Médicos portugueses pelo mundo

Rita Rodrigues @ Orsa

MGFamiliar ® - Saturday, September 22, 2018



Porque optaste por ir trabalhar para a Suécia? E em que localidade da Suécia estás a viver?

Tenho de confessar que a ideia de emigrar nunca foi algo que me tivesse passado na cabeça durante o meu internato em MGF. Sempre quis fazer estágios em Portugal e queria ficar no local onde me formei (situação que acabou por acontecer). No entanto, quando comecei a gerir uma lista sozinha na minha USF comecei a perceber que o stress no meu dia-a-dia estava a ser imenso e comecei a ficar um pouco frustrada. Não conseguia trabalhar nem ser como a médica de família que ambicionava e percebi que estava em burnout, apesar de nunca o ter admitido. Não tinha tempo para ver os doentes como eu queria. Ficava sempre com a sensação que devia ter dado mais, mas com o tempo que nos era dado, era quase impossível, na minha perspetiva, fornecer bons cuidados de saúde. Eu tentava, mas aí tinha sempre as consultas atrasadas e todos os dias saía sempre 2 ou 3 horas depois da minha “hora oficial”, para conseguir fazer tudo. Tinha a sensação que todos os problemas dos doentes tinham de ser resolvidos pelo médico, sentindo-me muitas vezes sozinha no meu local de trabalho. Ao mesmo tempo, não conseguia ter uma vida pessoal, pois passava a semana toda na USF e ao fim de semana tinha de dormir pois os meus níveis de energia estavam no final. E pensei: "É isto que eu quero fazer o resto da minha vida?"

O meu marido tinha acabado a especialidade em Medicina Interna e ele sentia o mesmo e não víamos as coisas a melhorar, antes pelo contrário. E começámos a temer não aguentar por mais tempo na nossa profissão, tendo até posto a hipótese de começar outra profissão, pois os nossos dias eram desgastantes e estávamos cada vez mais cansados e exaustos. Mas achávamos que era normal... Todos à nossa volta trabalhavam assim, por isso, não nos podíamos lamentar. Achávamos nós...

Um dia, visitámos uns amigos nossos na Suíça e vimos que era possível ser médico, trabalhar com qualidade e termos tempo para nós próprios. No entanto, a nós, a medicina na Suíça não nos atraía. 

Mas aí lembrámo-nos de uns amigos nossos que viviam na Suécia há 12 anos e enviámos um e-mail a perguntar como era a medicina na Suécia. Tudo o que nos descreviam parecia vindo de um sonho: consultas de 1 hora para cada doente, locais de trabalho com todo o material disponível, uma equipa multidisciplinar com apoio aos doentes (que funcionava!), possibilidade de fazer uma subespecialidade em Cardiologia (o meu marido desenvolveu esse interesse durante o internato e aqui na Suécia era possível subespecializar-se nessa área, sem ter de começar tudo de novo) e, ao mesmo tempo, ter uma vida pessoal, onde os hobbies e a família eram importantíssimos. Assim, no Verão de 2015, enviámos e-mails a vários hospitais e centros de saúde da Suécia. Claro que os grandes centros (Estocolmo, Mälmo, Gotemburgo) não responderam, mas tivemos algumas entrevistas no sul e centro da Suécia no mês seguinte, sobretudo em locais mais carenciados de pessoal. Quando aqui viemos às entrevistas não queríamos acreditar: aquilo que os nossos amigos nos falavam, era mesmo real e todos aqueles que conhecemos, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, funcionavam em equipa, tanto no hospital como no centro de saúde e apesar de trabalharem tanto ou mais do que nós, não tinham nem um décimo do nosso cansaço e stress, pois conseguiam cultivar os seus hobbies e ter tempo para a família. 

Fomos a alguns locais, mas aquele que acabámos por escolher foi uma pequena zona na região de Dalarna. Dalarna fica no centro da Suécia e é a "zona sueca mais sueca", como os locais a descrevem. Ou seja, para os suecos, aqui é que é a verdadeira Suécia e onde se encontram todas as tradições. O meu marido ficou a trabalhar em Mora e eu escolhi um centro de saúde pequeno numa cidade chamada Orsa, com cerca de 6000 habitantes. Para além de termos gostado da zona, uma das razões da nossa escolha foi as condições que nos ofereceram nesta região. Suécia tem também uma falta enorme de profissionais de saúde, já que muitos médicos e, sobretudo enfermeiros, emigram para outros países. Dalarna é uma região muito necessitada e, por isso, oferece condições que nos agradaram, nomeadamente um curso da língua sueca totalmente pago e ajuda monetária para a mudança de Portugal para cá. Nenhum dos outros locais oferecia condições tão boas, daí também a escolha para esta zona.  


    
Centro de Saúde em Orsa


Há quanto tempo estás na Suécia e pensas ficar por muito tempo?

Nós estamos a viver na Suécia desde Janeiro de 2016. Quando mudámos para cá, nunca viemos com a ideia: "É só por alguns anos e depois vamos embora". Viemos com um espírito de aventura e ver no que dava. Para já, a experiência tem sido muito boa. Entretanto, fomos pais pela primeira vez, por isso, para já, não tencionamos ir embora tão cedo. 

E se por acaso quisermos ir embora daqui, não tenho ideia de regressar a Portugal para já - tentaria talvez Noruega que fica aqui ao lado e também tem excelente condições. 

Apesar de adorar o nosso país, acho que trabalhar como médico em Portugal não é bom neste momento. Somos excelentes naquilo que fazemos e acho que a formação, pelo menos em MGF e Medicina Interna, que são as realidades que mais conheço, é das melhores da Europa. Mas não somos valorizados, nem pelas chefias, nem pelos doentes, e, no dia-a-dia, torna-se muito frustrante. 

Agora, quando vou a Portugal, consigo usufruir da minha família e amigos, do bom tempo e da comida, com muito mais sabor, pois sinto-me bem e não estou triste nem deprimida por causa do meu trabalho. 


Quais os aspetos mais positivos desta tua experiência?

A qualidade de vida no meu trabalho, sem dúvida. Aqui, voltei outra vez a gostar de ser médica e a perceber que consigo dar de mim como eu gosto, mas sem que isso me tire tempo da minha vida pessoal. Consigo trabalhar com excelentes condições e ter uma equipa que trabalha toda para o mesmo objetivo - fornecer os melhores cuidados de saúde a uma população. Também descobri a possibilidade de ter uma vida extra-profissão e consegui desenvolver mais hobbies cá - ter tempo para cozinhar, esquiar, andar de bicicleta, pelos bosques, andar de barco, enfim, estar em contacto com a Natureza. 



A turma do Curso de Aprendizagem da Língua Sueca


E negativos?

A saudade da família e amigos. Os suecos são um povo bastante diferente de nós. São mais fechados e é difícil entrar na sociedade, pois eles vivem muito "para dentro". Demora muito tempo para os conhecer. Simpáticos, mas distantes. O facto de ter vindo acompanhada e ter começado num curso com outros colegas de outras nacionalidades tornou a situação menos complicada, pois fazíamos convívios entre nós. Mas apenas comecei a conviver com outros suecos quase 1 ano depois. Mas depois de "quebrado este gelo inicial", são um povo extremamente simpático e afável. 

O clima frio e a escuridão no Inverno (e a claridade total no Verão) foi estranho ao início. Mas agora é algo que não me incomoda. Aqui tenho menos frio do que tinha em Portugal. :) 


O que pensas do Sistema de Saúde sueco?

