Livros

Machines Like Me

Carlos Martins - Sunday, May 31, 2020



Livro: “Machines Like Me” de Ian McEwan


A relação entre o homem e as suas criações é argumento antigo para a literatura. Recordemos, por exemplo o legado de Philip K. Dick.

A originalidade de Ian McEwan ao retomar este tema insere-se na subtileza da abordagem num cenário distópico.

A história do livro começa quando Charlie Friend (o narrador) recebe no seu apartamento londrino um robot de última geração. Neste universo paralelo o Reino Unido é um país marcado pelas diferentes linhas da história contemporânea. Alan Turing está vivo e é o motor do desenvolvimento global da inteligência artificial. O país vive a pesada derrota nas Ilhas Faulkland e os Beatles continuam a actuar.

O andróide simbolicamente denominado “Adam” não é um objecto apático. É um ser social que evolui ao longo do tempo e através da sua relação com Charlie e a bela e misteriosa Miranda.

Depois de “Nutshell” , o escritor inglês premeia o leitor com uma ficção que nos coloca perante a dúvida sobre o que é um ser moral, racional e afectivo.






Por Luís Monteiro


O Pintor de Almas

MGFamiliar ® - Saturday, January 25, 2020


Foto: Parque Guell

Livro: "O Pintor de Almas" de Ildefonso Falcones


Já aqui vos falei de um livro de Ildefonso Falcones. Hoje, não resisto a falar-vos de outro. Nesse livro, falei-vos de uma cidade. No livro que partilho hoje, a cidade é a mesma, mas o tempo é outro. A ação d’O Pintor de Almas decorre na Barcelona do princípio de século XX. Ao ler este livro fui surpreendido por uma realidade que desconhecia, uma realidade dura, que chega a ser cruel mesmo.

Hoje, quando passeamos pelas ruas de Barcelona, quando visitamos Palau de Musica Catalana, o Parque Guell, a La Pedrera, a Sagrada Família ou a casa Batlló, ficamos maravilhados com o engenho, a criatividade e a genialidade dos autores daquelas obras. Estas obras resultam de um movimento artístico e cultural que ficou conhecido como o modernismo catalão. Por oposição à sobriedade escura e quase monocromática da arquitetura industrial do século XIX, o modernismo catalão caracteriza-se pela liberdade criativa, pelo uso de elementos da natureza, pela variabilidade atípica das formas e multiplicidade das cores. A multiplicidade das cores, através do uso de cerâmica e vidro colorido associada à luz típica de Barcelona, produz um efeito e uma beleza singular neste estilo de arquitetura. Neste estilo destacaram-se artistas como Antoni GaudíLluís Domènech i Montaner e Josep Puig i Cadafalch.

Contudo, quando hoje visitamos estes monumentos, estamos longe de imaginar o conturbado período que se viveu naquelas ruas aquando da sua construção. E essa é a grande surpresa com   que somos confrontados ao ler este “Pintor de Almas”. Baseando-se em factos verídicos, contando-nos a história de duas personagens fictícias, Dalmau Sala, um jovem pintor modernista, e de Emma, uma jovem anarquista, o autor oferece-nos uma viagem por essa Barcelona dos primeiros anos do século XX.


Foto: Basílica da Sagrada Família

Um dos aspectos que mais me cativou nesta leitura foi o de verificar que este livro, ao mesmo tempo que me transportava pelo encanto e sonho da beleza e da arte do modernismo catalão, levava-me também a conhecer a dureza da vida dos cidadãos dessa Barcelona, das injustiças sociais e das lutas legítimas de tantas pessoas por condições essenciais de vida. Por um lado, a arte e o belo, por outro, o ódio e a injustiça. Depois de ler este livro fiquei a conhecer melhor as obras e a compreender melhor o modernismo catalão, mas ao mesmo tempo, descobri uma realidade radical e a sucessão de eventos que conduziram àquela que ficou conhecida nos livros de história como a Semana Trágica de Barcelona.

Não resisto a partilhar uma curiosidade que descobri com este livro. Para quem já visitou as obras de Gaudí, certamente reparou no revestimento com pedaços irregulares de cerâmica que ele aplicava frequentemente nas suas obras. Essa técnica designa-se por trencadís e para a implementar, Gaudí usava restos das empresas de cerâmica de Barcelona cujo destino seria o entulho. Uma forma de reciclagem notável e com a qual Gaudí produziu “efeitos especiais” espectaculares.

