Prescrição Racional

Ácido acetilsalicílico em prevenção primária


MGFamiliar ® - Sunday, December 09, 2018



Pergunta clínica: Na prevenção primária de eventos cardiovasculares em pessoas com risco cardiovascular moderado, será o ácido acetilsalicílico eficaz?

População: Doentes com risco cardiovascular moderado

Intervenção: Terapêutica com 100mg de ácido acetilsalicílico

Comparação: Placebo

Outcome: Tempo decorrido até à ocorrência de evento cardiovascular ou morte

Desenho do estudo: Estudo multicêntrico, randomizado, duplamente cego, controlado por placebo, realizado em sete países. Critérios de inclusão: idade ≥55 anos no sexo masculino ou ≥60 anos no sexo feminino e risco cardiovascular moderado. Foram excluídos os doentes com alto risco hemorrágico (gastrointestinal ou outro) ou com de diabetes. Os participantes foram distribuídos aleatoriamente por dois grupos: um grupo recebeu ácido acetilsalicílico (100 mg) e o outro grupo recebeu placebo. O marcador primário de eficácia foi a avaliação do tempo decorrido até à primeira ocorrência de morte cardiovascular, enfarte do miocárdio, angina instável, acidente vascular cerebral ou acidente isquémico transitório. A segurança foi avaliada através da ocorrência de eventos hemorrágicos ou de outros eventos adversos.

Resultados: Entre 2007 e 2016, foram incluídos 12546 doentes: grupo com ácido acetilsalicílico (n=6270) e grupo com placebo (n=6276). O seguimento médio foi de 60 meses. Na análise de intenção de tratar, o marcador primário ocorreu em 269 doentes (4,29%) no grupo ácido acetilsalicílico versus 281 (4,48%) no grupo placebo (razão de risco 0,66; IC 95 % 0,81-1,13; p=0,6238). Nenhum subgrupo (de acordo com sexo, idade, tabagismo, índice de massa corporal [IMC] ou risco calculado a 10 anos) teve benefício claro com o ácido acetilsalicílico. Eventos hemorrágicos gastrointestinais (principalmente ligeiros) ocorreram em 61 doentes (0,97%) com ácido acetilsalicílico versus 29 (0,4%) no grupo placebo (razão de risco 2,11; IC 95% 1,36-3,18; p =0,0007). A taxa de incidência global de eventos adversos graves foi semelhante (n=1266 [20,19%] no grupo ácido acetilsalicílico vs n=1311 [20,89%] no grupo placebo). A incidência geral de eventos adversos relacionados ao tratamento foi baixa (n=1050 [16%] vs n=850 [13,54%] no grupo placebo, p <0,0001). Foram documentados 321 óbitos no grupo com ácido acetilsalicílico (n=160 [2,55%] vs n=161 [2,57%] de 6276 doentes no grupo placebo).

Comentário: Este é mais um estudo que vem reforçar a ideia de que o uso de ácido acetilsalicílico em contexto de prevenção primária não traz benefício, podendo trazer algum dano. A dose baixa de ácido acetilsalicílico (100 mg) também não mostrou benefício significativo no subgrupo dos doentes obesos. 

Artigo original: The Lancet

Por Ana Sofia Fontes, USF Uma Ponte para a Saúde  



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