O Sistema de Saúde Sueco não é, de todo, perfeito! Acho que há coisas que, no nosso SNS, funcionam melhor. No entanto, como não temos as condições ideais para o fazer, acabámos por não ter um sistema de saúde melhor. Para se perceber melhor, a Suécia está dividida em regiões e cada região é gerida de forma autónoma, ou seja, cada região é responsável pela gestão dos seus hospitais e centros de saúde. É isso que permite cada região poder contratar os profissionais de saúde que quiser, consoante a sua necessidade. Aqui não existe o conceito de um exame tipo Harrisson em que depois és colocado numa especialidade consoante a tua nota. Aqui, cada pessoa pode seguir a especialidade que gosta mais. Faz entrevistas nos hospitais onde quer e, consoante as necessidades, pode-lhe ser oferecido ume estágio. Se por acaso não tiver sido a escolha mais certa, pode facilmente mudar para outra até encontrar aquela que mais gosta. Daí não ser estranho haver internos com mais de 50 anos de idade a fazer um internato depois de alguns anos especialista. Pode também acontecer, se o interno não corresponder às exigências do serviço, que possa ser convidado a sair.

A Medicina Geral e Familiar é uma das especialidades nobres na Suécia. São os médicos mais necessitados e nem todos escolhem esta especialidade, por ser a mais difícil. É uma das especialidades mais bem remuneradas, tal como Psiquiatria, e certas regiões, como Dalarna, com grande necessidade, acabam por remunerar ainda melhor. 

Os Cuidados de Saúde Primários são a base do Sistema e aqui isso é mesmo verdade: os doentes não vão às urgências quando têm algum problema e não recorrem aos Cuidados de Saúde Secundários em primeiro lugar. Todos passam primeiro pelo centro de saúde. Aqui, há muito pouca medicina privada e as pessoas recorrem ao Sistema de Saúde público e sobretudo aos centros de saúde em primeiro lugar. 

O conceito de médico de família com uma lista própria também não existe (apesar de em algumas regiões, esteja a ser estudado essa vertente, mas ainda não é geral o conceito). No início, pareceu-me bom, pois não sentia o peso todo em cima de mim como em Portugal. Agora, não tenho bem a certeza se é o melhor, pois uma das grandes queixas cá, é a questão da continuidade (ou falta dela) nos cuidados de saúde. Os doentes sentem que andam muito de médico em médico e tem de estar sempre a repetir tudo. Eu, mesmo assim, quando consulto doentes que acho que devem ser vistos por mim outra vez, tento sempre marcar uma consulta de acompanhamento ou, pelo menos, efetuar um telefonema de controlo. 

No entanto, há coisas muito boas mesmo que, quando vim trabalhar para cá, melhoraram muito a minha qualidade de vida no trabalho: 

1. Os doentes, para marcarem consulta/pedir receitas/etc não precisam de ir fisicamente ao centro de saúde. Por isso, não temos as salas de espera cheias de gente com os doentes "a quererem dar uma palavrinha”. E isso traz um certo descanso. A sala de espera é separada do local dos gabinetes, pelo que conseguimos ir à casa de banho sem sermos abalroados por uma data de "recadinhos". Quem atende os telefones são as enfermeiras que dão conselhos e ajudam os doentes, realizando uma primeira triagem. E isso é uma ajuda fantástica, pois elas sabem quem deve ser visto naquele dia, quem pode esperar mais alguns dias ou situações que podem ser resolvidas pelo telefone. Ou seja, não cai sobre o médico a decisão toda. Esta gestão da procura também contribui para o meu conforto quando iniciei funções. 

2. Sistema informático e processo clínico. O programa informático é apenas um e está lá registada toda a informação do doente, desde os diários clínicos, até aos exames complementares e referenciações. O software é igual no hospital e no centro de saúde, pelo que todos os médicos têm acesso à informação do doente. Os resultados dos exames complementares vêm diretamente para o médico que os requisitou (não é o doente que os traz em mão) e, por isso, conseguimos ver esses mesmos exames com calma e pensar no próximo passo, sem o doente estar à nossa frente a olhar para nós e termos que decidir tudo em 15 minutos.  

3. O contacto com os Cuidados de Saúde Secundários. Se temos alguma dúvida (referenciar ou não, por exemplo), podemos falar ao telefone com qualquer colega especialista no hospital da região que está disponível e o contacto com eles é sempre fantástico e são uma grande ajuda, evitando assim que o doente vá em vão ao hospital. Um exemplo perfeito é a Dermatologia, em que se tivermos dúvida podemos fotografar a lesão em causa e temos resposta quase imediata, muitas vezes evitando que o doente vá desnecessariamente ao hospital. 

4. As secretárias clínicas. As secretárias clínicas, literalmente, "salvam-me o dia". Aqui, o médico não precisa de escrever no processo clínico. Aqui, cada médico tem um dictafone e, no final da consulta, dita a consulta toda, evitando assim, durante a observação e a colheita da história, interromper a mesma com o som do teclado. Em Portugal, quantas vezes eu sentia que o doente ficava incomodado quando eu tinha de escrever e ter dificuldade em prestar atenção ao que o doente dizia. No final da consulta, são as secretárias clínicas que escrevem tudo no processo. Se tivermos necessidade de efetuar uma tarefa burocrática, por exemplo emitir um relatório, basta ditar para esse dictafone, o que leva substancialmente menos tempo do que escrever. Com isto, consegui voltar a olhar para o doente e observar o doente com tempo, atenção, sem interrupção de computador na nossa relação. 

5. As enfermeiras. Não considero que a formação das enfermeiras seja superior à verificada em Portugal. No entanto, aqui, as enfermeiras são mais autónomas e isso facilita muito o trabalho do médico. Já falei das enfermeiras que fazem uma primeira triagem ao telefone, evitando assim que haja doentes que não precisam de cuidados de saúde ou precisam de cuidados de saúde mais diferenciados. Por exemplo, as enfermeiras podem seguir uma especialidade e trabalhar nessa área no centro de saúde. No meu centro, existem enfermeiras especialistas em saúde infantil, saúde materna, incontinência urinária, diabetes, cuidados continuados. Isso permite que certos doentes sejam seguidos pelas enfermeiras, não precisando de contacto médico apertado, pois as enfermeiras sabem mais e melhor dos assuntos de que são especialistas. 

6. A questão de nos tratarmos pelo nome e não pelos cargos que ocupamos. Todos nos tratamos pelo nome próprio e isso faz com que sejamos mais próximos e não há distância entre os elementos da equipa

7. "Assistente da prática clínica". Existe um cargo cuja tradução literal é difícil. São elementos que não são enfermeiros, mas podem colher sangue, fazer ECG, fazem também algum trabalho de auxiliares, como ajudar na mobilização do doente, e até ajudar nas cirurgias e exames endoscópicos.   

8. Laboratório no centro de saúde. Ter a possibilidade de fazer toda e qualquer análise no centro de saúde, para seguimento ou diagnóstico, constitui também uma vantagem para o nosso trabalho.

9. Gestão da consulta. No meu centro de saúde, uma consulta de saúde de adultos/ acompanhamento de doenças crónicas tem a duração de 1 hora. Como disse anteriormente, há centros de saúde com regras diferentes. Uma consulta de agudos tem a duração de 15 minutos, mas antes, a enfermeira já colheu uma história clínica resumida e fez análises sumárias de acordo com a suspeita do diagnóstico. Por exemplo, se o doente recorrer por disúria, quando o doente é visto pelo médico, tem-se já o valor da PCR, temperatura e o resultado do Combur. Desta forma, temos tempo de observar o doente e não ter a sensação de que estamos a correr contra o tempo.  

10. Tempo administrativo contemplado no dia a dia. Na minha agenda, todos os dias é reservado espaço para procedimentos administrativos (referenciações, relatórios, receitas). Assim, não tenho de realizar essas tarefas nas minhas "horas livres" nem de as efetuar sob pressão ou “a correr”. Posso fazer as coisas com calma e, se algum dia achar que tenho o serviço acumulado, o que é comum antes ou após os meus períodos de férias, solicito um dia reservado quase na totalidade para procedimentos administrativos, de forma a manter todo o meu serviço cumprido e em dia.

11. Intervalo a meio da manhã e da tarde. Os suecos são conhecidos pela "fika" - é uma espécie de pausa que se faz no trabalho, de manhã e de tarde, cerca de 30 minutos em que todos os colegas se reúnem para um café e lanche. É excelente, pois quebra a rotina do dia-adia, melhora as relações no trabalho e permite descansar um pouco antes de um próximo doente. 