Este livro ainda não está editado em Portugal. Quando cá chegar, leiam-no, vai valer a pena.

Finalmente, deixou-vos um vídeo. O livro, pela voz do autor:


Por Carlos Martins

A Catedral do Mar

MGFamiliar ® - Monday, August 06, 2018




Livro: "A Catedral do Mar" de Ildefonso Falcones


Desta vez, eu não necessitava de vir a Barcelona. Durante alguns anos, tive que vir a Barcelona para reuniões anuais de trabalho. Passou por aqui o início da minha colaboração com o EUROPREV. Eram reuniões intensas. Muitas vezes, só sobrava a tarde de sábado para conhecer um pouco da cidade.
Mais tarde, senti a necessidade de trazer a família a esta singular cidade para lhes revelar as maravilhas de Gaudí.
Mas, desta vez, não. Desta vez, fiz um desvio e vim a esta cidade por causa de um livro.
Por causa deste livro: A Catedral do Mar, escrito por Ildefonso Falcones.



Foto 1: Bastaix, os carregadores da pedra (porta de entrada da Catedral)


 
Foto 2: A nave da Catedral


Este é um daqueles livros pelo qual nos apaixonamos logo nas primeiras páginas. Ildefonso Falcones surpreende-nos com uma narrativa fascinante que decorre na cidade de Barcelona em plena Idade Média. A sua leitura permite-nos mergulhar no modo de vida da época. Permite-nos compreender o modo de funcionamento daquela sociedade. Havia leis, deveres e direitos muito diferentes dos que hoje conhecemos. E até isso este livro consegue. Fala-nos de um passado que parece longínquo, mas consegue colocar-nos a refletir sobre o presente e o futuro, o nosso futuro!

As justiças e as injustiças, a bondade e maldade, o trabalho, o querer, tudo isto misturado com a construção de uma catedral, a Catedral de Santa Maria del Mar. E depois, ainda temos a descrição das ruas, das praças, da cidade e da luz do Mediterrâneo. Foi por isso que quis cá vir. Já “audio-li” este livro três vezes e não resisti mais. Quis ver com os meus olhos aquela igreja construída com as rochas que eram trazidas da pedreira real de Montjuic às costas dos Bastaixos (e isto é baseado em fatos verídicos). Quis ver com os meus olhos e caminhar pelas ruas onde Arnau Estanyol e o seu amigo Joanet corriam e brincavam. Quis ver aquela esquina da Rua Canvis Vells com a Rua Canvis nous onde Arnau teve o seu estabelecimento de câmbios. E a rua de Montcada, a rua dos ricos e dos palacetes da época, e a “Plaça del Blat” onde tanta coisa aconteceu, o bairro judeu e a Plaça del Rey.

E quis ver se ela sorria... Sorriu, Arnau.

PS.: Obrigado, Ildefonso Falcones, muito obrigado! Vim a Barcelona pelo livro que escreveste.



Foto 3: Uma catedral larga iluminada pela luz do Mediterrâneo

 
Foto 4: A nave da Catedral

 

Foto 5: Palácio da rua Montcada, rua de palacetes de famílias nobres na Barcelona medieval



Por Carlos Martins





Poesia

MGFamiliar ® - Sunday, October 15, 2017




Livro: “Poesia” de Alberto Caeiro


Sinopse 
Esta edição apresenta Alberto Caeiro e a sua obra. Todos os seus poemas, a sua prosa, uma entrevista que terá dado em 1914 e, por fim, reflexões e interpretações sobre o valor da sua existência. Na nota prévia, explica-se a dificuldade que existe quando se pretende manter a fiel mensagem de uma obra que “está longe de ser uma obra acabada e estável”.   

Reflexão pessoal
A simplicidade e a espontaneidade são apaixonantes em Caeiro… 
A existência e o valor das coisas resumem-se, e curiosamente transcendem-se, nas sensações que despertam. Rejeita o pensar, a filosofia e tudo aquilo que vai para além do que os sentidos podem sentir. 
Não é possível falar de Caeiro sem referir o cativante “Guardador de rebanhos”. O seu enamoramento pela natureza, pelas sensações, pela liberdade de se ser apenas porque se existe,… é maravilhoso.

