Prescrição Racional

Risco de psicose no tratamento da perturbação de défice de atenção e hiperatividade


MGFamiliar ® - Sunday, September 08, 2019




Pergunta clínica: Qual o risco de psicose em adolescentes e jovens adultos medicados com psicoestimulantes para o tratamento da perturbação de défice de atenção e hiperatividade?

Enquadramento: As anfetaminas e o metilfenidato são psicoestimulantes utilizados no tratamento da perturbação de défice de atenção e hiperatividade, com propriedades farmacocinéticas e farmacodinâmicas distintas, e consequentemente com efeitos adversos distintos, nomeadamente no que concerne à psicose.

Desenho do estudo: Estudo de coorte retrospetivo, tendo sido utilizadas bases de dados de duas companhias de seguros para aceder aos doentes entre os 13 e 25 anos com diagnóstico de perturbação de défice de atenção e hiperatividade e que iniciaram terapêutica com metilfenidato ou anfetaminas entre 1 de janeiro de 2004 e 30 de setembro de 2015. Foram excluídos doentes com co-morbilidades ou sob terapia com outros fármacos que pudessem influenciar o risco de psicose. Critérios de inclusão: pacientes com um novo diagnóstico de psicose e prescrição de um dos psicoestimulantes nos 60 dias prévios ao episódio psicótico. Foram determinados riscos relativos para a psicose em ambos os grupos de fármacos.

Resultados: Foram avaliados 337919 adolescentes e adultos jovens medicados com psicoestimulante por perturbação de défice de atenção e hiperatividade. 110923 doentes sob metilfenidato foram emparelhados com 110923 doentes sob anfetaminas, de modo a uniformizar as características de ambos os grupos, excetuando a terapêutica em curso. Registaram-se 343 novos diagnósticos de psicose – 106 episódios no grupo de metilfenidato e 237 no grupo de anfetaminas. O risco relativo de psicose com a toma de anfetaminas foi de 1,65, com um intervalo de confiança de 95% (1,31-2,09). O risco absoluto foi de 0,1% no grupo de doentes sob metilfenidato e de 0,21% no grupo de doentes sob anfetaminas .

Conclusão: Em adolescentes e jovens adultos com perturbação de défice de atenção e hiperatividade as anfetaminas estiveram associadas a um risco de novos episódios psicóticos superior ao do metilfenidato. 

Comentário: Sendo um estudo observacional não é possível (tal como acontece em ensaios clínicos aleatorizados) eliminar factores de confundimento. O risco absoluto em ambos os grupos é muito baixo, sendo o number need to treat muito elevado – para se evitar 1 caso de psicose seria necessário trocar as anfetaminas por metilfenidato em 909 doentes. Esta investigação não provou causalidade pelo que a conclusão acima descrita não deve ser interpretada com um dado definitivo.

Artigo original: N Engl J Med

 Por Sara Silva, USF Terras Santa Maria




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