Em resumo, existem muitos aspetos positivos no meu trabalho e, tudo isto, faz com que eu tenha voltado a gostar de ser médica. 



Teambuilding: churrasco no local de trabalho


Da realidade que estás a vivenciar aí, o que gostarias de ver replicado em Portugal?

Às vezes, médicos amigos perguntam-me: "Mas, então o que é melhor aí do que aqui em Portugal?". É difícil enumerar uma coisa só - são várias! 

Sempre tinha ouvido falar do método de trabalho do Norte da Europa, onde sempre ouvi dizer que as pessoas trabalhavam muito e produziam muito. É verdade, sim, porque durante as horas de trabalho, aqui trabalha-se bastante e até mais do que eu trabalhava em Portugal. Pode parecer que o facto de ver apenas 4 a 6 doentes por dia, é pouco, mas como tenho tempo administrativo e recebo resultados de exames complementares de muitos doentes, acabo por gerir 40 a 50 doentes diariamente. No entanto, mal termina o meu horário de trabalho, o trabalho termina mesmo e começa a vida pessoal, que é bastante respeitada. Ou seja, não se verifica o envio de relatórios, de planos de ação ou de outras solicitações laborais para o meu mail pessoal, nem existem tarefas para se fazer ao fim de semana. Não há telefonemas fora de horas, nem nas férias. Há respeito quando o trabalho acaba. Em contrapartida, durante o período de trabalho, estão todos sintonizados e orientados para o mesmo. Às 8h00, todos os profissionais de saúde entram no centro de saúde e temos uma reunião diária para discutir o dia.

Os próprios doentes também são diferentes. Os doentes têm muita responsabilidade pela sua saúde. São eles que gerem a renovação do receituário e são eles que gerem o agendamento das consultas, incluindo o agendamento das consultas de vigilância de doenças crónicas. Claro que há pessoas a quem é preciso efetuar essas marcações de seguimento, por exemplo, devido a défices cognitivos ou idade avançada. Os doentes sabem a medicação que fazem, estão muito interessados naquilo que fazem e são curiosos, fazendo perguntas sobre diagnóstico ou terapêutica, mas de forma construtiva e não de forma negativa. Os doentes conhecem os seus direitos, mas conhecem também os seus deveres. E eu, como médica estrangeira, fui bastante apoiada na língua e nunca me senti posta de parte pelas pessoas. Aliás, exatamente o oposto! Os doentes foram sempre positivos e quiseram sempre ajudar-me. 

Há muita coisa que é preciso mudar em Portugal para que os médicos voltem a sentir-se bem, sobretudo no SNS. Mencionei aqui apenas algumas coisas que eu gostaria de ver replicado. No entanto, para isso possa ocorrer, é necessária uma mudança de base no nosso sistema. A MGF tem de ser vista como a base dos Cuidados de Saúde e tem de ter condições para isso. Os médicos de família têm de ser valorizados e é necessário que deixem de ser vistos como os parentes pobres da medicina, quer pelos doentes, quer pelos colegas de outras especialidades. A acessibilidade dos doentes tem de melhorar e a educação para a saúde é algo extremamente importante. Mudando estas coisas mais básicas e de fundo, associada à implementação de algumas das medidas que aqui mencionei, então seria possível eu regressar a Portugal. No presente, eu não conseguiria regressar. Voltar ao ambiente stressante sem as condições adequadas de trabalho, seria regredir. Tenho muita pena, pois eu gostaria imenso de retribuir ao meu país o investimento efetuado na minha formação profissional e adoraria de ser médica onde me formei. 

Muito obrigado, Rita Rodrigues :)






Isabel Santos Solha @ Atenas

MGFamiliar ® - Wednesday, June 13, 2018



Em que local estives na Grécia? Por quanto tempo?
Durante os meses de Setembro e Outubro de 2017 estive em Atenas, a colaborar enquanto voluntária com a Plataforma de Apoio a Refugiados (PAR), juntamente com outros três voluntários.

Porque optaste por uma missão?
Porque queria conhecer melhor o problema dos refugiados de guerra e outros tipos de opressão e contribuir de uma forma mais direta. Dar nomes e caras aos números que nos chegam através dos meios de informação torna esta situação num problema pessoal e que deve tocar a todos nós. É importante não me deixar distanciar só porque vivo num país pacífico e distante dos muitos que se encontram atualmente em conflito. 

Porquê Grécia?
Nos últimos dois anos, durante a ainda atual crise de refugiados, oriundos em grande parte da Síria, a Grécia foi uma das principais portas de entrada no continente europeu. Ilhas anteriormente conhecidas pelos seus hotéis, luxo e bom tempo foram adaptadas e reorganizadas na tentativa de alojar temporariamente os milhares de pessoas que faziam a travessia para o continente, na tentativa de reencontrar um pouco de terra firme e paz. Alguns estão “de passagem” nestes locais há mais de 2 anos. De tal forma este esforço e trabalho foram revolucionários e inspiradores que os "habitantes das ilhas gregas no mar Egeu" foram candidatos a prémio Nobel da Paz em 2016.
Desde o início de 2016, a PAR tem no terreno duas equipas de voluntários, renovadas periodicamente, uma na ilha de Lesbos e outra em Atenas, a trabalhar de perto com estas pessoas, num projeto intitulado “PAR - Linha da Frente”. 

O que te surpreendeu mais no primeiro contacto?
Algumas das famílias que conheci vivem em instituições de acolhimento há mais de um ano. Os processos de atribuição de estatuto de refugiado, reunificação de famílias ou recolocação são frequentemente morosos e isso causa desespero e isolamento de mães, pais e filhos, que se separam na expectativa de melhores condições para alcançarem um local seguro onde se estabelecer. 




Qual foi o maior desafio durante esses dois meses?
Quando se integra uma missão com uma dinâmica de continuidade, é fundamental a nossa capacidade de adaptação. Por um lado, a nossa equipa tinha a ambição de contribuir para melhorar as condições atuais das pessoas nos abrigos em que trabalhámos e criar novos projetos. Por outro, percebi a importância de manter um equilíbrio com as pessoas que continuarão a apoiar as famílias após a nossa partida e que é mais vantajoso a estabilidade dos avanços graduais, mas consistentes, do que mudanças radicais, mas sem sustentabilidade. A parte de ensinar inglês e participar em atividades de trabalhos manuais com crianças entre os 3 e os 8 anos, sobretudo quando envolvia tintas, foram sem dúvida desafios muito compensadores.

Esta missão mudou algum aspeto na forma como exerces a tua prática clínica?
O período que passei em Atenas e a variedade de trabalho e tarefas que fui exercendo reforçaram o meu gosto e convicção na importância da Medicina Geral e Familiar no contexto de uma comunidade. 
Mesmo depois das câmaras e jornalistas deixarem de falar destes refugiados, o facto é que muitos deles continuam à espera que o seu processo de reunificação com a família seja concluído, ou à espera de conseguir um trabalho e recomeçar a vida num novo país sem a sombra da guerra, muitos deles continuam a chegar à costa vindos não só do oriente, mas também de países africanos. De forma análoga, depois de milhares de pessoas chegarem à costa da Europa mediterrânea com necessidades urgentes de saúde, vários meses depois, persistem problemas de saúde maioritariamente não urgentes e menos visíveis à primeira vista. Os problemas crónicos do corpo e da mente são igualmente incapacitantes e destruidores quando negligenciados. Além de necessidades médicas, existem sobretudo necessidades humanas, de apoio e incentivo a quem não tem nada nem ninguém conhecido, nem está familiarizado com a cultura onde se tenta integrar. Esta abrangência de cuidados enquadra perfeitamente no papel que atribuo ao médico de família.

Quais os conselhos práticos que podes dar a um colega português que pretenda participar numa missão semelhante?
Estas missões são periodicamente avaliadas, mas quem sentir que pode contribuir enquanto voluntário para tornar a espera destas pessoas menos angustiante e destruidora, pode informar-se no site da PAR (refugiados.pt) e perceber qual a melhor forma de contribuir. Esta organização trabalha não só na linha da frente, mas também cá em Portugal. O projeto PAR Famílias, em parceria com várias instituições de acolhimento, presta assistência não só em alojamento, mas na integração destas famílias no nosso país.




