaliar as alterações cognitivas combinando quatro testes (Teste de Recordação Seletiva Livre e Guiada, Mini-Mental State Examination, Teste de substituição de símbolos por dígitos e Teste de nomeação de categorias específicas), no início do estudo e após três anos. Foram aleatorizados 1680 doentes pelos 4 grupos, dos quais 77% (n=1286) completaram o estudo.

Resultados: Não houve diferenças estatisticamente significativas no declínio cognitivo entre qualquer um dos três grupos de intervenção e o grupo placebo, ao fim de 3 anos. 34% dos participantes (n=555) relataram pelo menos um evento adverso grave, porém não se verificaram diferenças entre os grupos. A análise de subgrupos sugeriu que a intervenção multifatorial, isolada ou associada a ácidos gordos polinsaturados ómega 3, pode retardar o declínio cognitivo nos idosos com uma pontuação ≥ 6 na escala de risco de demência “CAIDE” (acrónimo para “Cardiovascular risk factors, Aging, and Incidence of DEmentia”).

Comentário: A intervenção multifatorial no estilo de vida e os ácidos gordos polinsaturados ómega 3, isolados ou em combinação, não tiveram efeitos significativos sobre o declínio cognitivo em idosos com queixas de memória. Assim, a suplementação com ácidos gordos polinsaturados ómega 3 não deve ser recomendada. Quanto à intervenção multifatorial utilizada no estudo, os autores consideram que foi de baixa intensidade e que a diminuição da adesão às medidas no estilo de vida propostas, observada ao longo dos 3 anos, podem ter influenciado os resultados obtidos. A análise por subgrupos demonstrou que a intervenção multifatorial apresenta potencial para abrandar o declínio cognitivo nos indivíduos com maior risco de demência, contudo são necessários mais estudos para confirmar estes resultados.

Artigo original: The Lancet Neurology

Por Salete Gomez USF Fafe Sentinela 




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