MaisOpinião - Vânia Machado

A estranha forma de vida dos cybermiúdos

MGFamiliar ® - Wednesday, July 29, 2015




Na reportagem efetuada pelo jornalista Paulo Moura, à minha filha Sofia, a principal visada desta interessante perspetiva psicossocial de como os adolescentes lidam com a aldeia global, e um pequeno apontamento da minha experiência como mãe, tendo obviamente por base a minha visão como pediatra.

Segundo as palavras de Paulo Moura, a geração da net está sem rede, os adolescentes  estão dentro da Internet todo o tempo, não distinguem o real do virtual (...) uma geração totalmente digital será particularmente vulnerável.

Subscrevo em pleno o seu texto, uma concisa, realista e aterradora panorâmica de como agem e pensam os adolescentes, nossos filhos, ou se os vossos ainda forem crianças, em breve também irão integrar esta «terceira guerra mundial» ( palavras de um adolescente de 14 anos entrevistado).

Embora continue a considerar que a interação virtual pode ter os seus aspetos positivos... Sem ela não teria entrado em contato com o Paulo e disponibilizado a minha filha para participar nesta entrevista, que me parece da maior importância para acordar os pais para a realidade.

Podemos também partilhar ideias, arte, e todo o género de cultura. Mas estou a falar como adulta ( e mesmo entre os crescidos existe quem utilize as redes sociais para insultos entre outros atos mesquinhos).

Em conversa informal com o Paulo, mas sempre com elevado grau de profissionalismo, a Sofia tagarelou alegremente sobre como utilizava a internet, sublinhou a importância que podem ter sites que utilizam os programas curriculares para complemento do estudo (que segundo ela deviam ser gratuitos), de como tinha acesso ao wi-fi na escola, e da visita à escola de Inspetores da PJ no âmbito do programa « Miúdos seguros na net», cuja data se assinalou em fevereiro, com uma palestra didática em relação aos perigos a que estavam expostos.

Pois...Mas a Sofia tem apenas 12 anos, a fase de adolescência precoce onde os pais ainda exercem bastante influência. Depois tornam-se cada vez mais rebeldes, e o seu caldo hormonal desperta-lhes a ânsia de pisar o risco e de o ultrapassar.

Lendo a reportagem, rapidamente compreendemos que os nosso filhos estão fragilmente expostos ao mundo dentro de casa a qualquer hora. E que vibram com o poder de se transformarem em hackers, ou pelo contrário serão potenciais vítimas de pedófilos ou outras pessoas de má índole... Há uma adolescente que diz mesmo que a Net é preferível à realidade. E depois as palavras assustadoras como cyberbullying, sexting e desafios entre adolescentes para aumento da autoestima.

(Há cerca de uma semana, adolescentes de outros países se auto mutilaram como forma de demonstrar o desgosto pelo abandono de um dos elementos dos One Direction, e colocavam as fotos dos cortes on-line!)

Não podemos ficar alheios ao futuro dos nossos filhos. Embora julgasse poder controlar de certa forma o mundo virtual da minha filha, entendi, ao aprofundar o estudo sobre este tema, que isso é impossível. Aliás a maioria dos adolescentes já nem utiliza o FB, mas outras formas de comunicar com nomes exóticos.

Voltando a citar o Paulo Moura, «todos os nossos gestos digitais deixam uma pegada».

Não quero deixar uma mensagem de desânimo, muito pelo contrário.

Na minha opinião, é fundamental um diálogo de base desde o início da vinculação parental, com inputs adequados às fases de desenvolvimento, desde a infância até à adolescência, para que o software das suas ligações neuronais se recheie de sinapses mergulhadas em valores e afeto. Um estar presente, não em tempo de qualidade ou quantidade, mas quando pressentimos que eles querem falar. O que só é possível preparando o terreno ao logo dos anos, para que germine e dê frutos o desejado canal de comunicação com os nossos filhos.

A influência de pares, e os azares do destino não estão ao nosso alcance. Mas a vida é mesmo assim...