Muito obrigado, Isabel Santos Solha!

 


Ana Miguel @ Avranches

MGFamiliar ® - Thursday, May 17, 2018




Porque optaste ir trabalhar para França? E em que localidade / região de França?
Foi o país onde eu e o meu marido tivemos uma excelente proposta, na mesma semana, em cidades muito próximas (20 minutos). Ficámos a pensar que eram duas excelentes oportunidades a explorar... Estou em Avranches, na Normandia, região onde fica o belo monte Saint Michel e o mar da Mancha, que cada dia me surpreende com uma cor diferente.
O meu marido não é médico, por isso vou falar apenas da minha proposta: equipa de oftalmologistas como eu, equipamento do melhor que eu já vi, eficácia de organização do meu grupo, clínica reativa: que comprou material para me estimular a vir; e durante a minha atividade cirúrgica, sempre que precisei de algum material a renovar ou de novo material, obtive-o sem problemas no espaço de 1-2 meses... No hospital em Portugal seria 1-2 anos...

Há quanto tempo estás em França e pensas ficar por quanto tempo?
Estou há praticamente 4 anos e estou a pensar ficar... para sempre! Hahaha! :) Bom, na vida não devemos fazer planos a longo prazo, mas não temos razões a nível profissional que nos façam pensar voltar.

Quais os aspetos mais positivos desta tua experiência?
A emigração é uma experiência profunda que nos ensina muito, mesmo sobre nós próprios e a nossa capacidade de adaptação. Fora de Portugal e num ambiente totalmente novo, para mostrar o nosso valor contamos apenas com o nosso conhecimento, capacidades técnicas, tenacidade e personalidade. No meu caso, ensinou-me a dar mais valor a mim própria a nível pessoal e profissional. Foi muito mais fácil do que eu tinha previsto, mas tive a sorte de ter colegas extremamente corretos, acolhedores, que partilharam a sua casa e amigos connosco; enfim, fiz uma nova família graças a eles. 

E negativos?
Ficar longe da família é sem dúvida o ponto negativo e o único ponto que me faria repensar voltar. Felizmente existem aeroportos e aviões... :)

O que pensas do Sistema de Saúde francês?
Por muito que me custe admiti-lo, o sistema de saúde francês é bastante melhor do que o português. Muito! Tudo organizado, gestão interessante, cotações das consultas (preços) rigorosos e tabelados, acesso aos cuidados de saúde muito bom (mesmo existindo muito menos médicos per capita do que em Portugal). Os doentes são 100% reembolsados de quase todos os actos médicos que são feitos, sendo reembolsados quer escolham o sistema privado, quer hospitais públicos.
No entanto, parece haver (não me posso pronunciar mais porque trabalho num sistema privado) algumas falhas nos hospitais semelhantes ao sistema público português, que levam a perda de eficácia e custos acrescentados, acima de tudo por má gestão.

Da realidade que estás a vivenciar aí, o que gostarias de ver replicado em Portugal?
Gostaria que as vantagens do sistema de saúde francês (resposta anterior) fossem replicadas. Acesso (tendencialmente) universal mas com uma boa gestão de saúde (gestores que não ganham demasiado e a quem resultados concretos são exigidos poderá ajudar...). E ouvir os médicos - aqui os médicos ainda têm o poder de ser ouvidos pelo governo e ainda são respeitados pela população, coisa que em Portugal senti que se perdia um pouco...



Muito obrigado, Ana Miguel!


Margarida Leite @ Kathmandu

MGFamiliar ® - Monday, February 06, 2017



Como surgiu a oportunidade ires para o Nepal?

Antes do terramoto de 25 de abril de 2015, uns amigos meus tinham planeado fazer férias no Nepal e já tinham comprado a viagem. Depois do terramoto e da destruição exibida nos meios de comunicação social, pensaram em aproveitar essa viagem para, além de conhecerem o país, ajudarem de alguma forma e convidaram-me a juntar-me a eles. No dia em que planeámos a viagem e os dias de voluntariado, lembrámo-nos que nas notícias tinha sido dado destaque a dois portugueses que se encontravam no Nepal a ajudar. Procuramos as suas páginas no Facebook, enviamos una mensagem a mostrar a nossa disponibilidade e interesse e recebemos uma resposta rápida e positiva. Estávamos assim inscritos como voluntários no seu projeto e iríamos trabalhar na tenda médica de um Campo de Desalojados em Kathmandu – o Campo Esperança – e participar na reconstrução de casas em Bistagaun, uma aldeia a 20 km da capital.


Quando foste e quanto tempo tiveste lá?

Fui, juntamente com 3 internos de formação específica de outras especialidades, de 18/09 a 11/10/2015 e decidimos fazer 2 semanas de voluntariado e 1 semana de férias.   

O que te surpreendeu mais no primeiro contacto com a cultura e as pessoas?

Provavelmente a boa disposição e o sorriso das pessoas. Esperava encontrar pessoas tristes e devastadas por terem perdido a sua casa e os seus bens, por estarem agora a viver num campo de desalojados. Em vez disso, por entre olhares de agradecimento, havia alegria e motivos para festejar. Numa rotina quase “normal” as crianças iam à escola, os adultos que não trabalhavam frequentavam cursos profissionais e as pessoas que apareciam na tenda médica não tinham queixas muito diferentes das dos doentes que nos aparecem em consulta na USF.




Como são os cuidados de saúde no Nepal?

São parcos e desorganizados, não havendo uma rede de cuidados de saúde com hierarquias estabelecidas. Supostamente existem no país cuidados de saúde públicos a que se podem aceder com alguns benefícios do governo, mas apenas tivemos contacto com hospitais privados a que recorremos com os habitantes do campo de desalojados. O recurso a estas instituições é limitado devido à pouca oferta e aos custos elevados.
Dentro do Campo Esperança os cuidados de saúde são assegurados pelos voluntários que vão trabalhando na tenda médica, entre estudantes de medicina, médicos e enfermeiros de várias nacionalidades. A tenda possui material médico obtido através de doações, que permite uma assistência correspondente à de uma consulta aberta na USF, com a exceção do pedido de exames complementares de diagnóstico. O campo dispõe de saneamento básico, reservatório de água potável e luz elétrica, mas as condições de higiene nem sempre são ideais, como seria de esperar num contexto de 350 pessoas distribuídas por 18 tendas.
As farmácias têm o aspeto de uma típica loja de rua e encontram-se dispersas por toda a cidade, são confusas e atoladas de medicamentos sendo que a maioria se compra sem qualquer tipo de prescrição médica.
O Nepal é um dos países mais pobres do mundo, sendo por isso proporcional a disponibilidade em recursos de saúde, principalmente em contexto de catástrofe. Existe uma grande escassez de infraestruturas e quanto a isso um voluntário ou uma ONG pouco pode fazer.




O que trouxeste para o teu dia-a-dia como médica de família em Portugal?

Para o meu dia-a-dia trouxe a noção de que se pode fazer muito pelas pessoas, mesmo sem grandes recursos, mesmo em cuidados de saúde. Sem NOC’s ou PEM e sem os antibióticos de primeira linha ajudamos e tratamos na mesma medida que fazemos na nossa prática clínica diária e nada é mais gratificante que isso.

Quais os conselhos práticos (contactos) que pode dar a um colega português que queira ter uma experiência semelhante?

Os dois portugueses de que falei transformaram o seu projeto numa associação, a Associação Obrigado Portugal e toda a informação que precisam está no siteAí podem saber que projetos ainda estão a decorrer e de que forma podem ajudar. Os elementos da Associação são sempre acessíveis e qualquer ajuda será bem-vinda. 
Se têm vontade em ter uma experiência como esta e se a conseguem fazer em segurança, vão sem hesitações. Vale a pena saber que conseguimos ajudar “fora” do nosso consultório.




