Maria João Xará

O Coaching Parental e a Consulta de Saúde Infantil e Juvenil: duas realidades imiscíveis?


MGFamiliar ® - Thursday, February 13, 2020



O Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil da Direção-Geral da Saúde prevê nos objetivos dos exames de saúde o apoio e estímulo ao “exercício adequado das responsabilidades parentais” e a promoção “do bem-estar familiar e em outros ambientes específicos”. O Médico de Família, pelo contacto continuado e próximo, está numa posição privilegiada para intervir neste sentido. A minha experiência diz-me que o Coaching Parental nos permite ter um olhar diferente sobre a forma de concretizar este objetivo.

São múltiplos os parâmetros a avaliar numa Consulta de Saúde Infantil e Juvenil. O bem-estar físico e psicológico, a avaliação do desenvolvimento ou a pesquisa de sinais de alarme, preenchem os minutos destinados à consulta. O tempo para conhecer o modo de funcionamento da família ou a forma de vivenciar a parentalidade é escasso, mas extremamente importante.

A formação que tenho realizado no âmbito do desenvolvimento pessoal desde 2018 tem-me feito tirar proveito de alguns momentos de consulta com o intuito de conhecer melhor, apoiar na gestão de dificuldades, incentivar a mudança ou perspetivar o futuro de uma forma mais positiva, por exemplo. O interesse particular pela área de Saúde Infantil e Juvenil, e em concreto pela área da Parentalidade, levou-me a conhecer o Coaching Parental e a iniciar formação neste contexto. Faço-o com duplos ganhos: pessoal/familiar e profissional. E se do ponto de vista pessoal os resultados se sentem desde logo no curto prazo, do ponto de vista profissional, amadurecer bem a forma como poderia aplicar os mesmos princípios em consulta foi importante para mim.

No centro de um processo de Coaching estão as questões. Questões abertas que conduzem o indivíduo numa reflexão sobre o seu estado atual, o estado desejado e/ou o caminho/estratégia a percorrer. Em consulta, lançamos muitas questões e, em particular na área Infanto-Juvenil, colocamos questões (quase em modo check list) sobre as mais variadas temáticas. No entanto, se queremos avaliar e promover o exercício da Parentalidade, não conseguiremos, em determinado momento da consulta, trazer os pais ao centro, ao mesmo tempo que obtemos informação acerca dos utentes em consulta?

O quadro abaixo apresenta alguns exemplos de questões a serem colocadas para dar resposta a temas major que pretendemos avaliar em consulta, mas dando voz aos Pais, o que sentem, o que gostam e o que pensam.


 

Temas major

Exemplos de questÕES

Alimentação/Amamentação

O que lhe dá prazer cozinhar para o seu filho?

Como descreve as horas de refeição lá em casa?

Como tem vivido a experiência da amamentação?

Higiene

O que mais gosta de fazer no que diz respeito aos cuidados de higiene do seu filho?

Hábitos de Sono

Como é, no dia-a-dia, a hora de ir para a cama lá em casa? E como se sente com essa rotina?

Saúde Oral

A saúde oral é uma preocupação para si? Que cuidados são para si imprescindíveis?

Desenvolvimento

Qual o impacto do seu papel enquanto Pai/Mãe no desenvolvimento do seu filho?

Acidentes e Segurança

Considera que a sua casa é um sítio seguro para o seu filho?

Que cuidados dependem de si para evitar acidentes em casa?

Escola

O que sente quando deixa o seu filho na escola?

Relação emocional e/ou comportamental

Como descreveria a relação que tem com o seu filho?

Lembra-se de algum momento em que o seu filho a fez rir?

Conte-me uma coisa boa que o seu filho aprendeu consigo.



Estas podem ser formas diferentes de obter a informação preciosa que serve de base à intervenção. E a intervenção pode ser apenas fazer refletir. Permitir que os Pais o possam fazer sem julgamentos e com um olhar positivo estreita laços.


Por Maria João Xará, Médica de Família, Águeda V – Pólo da Borralha





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