Maria João Xará

Estar do lado de lá


MGFamiliar ® - Monday, September 03, 2018




Somos médicos e, só por isso, devemos estar melhor preparados do que outros para receber más notícias, para lidar com situações de internamento de familiares próximos, para enfrentar as dificuldades e incertezas da doença e do seu tratamento. Devemos, porque (quase) toda a gente espera isso de nós, mas será que estamos mesmo?

Recentemente, vivi um período de internamento longo (1 mês para mim é longo) por doença da minha pequenota. Da incerteza entre a ausência de diagnóstico que explicasse o quadro até ao momento em que inicialmente foi colocado em cima da mesa o plano de tratamento correram apenas uns quatro dias. Quatro dias que se revelaram muito exigentes. Passou-me de tudo pela cabeça! Do mais grave ao mais subtil, indo sempre invariavelmente parar ao mais grave de novo. Quando me quiseram transmitir a notícia, pedi, no meio de uma urgência, que chamassem o meu marido para perto de mim. Sou médica, devia estar preparada, mas não estava até porque naquele momento eu não era médica, era mãe. Tinha medo, muito medo e ter um pilar ao meu lado era essencial.

As notícias não foram das mais tranquilizadoras, até porque o quadro era raro e a evidência científica não era muito robusta, mas a experiência da equipa que iria seguir o caso deu-me confiança. O contexto não era o adequado para colocar demasiadas questões, mas ainda assim o tempo que me foi dado para o esclarecimento foi muito importante. Havia ainda muita informação a processar (e muitas emoções para acalmar), por isso os dias seguintes foram determinantes.

Em regime de internamento, contactámos com profissionais de todos os tipos. Os que procuravam envolver-se, os que naturalmente se envolviam e os que não queriam dar demasiado de si (para se proteger, possivelmente). Superar os dias foi possível porque os que naturalmente se envolveram e os que procuraram envolver-se cuidaram no verdadeiro sentido da palavra. Mais do que antibióticos administrados, houve miminhos e sorrisos trocados e esses também faziam a diferença. Naquele quarto, ouviram-se muitos sorrisos, muitas histórias de encantar, muitas músicas animadas. E isso só pode ter ajudado.

Nos momentos em que as coisas pareciam estar a correr menos bem, valeram-nos aqueles que, compreendendo o cansaço acumulado e esquecendo a condição profissional, tiraram um pouco do seu tempo para rever, repensar e reexplicar a estratégia a quem todos os dias tentava dar o máximo de si para que a pequenota não deixasse de sorrir.

Somos médicos, mas somos pais e mães e, como qualquer pai ou mãe quando vê o seu filho menos bem, ficamos igualmente aflitos. Precisamos do mesmo espaço de escuta, do mesmo espaço de conforto, do mesmo espaço esclarecedor. O que nós precisamos também precisam certamente aqueles a quem, no desempenho da nossa profissão, temos que transmitir notícias menos positivas. Que estarmos do “lado de lá” sirva também para entendermos o que passam outros e que possamos ser para eles o que naquele momento eles mais precisam.

Maria João Xará, IFE MGF, USF Entre Margens




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