Obrigado, Margarida Leite!







Bernardo Pessoa @ Aahrus

MGFamiliar ® - Wednesday, November 02, 2016



Porque optaste ir efetuar este estágio na Dinamarca?

No âmbito dos cuidados de saúde primários o modelo de trabalho da Dinamarca é considerado uma uma referência a nível internacional. Se já tinha conhecido a realidade dos cuidados de saúde hospitalares nos Estados Unidos, faltava agora complementar a formação no local de excelência em que o modelo de saúde Português baseia algumas das suas práticas na Medicina Geral e Familiar. Em relação à cidade, embora Copenhaga seja a capital e referência turística, a dimensão e multiplicidade cultural próprias duma capital europeia fazem com que não seja aqui que se conheça a profunda e genuína realidade Dinamarquesa. Aahrus é uma cidade Universitária e com uma população dinâmica, culta e jovem. A hospitalidade e simpatia da população foram outros ingredientes que, embora desconhecesse, vieram desmistificar o preconceito de “frieza dos povos nórdicos” e acrescentar uma agradável surpresa a toda esta experiência.

Quais os aspetos mais positivos desta tua experiência?

Foram vários os aspetos que marcaram positivamente a minha estadia tanto pessoal como profissionalmente: O primeiro foi claramente a hospitalidade da população Dinamarquesa. Prova disso foi o convite insistente para ficar instalado em casa do médico que me iria receber e a forma informal com que a sua família acolheu no seu quotidiano um português totalmente desconhecido. A par desta hospitalidade encontrei na Dinamarca o expoente máximo do civismo entre cidadãos que se manifestavam por um enorme respeito, confiança e sentido comunitário.

Quanto aos aspetos profissionais, um dos que mais se destaca é sem dúvida a acessibilidade ao médico de família. A disponibilidade aos cuidados de saúde primários é garantida 24 horas por dia sendo respondida pelo próprio médico de família na sua clínica entre as 8h e as 16 horas nos dias de semana, e fora deste horário, através de um sistema de “call centre” organizado pelos mesmos médicos de família que, através de uma escala rotativa numa central telefónica, gerem a localização e disponibilidade do utente / médico e conforme a gravidade e urgência da situação clínica, canalizam o utente para uma de 4 soluções: 1. Permanecer em domicílio para cumprir ou não algum tratamento administrado pelo próprio utente, 2. Dirigir-se à unidade de atendimento onde se encontram médicos de família para avaliação clínica presencial, 3. Disponibilizar uma consulta domiciliária, 4. Referenciar a cuidados hospitalares em quadros clínicos de elevada gravidade.

Um outro aspeto que não posso deixar de referir é a total ausência de papel durante todo o dia de consultas e na comunicação entre todos os intervenientes da saúde do utente: médico de família / laboratório de análises / centros de imagiologia / hospital / utente. O sistema informático articula-se numa única plataforma e a comunicação entre médico – utente é quase sempre feita através de email. O utente dispõe ainda de uma página de internet onde pode marcar as suas consultas ou colocar questões diretamente ao seu médico.


E negativos?

Se tenho que apontar algum aspeto que seja menos positivo posso referir o longo Inverno nórdico que o comum Português não está acostumado. No entanto, note-se que todas as habitações são construídas com tecnologia eficiente de preservação do calor pelo que é fácil e barato ter a casa aquecida. Outra “pedra no sapato” é sem duvida a língua. Embora todas as gerações e classes sociais falem fluentemente inglês, é expectável que vivendo na Dinamarca tenhamos que mais tarde ou mais cedo “arranhar” o dinamarquês.

O que pensas da realidade da medicina e do sistema de saúde com que estás a contactar na Dinamarca?

Dos diferentes sistemas de saúde que já tive contato verifico que não há sistemas perfeitos mas sim aspetos mais ou menos positivos que gostaríamos de replicar no nosso país. E a Dinamarca não é exceção. O médico de família é a porta de entrada para o sistema de saúde e por essa razão privilegia-se a sua disponibilidade e acessibilidade. Dessa forma a população não sobrecarrega as urgências e serviços hospitalares. Exceto em situações de risco eminente de vida, o médico de família é a única forma de aceder ao Hospital quer por causas urgentes quer eletivas. A população percebe este modus operandi e não o entende como um entrave ao Hospital porque sabe que está sempre algum médico disponível para atender, por vezes mesmo o seu próprio médico de família. A relação entre médico e utente que se vive neste país só pode ser entendida quando compreendemos a cultura Dinamarquesa, porque na realidade, as diferenças culturais que nos distinguem deste povo são bem maiores do que as vantagens tecnológicas ou logísticas que possam ter.

Da realidade que estás a vivenciar há algum aspeto que gostarias de ver replicado em Portugal?

Um dos principais indicadores de qualidade da nossa atividade enquanto médicos de família é sem dúvida a acessibilidade do utente à consulta. Para agilizar este parâmetro, o sistema de saúde dinamarquês dispõe de determinadas medidas que seriam a ambição de muito médicos de família portugueses: 1. central telefónica em horário pós laboral do médico, 2 . o modelo de comunicação utente / médico através de email, 3. a triagem dos utentes aos cuidados hospitalares, 4. o sistema único informático da saúde, 5. A marcação de tempos de consulta conforme o número de problemas a ser abordados. Ou seja, se o utente necessitar abordar 2 problemas então são alocados 2 tempos de consulta e assim sucessivamente. Estas medidas agilizam os cuidados de saúde primários, aumentam o nível de acompanhamento e satisfação dos utentes e aliviam as urgências hospitalares. 





Liliana Laranjo @ Sydney

MGFamiliar ® - Sunday, February 21, 2016







Há quanto tempo estás na Austrália?

Iniciei funções na Austrália em Agosto de 2015, como Postdoctoral Research Fellow na Macquarie University, em Sidney.

O que te levou a optar por emigrar?

A paixão por viajar e conhecer novos lugares e pessoas. A necessidade constante de expandir a minha zona de conforto e enfrentar novos desafios. A vontade de explorar uma carreira académica onde tivesse melhores condições para o fazer. A desmotivação com a má gestão no SNS, sobretudo ao nivel das chefias, onde o desrespeito pelos profissionais de saúde e, sobretudo, pelos doentes, atingiu proporções intoleráveis.

A proposta para trabalhar no Australian Institute of Health Innovation - Centre for Health Informatics tornou-se irrecusável porque me permitia prosseguir a carreira académica na área em que realizei o meu doutoramento, além de me oferecer todas as condições para poder equilibrar a minha vida pessoal e profissional da melhor forma possível.

Claro que não foi uma decisão fácil, particularmente porque a Austrália fica do outro lado do mundo! As saudades da família e amigos custam muito e apenas são parcialmente aliviadas pelo Skype e Facebook.

O que te surpreendeu mais no primeiro contacto com a cultura académica australiana?

A multiculturalidade, que adoro, e a abertura e simplicidade das pessoas, que permite que a comunicação seja fácil, sem o constrangimento de formalidades ou hierarquias. Penso que isto é uma grande vantagem, sobretudo no meio científico, porque permite que o conhecimento avance e se transmita de forma mais célere, sem barreiras desnecessárias.

Outro aspeto passa pelas oportunidades de financiamento para projectos de investigação clínica, que é muito superior ao existente em Portugal. Finalmente, a flexibilidade de horário no meio académico é muito grande e, além disso, as oportunidades existentes para médicos seguirem paralelamente a carreira académica são muitas (virtualmente qualquer combinação de tempo entre as duas atividades é possível, sendo muito comum ver médicos a realizar prática clínica 1, 2, ou 3 dias da semana e o restante em investigação).

O sistema de saúde australiano pode ser um modelo para Portugal? Porquê? Sinceramente, sinto que ainda não conheço o sistema de saúde australiano suficientemente bem para poder fazer uma comparação justa. Daquilo que me apercebi até agora, uma das maiores vantagens do ponto de vista do médico de família tem a ver com a flexibilidade da prática clínica, que permite a conjugação fácil com outras atividades de valorização pessoal ou profissional. Do ponto de vista do utente, penso que existem bastante iniciativas "patient-centred", com vários protocolos em prática para a promoção da partilha de decisões de saúde ("shared decision-making"). Como pontos negativos, o sistema 'fee-for-service' utilizado na Austrália poderá ser uma causa de sobremedicalização, com todas as suas consequências nefastas.