“ […]
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura…
[…]
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
[…]”


Por Rosália Páscoa






“Comer, Orar, Amar”

MGFamiliar ® - Tuesday, August 29, 2017


Imagem: wook.pt


Livro: Comer, Orar, Amar de Elizabeth Gilbert

Sinopse
No início da sua terceira década de vida, Elizabeth Gilbert tinha tudo o que uma mulher Americana deveria querer – um marido, uma casa no campo e uma carreira de sucesso – mas, em vez de se sentir feliz e completa, era consumida pelo pânico e pela confusão.

Este livro retrata a história em como a autora deixou para trás todas estas aquisições de sucesso, e partiu para explorar três diferentes vertentes do seu ser, através de três culturas distintas: prazer em Itália, devoção na Índia e, na ilha Indonésia de Bali, um equilíbrio entre divertimento e transcendência divina.

Apontamento pessoal
O livro de Elizabeth Gilbert incita-nos a procurar a melhor versão de nós mesmos. Transmite o exato oposto daquilo que a sociedade dita, dos costumes, das ditas “obrigações” como, por exemplo, ter um emprego de sucesso, dinheiro, marido ou mulher, filhos, etc. É, portanto, um livro libertador, que incentiva o leitor a questionar estas “normas” e qual o verdadeiro significado da palavra “felicidade”. Nos dias de hoje, em que a pressão relativamente ao “sucesso” vai aumentando, ter a coragem para abrandar e apreciar o que a vida nos pode dar, também como perceber que o tempo é um bem precioso, não é de todo uma tarefa fácil. A leitura desta obra pode ajudar nesse sentido.

Uma sugestão de leitura de Joana Seabra, USF Porto Douro




"As Terças com Morrie"

MGFamiliar ® - Thursday, July 20, 2017




Livro: As Terças com Morrie de Mitch Albom

O diálogo, durante 14 Terças-feiras, entre um velho professor que morre e um seu antigo aluno proporciona-nos a todos uma última e comovente lição sobre as coisas mais simples e mais importantes da vida – e da morte.

Este livro faz-nos apaixonar pela forma de viver e morrer de Morrie. 

Morrie soube viver e, mesmo depois de uma infância difícil, agarrou o sorriso da vida, o calor do sol, a suavidade de um chão de relva e dançou, e pensou e amou cada segundo. 

Morrie, recebe o diagnóstico de uma doença degenerativa, progressiva e inevitavelmente fatal. Desde o momento do seu diagnóstico e do aparecimento dos sintomas e da progressão dos mesmos, que adota uma postura de vida, de vida até à morte. 

Morrie é único, é verdadeiramente um professor até ao ultimo suspiro, um professor que ensina a SER, ensina a vida, ensina a morte, ensina o amor! 

Carla Martins




Neste vídeo, pode conhecer o verdadeiro Morrie Schwartz...













"Silence"

MGFamiliar ® - Thursday, February 16, 2017





Livro: Silence de Shusaku Endo



Em 1640 o jesuíta português Sebastião Rodrigues inicia uma jornada arriscada rumo ao oriente. Outrora uma nação acolhedora, o Japão tornara-se um local perigoso para os católicos. Os poucos relatos que chegam via Macau descrevem uma perseguição cruel que culmina, pasme-se, na apostasia de missionários incluindo o seu mentor Ferreira que Rodrigues tem como exemplo.

Estas são as linhas iniciais do romance do japonês Shusaku Endo (1923-1996).

Mas engane-se o leitor se pensa que se trata de “apenas” mais um romance histórico.

De facto “Silêncio” é considerada uma das principais obras nipónicas do séc. XX pois aborda magistralmente o diálogo – por vezes doloroso – entre fé e dúvida, ocidente e oriente, comunidade e indivíduo.

A biografia do escritor explica a sua capacidade para descrever estes paradoxos.

Natural de Tóquio, Endo cresceu em Kobe e foi baptizado numa época em que os cristãos representavam menos de um por cento da população.

