Maria João Xará

De Skinner ao dia a dia: a importância (e desvalorização) do reforço positivo


MGFamiliar ® - Thursday, July 27, 2017




Há uns dias atrás, enquanto brincava com a minha pequena Maria, constatei o que tenho por hábito fazer enquanto ela parte à descoberta de um novo brinquedo ou habilidade. Inúmeras vezes, e pelas mais diversas razões, dizia-lhe “que bem!”, “boa!”, “já conseguiste!”, “está quase, quase!”, “que menina grande que tu estás!”. Faço o mesmo quando, do alto dos seus 14 meses, tenta usar a colher de forma autónoma, ou beber pelo copo com ajuda, quando procura a sua barriga ou aponta para ela própria quando lhe pergunto onde está a bebé. Faço-o porque gosto de a elogiar e porque sei que isso pode contribuir para o seu desenvolvimento, em particular da sua auto-estima. 

Uns dias mais tarde, uma colega partilhava comigo o quanto fez sentido para ela ouvir alguém falar sobre a importância do reforço positivo no estabelecimento de relações profissionais mais salutares e concretizadoras. “Não queres escrever sobre isso? Tu tens tanto jeito!”. Discordei no jeito, mas fiquei com a “pulga atrás da orelha”. 

Todos nós reconhecemos a importância que o reforço positivo tem nas nossas vidas. Inserido no contexto do condicionamento operante, introduzido pelo psicólogo Skinner, é interessante perceber o efeito que um estímulo positivo pode ter, ao aumentar a frequência do comportamento que o despoletou. Ora, entre os estímulos positivos estão aspetos materiais como um doce, um presente, mas também, e de inegável valor, um abraço, um “obrigado” ou um “muito bem!”.  O elogio é assim uma das possibilidades quando pretendemos reforçar positivamente uma ação. 

Acontece que, mesmo cientes disto, ao longo da vida parece que deixamos de saber elogiar e até estranhamos quando alguém elogia o nosso aspeto, o nosso trabalho, a nossa forma de ser. Fazemo-lo com extrema facilidade às crianças com as quais nos cruzamos, mas o mesmo não acontece com os adultos. Quando o utilizamos o elogio como reforço positivo, há sempre alguém que julga existir uma segunda intenção não declarada e, por isso, tantas vezes nos vamos mantendo calados. A mesma atitude não é tendencialmente tomada quando há algo de errado. Aí, parece que o nosso inconsciente nos impele a avançar com a crítica, no sentido da melhoria, pensamos nós. Terá o reforço negativo um efeito tão mais potente que o reforço positivo? 

Sabe-se ainda que o reforço positivo é tão mais eficaz quanto mais precocemente ocorrer após o comportamento, pelo que se deve elogiar agora para obter maiores ganhos no futuro. Para além do aspeto relacionado com a produtividade, o reforço positivo tornará o dia daqueles que trabalham e convivem connosco menos pesado, mais colorido, com mais esperança. Não precisamos de ser mágicos para fazer acontecer magia. Talvez nos faltem as palavras certas, no momento certo, saídas do coração, sem medo de que quem as receba as interprete de outra forma. Se nunca tentarmos, nunca saberemos o quanto isso nos pode tornar melhores.

Por Maria João Xará



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