Quais os conselhos práticos que podes dar a um colega português que queira emigrar para a Austrália?

O reconhecimento da licenciatura portuguesa em Medicina, bem como da especialidade feita em Portugal, não é automático na Austrália: é um processo lento, trabalhoso, e caro. Mas não é impossível. Há alguns sites que ajudam a explicar o processo:

- http://doctorconnect.gov.au/internet/otd/publishing.nsf/Content/skillsRecognition

- http://www.amc.org.au/about

- http://www.racgp.org.au/becomingagp/imgaus/specialist-pathway/

Uma maneira muito mais fácil de emigrar para a Austrália é conseguindo uma posição académica (e posteriormente iniciar o processo para poder exercer medicina aqui, se for esse o objetivo).

Recentemente criei o grupo no Facebook "Médicos Portugueses na Austrália", para que os colegas que aqui estejam a trabalhar e os que pensem emigrar num futuro próximo possam trocar ideias e dicas sobre todo o processo. Este grupo poderá, em breve, ser um canal útil para partilha de informações sobre a emigração de médicos para a Austrália.


Obrigado, Liliana, por partilhares esta tua experiência connosco! :)










Raquel Diz @ S. Paulo

MGFamiliar ® - Monday, November 16, 2015


Porque optaste por efetuar este estágio?

Na minha opinião o principal objetivo de realizar um estágio no estrangeiro é contactar com uma nova realidade, distinta da nossa, de forma a aumentar a flexibilidade, capacidade de adaptação a novas situações e alargar horizontes, do ponto de vista médico e pessoal. A atividade no terreno e possibilidade de acompanhar o dia-a-dia de um Médico de Família noutro país é a forma mais real de entender o funcionamento e organização dos Cuidados de Saúde Primários (CSP) desse mesmo país.

O estágio realizou-se em duas Unidades Básicas de Saúde (UBS), UBS Vila D’Alva e UBS Jardim São Jorge (equivalente aos Centros de Saúde em Portugal) durante o período de 1 mês, entre 6 de Março e 5 de Abril de 2014.

Porquê Brasil?

A opção pelo Brasil, concretamente pela cidade de São Paulo, foi influenciada por vários fatores, de natureza pessoal e profissional. O interesse pela cultura e particularidades socioeconómicas do Brasil e o conhecimento de que o serviço público de saúde neste país, denominado Serviço Único de Saúde (SUS) estava atravessar uma fase de mudança, nomeadamente no que diz respeito aos CSP, foram fatores determinantes nesta escolha. Profissionalmente acredito que o contato com patologias e problemas sociodemográficos caraterísticos deste país, nomeadamente doenças infetocontagiosas, problemas com o abuso de substâncias, precariedade das condições habitacionais e dificuldade de acesso aos cuidados de saúde me farão crescer e ampliar a minha visão acerca da problemática da saúde destas populações.




Com que impressões ficaste do Sistema de Saúde e da MGF exercida nesse país?

Ainda que tendencialmente público, o sistema nacional de saúde brasileiro (SUS), serve, maioritariamente, a população mais desfavorecida daquele país, já que as pessoas de classe média-alta, ainda que possam usufruir do mesmo, optam pelos seguros de saúde (Planos de Saúde no Brasil) e atendimento em instituições privadas. Apesar dos esforços políticos nesse sentido, sabemos que a oferta de instituições públicas para o atendimento aos doentes é escassa, quer a nível hospitalar, quer de CSP, levando à sobrelotação dos servições de urgência e internamento hospitalares e ao grande número de utentes por médico de família nas UBS, que pode ir até 4000 utentes por médico.

Em 1994, o Ministério da Saúde do Brasil, criou o Programa de Saúde da Família, atualmente designado Estratégia de Saúde da Família (ESF), cujo principal propósito era reorganizar a prática da atenção à saúde em novas bases e substituir o modelo tradicional (neste modelo o atendimento nas Unidades era da responsabilidade de médicos especialistas em Medicina Interna, Pediatria, Ginecologia, não dispondo de profissionais da área de Medicina Geral e Familiar ou “Medicina da Família e Comunidade”, como é designada no Brasil), levando a saúde para mais perto da família e, com isso, melhorar a qualidade de vida dos brasileiros. As prioridades da ESF são ações de prevenção, promoção e recuperação da saúde das pessoas, de forma integral e contínua. O atendimento é assegurado pela Equipa de Saúde da Família (médico, enfermeiro, auxiliar de enfermagem e agente comunitário de saúde), na Unidade ou no domicílio, criando vínculos de coresponsabilidade entre a população e os profissionais. Cada UBS trabalha com um território de abrangência definido e é responsável pelo registo e acompanhamento da população vinculada a esta área.




Da realidade que vivenciaste, há algum aspeto que gostarias de ver replicado em Portugal?

A atenção e abordagem ao doente como um todo, como um ser biopsicossocial, tendo em conta o seu contexto social, familiar e na comunidade em que se insere. No Brasil, dada a escassez de recursos disponíveis, seja de meios complementares de diagnóstico e terapêutica ou resposta hospitalar a referenciações, a abordagem do médico de família é tendencialmente virada para a resolução dos problemas psicossociais e menos centrada na doença orgânica.

Maior tempo por consulta disponibilizado para o atendimento aos doentes e uma maior multidisciplinaridade das equipas, sendo que cada UBS no Brasil dispõe de profissionais das mais diversas áreas (medicina dentária, psicologia, terapia da fala, terapia ocupacional, fisioterapeuta, educadores físicos, bem como especialidades hospitalares, em regime de consultadoria).

Este estágio mudou algum aspeto na forma como exerces a tua prática clínica?

Sim. Alertou-me e sensibilizou-me para alguns aspetos, nomeadamente a gestão de recursos mais conscienciosa e uma abordagem mais centrada na pessoa.

Tens algum conselho para partilhar com colegas que estejam a ponderar efetuar um estágio internacional?

Uma palavra de incentivo e motivação. Escolham um país ou uma realidade que vos desperte interesse e vão à luta. Vão voltar com certeza mais ricos, pessoal e profissionalmente e enriquecer, com a vossa experiência, o local por onde passarem.




Obrigado, Raquel Diz, Interna de Medicina Geral e Familiar da UCSP Santa Maria II de Bragança, por nos teres concedido esta entrevista.  :)






Bernardo Pessoa @ Miami

MGFamiliar ® - Sunday, October 04, 2015





Porque optaste ir efetuar este estágio em Miami?

Durante o meu Internato complementar de Medicina Geral e Familiar tive a oportunidade de fazer um estágio opcional numa área que gostaria de aprofundar os meus conhecimentos e por isso escolhi a Medicina Desportiva. Neste âmbito, e por conhecer alguns médicos a residir em Miami, fiz todos os possíveis para visitar este centro de referência mundial na Medicina Desportiva assim como viver um pouco da realidade dos cuidados de saúde primários nos Estados Unidos.

Há quanto tempo estás em Miami? E pensas ficar por quanto tempo?

Por agora este estágio tem a duração aproximada de um mês. Já conhecia algumas das infraestruturas e corpo clínico deste centro mas desta vez foi-me possível integrar um pouco mais na prática clinica diária. Quanto ao futuro, só o tempo o dirá mas fica sem dúvida o desejo de voltar.

Quais os aspetos mais positivos desta tua experiência?

A recetividade foi sem dúvida o primeiro aspeto que superou as minhas expetativas. Estive perante alguns dos médicos mais consagrados a nível mundial na medicina desportiva e com eles estabeleci uma relação próxima e informal que tornou a minha aprendizagem extremamente produtiva. Por outro lado, ter acesso ao acompanhamento clínico dos atletas da equipa NFL Miami Dolphins e a oportunidade de participar ativamente na decisão terapêutica de alguns casos foi um privilégio difícil de esquecer.


