Prescrição Racional

Suplementos de ómega-3 são ineficazes em prevenção primária

MGFamiliar ® - Sunday, June 16, 2019




Pergunta clínica: Em adultos de idade superior a 55 anos, sem doença cardiovascular prévia ou cancro, a suplementação com ácidos gordos ómega-3 reduz o risco de eventos cardiovasculares e de cancro?

Enquadramento: Existem alguns estudos observacionais que referem a associação entre o aumento da ingestão de ácidos gordos ómega-3 e uma eventual redução risco cardiovascular e cancro. Este eventual efeito protector carece de evidência de melhor qualidade, nomeadamente evidência obtida através de ensaios clínicos.

População: homens com idade superior a 50 anos e mulheres com idade superior a 55 anos
Intervenção: terapêutica com ácidos gordos ómega-3
Comparação: placebo
Outcomes: incidência de eventos cardiovasculares major e cancro invasivo de qualquer tipo

Desenho do estudo: Ensaio clínico aleatorizado e duplamente cego, em que 25.871 participantes foram aleatorizados em dois grupos: grupo controlo (placebo) e grupo de estudo com suplementação de Vitamina D e Ómega-3. Os participantes tinham uma média de idades de 67 anos, 51% de mulheres e 14 % com diabetes. Os endpoints primários foram eventos cardiovasculares major (enfarte agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e morte por causas cardiovasculares) e cancro invasivo de qualquer tipo.

Resultados: Não houve diferenças significativas entre os grupos randomizados em ambos os endpoints primários (cardiovasculares e cancro). Houve uma redução no total de enfartes do miocárdio (RR 0.72; 95% CI 0.59 - 0.90), apesar de não existir diferença entre os grupos em relação à mortalidade cardiovascular ou por todas as causas. Não houve diferença em ambos os grupos relativamente a efeitos secundários. No entanto, uma análise de subgrupo demonstrou uma modesta, mas estatisticamente significativa diminuição na incidência do endpoint primário cardiovascular em participantes que ingeriam menos de 1,5 porções de peixe por semana.

Comentário: Com uma metodologia bem desenhada e com uma amostra significativa e diversificada as conclusões parecem ser claras. Não há evidência que suporte o aconselhamento de suplementação de ácidos gordos ómega-3 para prevenção primária.

Artigo original: N Engl J Med

 Por Luís Amaral, USF Serra da Lousã

Pioglitazona e cancro da bexiga

MGFamiliar ® - Monday, May 30, 2016




Pergunta clínica: Em doentes com diabetes tipo 2 o uso de pioglitazona está associado a maior risco de cancro da bexiga comparativamente a outros antidiabéticos?

Enquadramento: A associação entre a pioglitazona e o cancro da bexiga é um tema controverso com destaque para o estudo PROactive, de 2005, mas desde então os resultados dos estudos observacionais têm sido controversos.

Desenho do estudo: Estudo de coorte de base populacional que incluiu 145806 doentes registados na base de dados United Kingdom Clinical Practice Research Datalink (CPRD) que iniciaram algum antidiabético (exceto insulina) de 1 de janeiro de 2000 a 31 de julho de 2013, com seguimento até 31 de julho de 2014. Foram incluídos pacientes com idade ≥40 anos e com pelo menos um ano de registos na CPRD previamente à prescrição. Foram excluídos doentes com prescrição prévia de insulina, diagnóstico de diabetes gestacional ou síndrome dos ovários poliquísticos, antecedentes de neoplasia da bexiga e aqueles com menos de um ano de seguimento na CPRD após entrada na coorte. O uso de pioglitazona foi tratado como uma variável dependente de tempo, englobando o período de um ano após a sua utilização tendo em conta os possíveis efeitos de latência. A análise estatística utilizou o modelo de riscos proporcionais de Cox para estimar, com intervalos de confiança de 95%, razões de risco ajustadas de incidência de cancro da bexiga associadas ao uso de pioglitazona no geral, por tempo cumulativo de uso e dose cumulativa. Foram realizadas análises semelhantes para a rosiglitazona.

Resultados: A coorte incluiu 689616 pessoas por ano de seguimento, durante os quais 622 doentes foram diagnosticados com cancro da bexiga. Comparativamente aos outros antidiabéticos, a pioglitazona foi associada a um aumento do risco de cancro da bexiga (121 vs. 88.9 por 100000 pessoas-ano, HR 1.63, IC 95%, 1.22-2.19). Por outro lado, a rosiglitazona não foi associada a um risco aumentado de cancro da bexiga (86.2 vs. 88.9 por 100 000 pessoas-ano, HR 1.10, 0.83-1.47). Relações de duração-resposta e dose-resposta foram observadas para a pioglitazona, mas não para a rosiglitazona.

Comentário: Este estudo de população alargada revela que a pioglitazona está associada a um risco aumentado em 63% de incidência de cancro da bexiga (121 por 100000 pessoas-ano), risco que aumenta com a duração de utilização e a dose. Por outro lado, a ausência de associação com a rosiglitazona sugere que este risco é específico do fármaco e não um efeito de classe.  De realçar que o mecanismo responsável pelo efeito da pioglitazona na bexiga não se encontra totalmente definido, pelo que são necessários mais estudos no sentido do seu esclarecimento.

Artigo original:BMJ

Por Catarina Pinho, USF Pevidém  



Inibidores da 5α-redutase e risco de cancro da próstata

MGFamiliar ® - Thursday, September 19, 2013

Por Mariana Rio, USF São João Porto

Pergunta clínica: O uso de inibidores da 5α-redutase em homens com hiperplasia benigna da próstata aumenta o risco de cancro da próstata?

Desenho do estudo: estudo caso-controlo de homens com cancro da próstata e que tinham sido medicados com finasterida ou dutasterida. Foi efetuado na Suécia e publicado no British Medical Journal em Junho de 2013.

Resultados: foram incluídos 26 735 casos e 133 671 controlos. Os homens com Score de Gleason 2 a 6 eram mais novos. O odds ratio de desenvolver cancro da próstata foi de 0.90 (intervalo de confiança de 95%) para os homens medicados com inibidores da 5α-redutase durante 3 ou mais anos. O risco de cancro era menor em homens com Gleason 2-6 (OR 0,7) e estava aumentado em homens com Gleason 8-10 (OR1.36). Nos homens com estádio de Gleason mais baixo, o risco diminuía à medida que a toma era mais prolongada.

Comentário: este estudo foi feito com base no pressuposto de que os inibidores da 5α-redutase poderiam aumentar o risco de cancro da próstata em homens com estadios de Gleason 8-10. Este pressuposto surgiu de resultados obtidos em dois ensaios (Prostate Cancer Prevention trial e Reduction by Dutasteride of prostate Cancer Envents) que levaram a um comunicado da US Food and Drug Administrition no qual era feita referência ao risco aumentado de cancro da próstata na sua forma mais agressiva. A associação encontrada entre o aumento do risco nos homens com Gleason 8-10 não foi significativa pelo que não se confirmou o pressuposto anterior. Em termos gerais, o desequilíbrio entre o risco e benefício da toma de inibidores da 5α-redutase pesa a favor do benefício. 

Artigo original


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