Maria João Xará

Imposição ou solução conjunta?


MGFamiliar ® - Monday, October 02, 2017




Há consultas em que lutamos contra a nossa vontade em aconselhar ou impor estilos de vida sem que o utente esteja interessado ou preparado para os receber. Isto é particularmente evidente em situações de tabagismo, obesidade, abuso crónico de álcool, entre outras. 

Perante algo que consideramos desadequado, podemos ter uma enorme vontade de dizer como se faz e, adotando uma postura paternalista, querer orientar no caminho certo, que é como quem diz o “nosso” caminho. Mas será realmente o “caminho”? Isso fará com que  “ganhemos” o utente? Aproximá-lo-á ou afastá-lo-á de nós?

Recordo duas situações distintas: uma enquanto utente e outra enquanto médica. Na consulta de vigilância de saúde infantil da minha filhota, fui questionada sobre quanto mais tempo a amamentaria – “a menina vai ficar viciada!”. Na altura só me ocorreu responder: “A Organização Mundial de Saúde advoga que existe benefício na amamentação pelo menos até aos 2 anos de idade, por isso, enquanto for possível, amamentarei”. Apesar da resposta, aquela pergunta em tom de reprovação mexeu comigo. 

Há umas semanas atrás observei uma criança de 2 anos que mama várias vezes ao dia, inclusivamente após as refeições e acorda várias vezes durante a noite para o mesmo fim. Interior e imediatamente “aquilo” soou-me a “errado”. No entanto, à medida que a entrevista clínica decorria fui tentado perceber de que forma reagiam os diferentes elementos do agregado àquelas “rotinas”. Sem aparente disfuncionalidade associada (“OK, respira e não cries um problema onde não existe!”, dizia para mim mesma). 

Em cada momento procurei garantir que aquela mãe não se sentisse por mim julgada (o quanto detestei que o fizessem a mim!). Com cautela, e tentando medir cada palavra, partilhei o que me preocupava relativamente à manutenção deste hábito, enquanto médica: o sono não reparador e a irritabilidade/hiperatividade diurna; o eventual aporte excessivo de produtos láteos e consequências carências a outros níveis. Compreendeu e não se fechou a 7 chaves, agradecendo a informação que lhe transmiti (“Boa! Respira de novo!”). 

Uns dias depois do sucedido dou por mim a perguntar quantas vezes tentaremos impor algo nos nossos utentes, transmitindo o que consideramos “correto”, mesmo que nem sempre exista verdadeiro fundamento clínico por detrás, para além de uma aparente definição de “normalidade” que nem sempre significa funcionalidade. 

Quantas vezes colocaremos o “pé em falso”? E, nas vezes em que isso acontece, “perdemos” o utente? Valerá a pena impor receitas? Provavelmente não. 

Colocar em cima da mesa preocupações clínicas e discutir formas de resolução poderão gerar uma decisão conjunta, com maior compromisso, substituindo a imposição.  

Por Maria João Xará






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