E negativos?

O custo de vida é sem dúvida um fator a ter em conta para quem está habituado aos salários / custos em Portugal. Mesmo adotando um estilo de vida modesto, os custos dos bens essenciais são substancialmente mais caros e como se isso não bastasse… a “junk food” é um terço do preço de comida mais “natural” o que torna a alimentação saudável ainda mais difícil.

A participação ativa na anamnese e exame objetivo são também muito limitados para quem não tem um contrato ativo nos EUA. Esta limitação entende-se porque o sistema de saúde e os médicos em concreto são sujeitos a inúmeros processos judiciais tornando a prática clínica muito defensiva e obrigatoriamente protegida por um completo seguro profissional.

O que pensas da realidade da medicina e do sistema de saúde com que estás a contactar aí nos EUA?

A medicina que conheci aqui em Miami é o “state of the art” no que respeita a tratamentos de última geração e a recursos tecnológicos clínico-cirúrgicos. A nível hospitalar e ambulatório pratica-se uma medicina tão eficiente quanto defensiva. No entanto, os Estados Unidos são uma região demasiado vasta para individualizar uma simples opinião sobre a prática de medicina neste país. Refira-se por exemplo a área da MGF, em que nas grandes cidades os médicos de família encontram-se em clinicas ou em hospitais a exercer exclusivamente atividades altamente especializadas em contraste com os estados do interior em que a abrangência de competências do médico de família inclui desde apendicectomias, cesarianas, colonoscopias, etc.

Quanto ao sistema de saúde americano a expressão que melhor o descreve é “turned upside down”. Após o fascínio inicial dos primeiros dias com a dimensão das infraestruturas e recursos tecnológicos, vamos percebendo que na realidade, a população em geral não dispõe de um sistema de saúde de Cuidados de Saúde Primários minimamente comparável com o nosso. Os cidadãos são obrigados a ter um seguro de saúde que vão utilizando segundo o que entendem ser as suas necessidades e não de acordo com um plano de saúde protocolado e universalmente estabelecido no país. Esta realidade resulta numa disparidade social no acesso aos cuidados de saúde à qual nós, felizmente, não estamos habituados. O recente e tão proclamado plano Afordable Care Act mais conhecido por Obamacare é nada mais do que a intervenção do Governo na regulamentação da Saúde, tornando os cuidados de saúde mais universais e equitativos e neste sentido tendendo a assemelhar-se ao Sistema Nacional de Saúde português.

Da realidade que estás a vivenciar há algum aspeto que gostarias de ver replicado em Portugal?

De toda a tecnologia, recursos materiais e conhecimento médico que gostaria de levar comigo para Portugal, experienciei uma prática que vou tentar replicar com certeza. Apesar da agenda preenchida, os médicos reúnem-se semanalmente na casa do diretor de serviço para um encontro informal de “t-shirt, piza e cerveja” em que cada médico apresenta um artigo de interesse. No final da apresentação todos opinam sobre cada tema e faz-se um brainstorming sobre o que poderá melhorar a qualidade da prática clínica que exercem. É um evento tão social quanto científico e ao mesmo tempo que se fortalecem as relações humanas entre colegas em ambiente descontraído, faz-se uma pausa do quotidiano refletindo-se sobre as questões pertinentes ao serviço.

Um outro aspeto que tem tanto de cómodo quanto eficiente é que todos os registos e relatórios médicos são elaborados em computador por meio de reconhecimento de voz. Este método permite uma descrição mais detalhada e rápida da consulta e simultaneamente privilegia o tempo e interação humana médico-utente sem que se interponha o elemento “computador”.








Dra. Vera Barbosa @ Oxford

MGFamiliar ® - Sunday, June 21, 2015



Porque optaste ir trabalhar para Oxford?

Optei por Oxford pela qualidade da investigação e a aposta na educação médica no Reino Unido. Desde há algum tempo que me interesso por investigação. Oxford pareceu-me a opção mais interessante para progredir no meu treino médico porque oferece a possibilidade de trabalhar com excelentes clínicos que são também excelentes investigadores.

O ensino da prática clinica é baseado em casos práticos reais  e em evidence based medicine e existe oportunidade para médicos mais inexperientes participarem na elaboração de procedimentos, auditorias e serviços de melhoria de qualidade.

Há quanto tempo estás em Oxford e pensas ficar por quanto tempo?

Inicialmente, completei o meu curso de medicina pela Universidade de Southampton. No Reino Unido, depois de se terminar o curso, concorre-se ao Foundation Programme a nível nacional. O Foundation Programme são dois anos em que se passa por várias rotações clinicas e/ou académicas de forma a obter-se experiência nas varias especialidades de medicina para depois se optar por uma especialidade clínica.

De momento estou a concluir o meu último ano deste programa em Oxford e a fazer a rotação de General Practice.

Pretendo iniciar a Especialidade de Anestesia em Agosto onde regressarei ao Deanery the Wessex e onde estarei nos proximos três anos como Anestesista junior.

Quais os aspectos mais positivos desta tua experiência?

A possibilidade de experimentar varias especialidades médicas permite obter experiência em outras áreas da medicina e obter mais conhecimentos que serão uteis em qualquer especialidade. Permite também desenvolver a prática clinica.

Oxford foi uma excelente oportunidade em particular, porque permitiu trabalhar com equipas clínicas com uma vertente de investigação muito forte. Tive a oportunidade de trabalhar com vários médicos de renome, nomeadamente em cirurgia, e aprender muito com eles. As aulas, que decorrem paralelamente à prática clinica, foram muitas vezes dadas por especialistas nas diferentes áreas a serem lecionadas.

Em General Practice tem sido enriquecedor aprender como é feito o financiamento do NHS, para além de perceber a interligação entre os cuidados primários e secundários.

E negativos?

A parte mais negativa ao fazer estas rotações é que se muda frequentemente de equipa e de hospital. Esta constante necessidade de adaptação a novas equipas torna-se, por vezes, cansativa, assim como a necessidade frequente de se mudar de casa.

Até ao momento, a minha experiência em General Practice permitiu-me observar que, para além da prática clínica, os médicos de família precisam de gerir os fundos monetários, já que são eles que financiam os cuidados secundários prestados aos seus doentes. Existe muitas vezes uma necessidade em repensar os casos clínicos para perceber se realmente justificam ser referenciados para cuidados de especialistas ou se podem ser geridos na comunidade. Isto gera muita pressão sobre os médicos de família que precisam de justificar todos os exames e cuidados fora da comunidade. Muitas vezes, existe um conflito de interesses entre o que o doente gostaria de fazer e o que realmente se justifica em termos clínicos.



O que pensas do Sistema de Saúde inglês?

Não existe nenhum sistema perfeito e o National Health System tem os seus pontos menos fortes. No entanto, a sua estrutura e princípios são um exemplo a seguir.

Acho que consegue aliar boa prática clínica com frequentes auditorias para melhoramento de serviços e a prática de “evidence based medicine”.

Actualmente, está a atravessar uma fase de mudança devido ao aumento dos cuidados médicos para uma população mais envelhecida, sedentária e com problemas crónicos.

Mas muito se tem feito para melhorar a saúde da população em geral e na responsabilização dos doentes pela sua própria saúde.

Da realidade que estás a vivenciar em Oxford o que gostarias de ver replicado em Portugal?

A investigação e auditorias são prática comum em medicina e penso que em Portugal estas vertentes deveriam de ser também práticas comuns. O tempo dedicado à realização de auditorias que tem como objectivo melhorar a prática clinica. Todos os médicos têm de fazer estes projectos, o que obriga a uma constante actualização de conhecimentos clínicos.

Acho que o Reino Unido é, sem dúvida, um exemplo a seguir na maneira como concilia investigação e prática clinica.





Dr. David Brito @ Zurique

MGFamiliar ® - Sunday, April 26, 2015

 

 

Quando participaste no Programa Hippokrates?