Enquanto o Japão avançava na espiral da segunda guerra, o romancista via o ocidente como destino. Em França a doença (tuberculose), a discriminação e a dúvida assolaram o escritor.

A passagem pela Palestina criou luz na sombra e a ficção foi o palco escolhido por Endo para expressar a sua interpretação de Deus e da sua aparente ausência.

A profundidade de “Silêncio” marcou o realizador Martin Scorsese, que confessa no prefácio desta edição pela “Picador Classic”, ter lido várias vezes a obra que acabou por trazer para o grande ecrã.

Uma sugestão de leitura de Luís Monteiro







"Cartas do Tibete"

MGFamiliar ® - Sunday, November 06, 2016




Livro: Cartas do Tibete de António de Andrade


Saber que foi um português o primeiro europeu a chegar ao Tibete em 1624, pode constituir apenas uma curiosidade histórica.

Mas o que torna este livro interessante é a oportunidade de lermos o relato na primeira pessoa dessa verdadeira epopeia.

Há nestas cartas do jesuíta António de Andrade - reunidas pela primeira vez no mesmo volume - uma sinceridade que nos transporta para outro tempo e lugar em que as motivações (e ilusões?) nos parecem estranhas mas, ao mesmo tempo, inspiradoras.

E no atual contexto editorial  - quase monotemático  - é de louvar a persistência de editoras independentes como a "Livros de Bordo"  que publica livros sobre a Ásia e Oriente.

Por Luís Monteiro, Médico de Família






"A minha breve história"

MGFamiliar ® - Monday, December 14, 2015










Livro: A minha breve história de Stephen Hawking


Nesta sucinta autobiografia o célebre físico Stephen Hawking partilha como ultrapassou a Esclerose Lateral Amiotrófica e detalha (em termos ao alcance do leitor não-técnico) como decorreu o seu trabalho. Inicialmente Hawking mostrou que a relatividade geral não se aplica às singularidades no Big Bang e nos buracos negros. Mais tarde provou como a teoria quântica pode prever o que acontece no princípio e fim do tempo.

“A minha breve história” é uma oportunidade única de, sem voyeurismo,  percebermos a complexidade, as rotinas e os momentos marcantes do percurso pessoal e profissional do cientista. Uma vida extraordinária que esteve sempre ligada aos outros rompendo com a imagem fantasiosa do génio solitário.

Luís Monteiro







Glória Neto: "O Perfume"

MGFamiliar ® - Sunday, October 18, 2015



Livro: O Perfume - História de um Assassino de Patrick Suskind 



Desafiada a entreabrir as folhas de um livro que me tivesse marcado, não foi difícil surgir-me na memória “O Perfume”, que li de um fôlego só, num Verão de há já algum anos. Este livro foi-me aconselhado por um amigo que talvez me conhecesse bem. Narra a vida de Jean Baptista e tocou-me por ser um livro diferente, pela descrição de perceções em relação ao meio ambiente e às alterações psicológicas que nos podem provocar e como nos podem influenciar. Fala-nos das diferenças e deficiências que todos os seres humanos têm. A descrição dos cheiros de cada lugar e situação levou-me a senti-los intensamente, o que torna o livro muito marcante.

Nesta história só aparentemente simples descreve-se a vida de Jean, que nasceu com uma capacidade ímpar para detetar cheiros e, por causa dessa capacidade, persistentemente procurou o perfume perfeito. Passou por várias trabalhos, teve algumas vitórias ao criar aromas ímpares, mas nunca satisfeito  resolveu parar e repensar no que queria mesmo atingir, nessa altura faz uma descoberta surpreendente: não tinha cheiro. Essa revelação sobre si próprio levou-o a querer descobrir a receita do perfume humano e nessa busca obcecada tornou-se um assassino, passando o resto da vida a tentar ser “completo”, a roubar aos outros o que lhe faltava a ele...  será que podemos ter e ser alguma coisa que não venha de nós ou seja o reflexo de nós próprios?

Agradou-me a questão das diferenças - somos todos diferentes -, a persistência, os limites e como os conhecer e a demonstração de quando os cheiros podem influenciar o nosso estado psicológico.

Daqueles livros “de férias” que afinal nos acompanham para toda a vida!

Glória Neto