Maria João Xará

A Maternidade e a Atividade: ser médica depois de ser mãe


MGFamiliar ® - Tuesday, June 20, 2017



O dia 10 de maio de 2016 será para sempre um dia inesquecível. Foi essa a data que a minha filha escolheu para nascer e desde esse dia muitas transformações ocorreram. O nascimento da Maria não trouxe apenas mudanças para a minha vida mas também para a daqueles que se cruzam comigo no âmbito profissional. Sou uma médica diferente desde que fui mãe. 

Os primeiros meses de vida da Maria foram de muitas dúvidas, inseguranças e incertezas. Quantas vezes pensava nos conselhos que todos damos às recém-mamãs e os dizia para mim mesma. E repetia, repetia, até os integrar por completo. É que, apesar de todo o conhecimento teórico já adquirido, havia muita coisa a aprender, coisas que só ela me poderia ensinar. Limites que só ela me ajudaria a encontrar. Características que só ela me faria conhecer e desenvolver.

Regressar ao trabalho, retomar o percurso do internato em Medicina Geral e Familiar, trouxe mais um conjunto de desafios. A adaptação ao infantário, a um modo de alimentação diferente, a rotinas diferentes, deixou-nos, não raras vezes, as duas sem energia. Exausta, tentava desempenhar a minha atividade com toda a garra que conseguia ter na altura. 

A maternidade tem sido uma vivência indescritível. A esta juntam-se outras que a vida me tem oferecido: grandes conquistas e grandes derrotas, ganhos e perdas inquestionáveis, sorrisos e lágrimas que quantas vezes acabam por se cruzar. Todas estas experiências têm feito de mim uma pessoa e uma médica diferente. 

Hoje, depois de ter vivido o que ultimamente tenho tido oportunidade de viver, e especialmente depois de ter sido mãe, tenho a estranha sensação de que consigo “chegar melhor” às pessoas, compreender as suas dificuldades, confortá-las e auxiliá-las a superar os desafios que a vida lhes trouxe. Particularmente, a ligação que consigo estabelecer com os casais a superar o desafio que é tornar-se a figura de referência, com os filhos deles e com os familiares que, sobre eles, demonstram preocupação e apreço, está mais forte. Talvez a empatia, que já existia antes, tenha sido aprimorada pela autenticidade de ter passado por um caminho semelhante. É que uma coisa é conhecer os aspetos teóricos associados ao crescimento de uma família a três, outra é ter vivido, com maior ou menor “sobressalto”, esse que é um dos “desafios mais exigentes na vida de um casal”, como li algures.  

Será caso para dizer que as competências comunicacionais se adquirem e treinam neste percurso designado Internato e ao longo de toda a atividade profissional. Sim, adquirem-se e treinam-se. Melhora-se o que já vinha connosco, mas há algo que é determinante na sua evolução: as experiências de vida. 

Experimentar, sentir, viver acrescenta muito ao nosso percurso enquanto médicos. A vida, e as experiências que ela nos proporciona, dão outro sentido às tarefas, aos conhecimentos e às competências que se vão adquirindo. Assim, para além de estudar, vivamos intensamente cada desafio, cada etapa do nosso crescimento enquanto pessoas e retiremos de cada experiência o que conta para nos tornarmos mais próximos dos outros. Ser médico é também um exercício de proximidade. 

Por Maria João Xará







Comments
Anonymous commented on 21-Jun-2017 04:07 PM
Parabéns! força para que te mantenhas uma boa mãe e uma boa médica :)


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