O estágio decorreu entre 6 e 19 de Outubro de 2013, tendo em conta os dias de receção e partida.

Quanto tempo estiveste no estágio?

A duração foi de duas semanas, como está padronizado. Parece-me uma duração bastante adequada ao tipo de experiência dado que inclui pelo menos um fim-de-semana, que pode sempre ser um período de descoberta, na área médica ou não.

O que te levou a optar por ir para a Suíça?

Optei pela Suíça pelo interesse no sistema de saúde tão distinto do português, pelo desafio e experiência cultural, pela qualidade expectável da experiência e pela possibilidade de rever familiares.

Em que cidade estiveste?

O programa foi acordado após disponibilização de um médico com prática em Zurique. Zurique é a capital financeira da Suíça, mas um local com muita personalidade e reveladora do carisma e particularidades Suíças. Não deixa de ser apenas uma faceta do incrível mosaico de ideias, culturas e línguas que caracteriza o país, bastante distinta de outro locais que conheci no país.

O que te surpreendeu mais no estágio?

É evidente que a experiência é por si só uma surpresa, pois esse é o seu objetivo: conhecer uma realidade diferente relativamente à prática da Medicina Geral e Familiar.

A esse nível, o dos Cuidados de Saúde, não posso deixar de destacar as relações e organização. E refiro-me a vários tipos: as relações institucionais governamentais, as relações das instituições da comunidade, as relações interdisciplinares médicas, e principalmente a relação médico-doente.

Na realidade o mosaico também existe no que diz respeito à forma descentralizada como os cuidados se organizam. A responsabilidade centra-se em cada cantão (dos 26 existentes) que, apesar de integrar a rede organizada e gerida pelo governo federal, tem uma autonomia substancial para definir políticas de saúde. Determinados assuntos, sobretudo relativos a assistência social a desfavorecidos ou cuidados domiciliários, são ainda definidos a nível municipal.

A nível da comunidade verifica-se que a própria natureza do sistema de saúde, baseado em seguros obrigatórios e regulamentados e em clínicas privadas, dita necessidades específicas. Observa-se uma oferta de cuidados muito distintos, da medicina ocidental a terapias e terapêuticas alternativas, com uma interessante colaboração entre elas, ambas cobertas pelos planos de seguros, e aparentemente contribuindo para a satisfação (e saúde?) dos utentes.

A prática médica difere entre o meio rural e urbano. Globalmente centra-se nos cuidados oferecidos pelos Médicos de Família (de acordo com as suas preferências e treino) e pela própria unidade de saúde (exames complementares, serviços específicos, etc.), variando de clínica para clínica. O seu bom funcionamento decorre das boas relações (bilateralmente cuidadas) entre o Médico de Família e laboratórios ou clínicas de outras especialidades, que dependem entre si para obterem sucesso. Distintamente da relação por vezes pouco colaborativa entre diferentes níveis de cuidados, que se observa em Portugal. Para o fazer utilizam um eficaz sistema de comunicação por fax e estafetas (ex: amostras para análise), que retira a burocracia e processos de diagnóstico das mãos dos doentes, poupando inconvenientes e perdas de informação.

Por fim, a gestão do ficheiro e prestação de cuidados centrada nas competências e disponibilidade dos próprios profissionais, possibilita uma importante satisfação laboral e pessoal. Esse facto permite que o próprio médico defina o número de doentes que considera possível cuidar com qualidade, e consequentemente uma gestão flexível da agenda e do tempo de consulta. O tempo dedicado ao doente, apesar de variável (e tarifado de acordo), torna possível uma excelente relação de cuidados, sem as interferências indesejadas da pressão da agenda, e provavelmente com impacto nos resultados em saúde.

Outros aspetos surpreendentes existiram: a multiculturalidade e os desafios que coloca, os hábitos e costumes particulares, aspetos da prática clínica (técnicas terapêuticas, orientações e circuitos delimitados pelas seguradoras), entre outros, que dariam pano para mangas.

O sistema de saúde suíço pode ser um modelo para Portugal? Porquê?

Parece-me que retirar de um sistema de cuidados de saúde o modelo ideal, de entre vários que constituem a realidade Europeia, está longe de ser realista ou fácil. Essa variedade de sistemas reflete aliás diferentes necessidades e limites para esses cuidados.

Poderia salientar algumas das vantagens previamente expostas, ou a qualidade e satisfação gerada globalmente pelo sistema Suíço. Mas não sem pensar noutros aspetos negativos como os custos globais (3º sistema de saúde mais caro do mundo, seguindo a Alemanha e os EUA), as deficiências na organização da rede de cuidados (ex: rastreios populacionais organizados, cuidados primários pediátricos e obstétricos, etc. ), nos cuidados primários preventivos (ex: cuidados programados e multidisciplinares), ou na abordagem dirigida da família, entre outras.

Por outro lado, comparamo-nos frequentemente com aqueles que têm cuidados de saúde primários com aspetos piores do que o sistema português, para justificar as limitações que nos são colocadas paulatinamente. Parece-me também justo que se possa refletir nos aspetos que estarão na origem da grande satisfação e qualidade de cuidados observados nesse ou noutros países. Essa reflexão deixou-me algumas questões, partindo da experiência Suíça:

Onde estará o limite para o aumento exponencial das listas de utentes, e consequentemente para a industrialização e evolução taylorista e burocrata da consulta? Como permitir espaço para as opções profissionais individuais e oportunidades formativas ou académicas de forma equilibrada?  Poderá existir uma flexibilização das agendas e sistemas informáticos para que se adequem aos cuidados e exigências da população? Deveremos adotar sistemas mais justos e equilibrados de tarifação e pagamento de cuidados? Poderemos dotar os cuidados primários de recursos materiais (farmácia alargada, exames de diagnóstico primário, instrumentos calibrados e de qualidade, etc.) e humanos (profissionais com treino diversificado e de qualidade reconhecida, agenda e remuneração proporcionada, organização descentralizada e multidisciplinar) que permita a melhoria dos cuidados a esse nível? Como será possível uma maior mobilização em prol de resultados centrados na qualidade e satisfação? Poderemos evoluir sem abdicar dos aspetos positivos do sistema existente?...

A verdade é que os sistemas se encontram em mutação, e que existe experiência suficiente (em Portugal, na Europa e no Mundo) para se poderem obter as melhores soluções para os cuidados de saúde primários. Este estágio realçou aquele que deve ser, na minha opinião, o principal aspeto do sistema de cuidados a adotar, ter a pessoa e o doente no centro dos seus objetivos.

Quais os conselhos práticos que pode dar a um colega português que queira estagiar na Suíça?

Qualquer estágio está dependente dos orientadores de formação, e reconheço que esse aspeto foi fundamental no estágio que pude realizar na Suíça.  Num país multicultural como é a Suíça a língua poderá ser um fator determinante, embora seja frequente a existência de profissionais que comunicam em espanhol, inglês, além das 3 línguas oficiais do país, e também português, como no caso do médico que me acolheu. Deverá portanto ser um fator a considerar na submissão do pedido.

Globalmente é um estágio dispendioso, face ao nível de rendimentos do país, quando comparado com outros locais. O alojamento constituirá provavelmente a grande maioria dos gastos em estágio pelo que a avaliação das condições, preços e métodos de reserva/pagamento são importantes. A excelente rede de transportes Suíça é uma importante mais-valia, pelo que a localização poderá não ser decisiva.

As experiências de Hippokrates na Suíça têm sido muito diferentes entre participantes e as realidades muito variáveis entre locais. Penso que seria possível conciliar um período de prática urbana e rural, o que daria uma perspetiva muito interessante e mais representativa dos cuidados de saúde.

Na experiência prática sugiro que seja tão diversificada quanto possível desde que o orientador o facilite (várias unidades/clínicas/médicos, diferentes instituições: universidade, laboratórios, lares de terceira idade, etc.), dada a variabilidade entre locais.

Por fim, comer fondue.. só uma vez! ;) Bons Hippokrates!

Entrevista conduzida por Luís Monteiro