Vânia Mesquita Machado





Vírus Ébola: Uma questão de sensibilidade e bom senso…

MGFamiliar ® - Friday, December 26, 2014

 

O «salve-se quem puder» social é um ato tão selvagem como são os chimpanzés africanos; o olhar cego da humanidade perante a intervenção global em questões de saúde pública é igual ao de morcegos que esvoaçam em pleno dia; cito estes mamíferos para evocar as principais fontes de início de um novo ciclo epidémico do vírus Ébola no continente africano, vírus habituado a circular à paisana entre estes animais, quieto e calado, tornando-se agressivo quando lhe dá vontade, e que por motivos desconhecidos voltou a eclodir entre outros mamíferos, os humanos.

Quando a propagação se iniciou nesta primavera, o fio-de-prumo de preocupação por parte dos países ocidentais nivelava-se a par de outras tragédias do terceiro mundo, como a fome e a SIDA: no terreno as ONG, os missionários bons samaritanos do costume; em casa no sofá a compaixão por breves segundos, enquanto as imagens televisivas de cadáveres de seres humanos caídos como tordos vítimas de Ébola desfilavam alinhadas nos blocos noticiários entre as primárias do PS e as inconstitucionalidades governamentais. Noutros países, com outras preocupações políticas de umbigo, a forma de lidar com estes dissabores longínquos era equivalente.

O planeta é uma aldeia global, e por isso, algum dia a ponte aérea intercontinental inevitavelmente transportaria o vírus em boleia clandestina, hospedado num qualquer hospedeiro infetado; e essa cadeia de transmissão não se consegue mais travar.

A infeção expressa em americanos e europeus, despertou as consciências dos líderes mundiais para a gravidade do problema, acionando-se prontamente os planos de contingência, ativadas as comissões de vigilância, emitidas as circulares normativas.

Procedimentos inquestionáveis, objetivando salvaguardar a segurança dos cidadãos e conter a propagação da epidemia.

Timing inquestionavelmente desfasado. Com um célere e massivo investimento financeiro em terapia farmacológica e vacinal talvez já existisse uma solução eficaz para debelar o vírus.

O controlo da epidemia exige isolamento dos doentes, esterilização e equipamento de proteção; em África, continente de águas inquinadas, hospitais de campanha e onde tudo escasseia, a maior sensibilidade do resto do globo e o apoio concreto com medidas higiénico-sanitárias teria contribuído para a estancar em tempo útil.

A doença por vírus Ébola manifesta-se primeiro com sintomas sobreponíveis aos de uma gripe: febre elevada, dores musculares, de cabeça, de garganta.

Depois, o sangue jorra em chafariz por qualquer orifício e esvai os seres humanos; o vírus, ao melhor estilo de jogo de consola, abate ferozmente o sistema imunitário em rajada de metralhadora, e se as defesas se descontrolarem, num corpo debilitado e desidratado, avança veloz e mata por choque hemorrágico. Parece assustador.

Mas não se trata de um jogo de consola. Pois não, e qualquer cidadão adulto e responsável tem obrigação de entender que apesar de a vida não ser um jogo, as leis da sorte e do azar se atravessam constantemente à sua frente e não é por isso que vai deixar de viver, pelo que de nada adianta o medo desproporcionado de contaminação.

A pandemia é improvável pois a transmissão não se faz por gotículas, mas através de líquidos orgânicos. Provavelmente e como ocorreu noutros ciclos epidémicos, a epidemia irá amainar dentro de alguns meses.

O risco para o nosso país é considerado baixo, à semelhança dos outros países europeus.

O que não significa que não surjam doentes. O que não implica a ativação do botão de pânico, mas sim o uso de bom senso por parte de todos.

O que vivemos durante o surto epidémico de gripe A deveria servir de exemplo: a aprendizagem com os próprios erros é uma prova de inteligência. Felizmente o cenário catastrófico de mortalidade não se verificou, mas geraram-se atitudes de alarmismo descalibrado nos meios de comunicação social, no comportamento da sociedade e no modo de agir das entidades responsáveis pela saúde.

Não foi pela utilização desmesurada de álcool-gel que o vírus perdeu virulência.

Muitas das medidas de isolamento dos doentes suspeitos eram aplicadas com critérios clínicos que se sobrepunham a uma infinidade de patologias, e não era logisticamente possível isolá-los, dadas as condições dos serviços de urgência dos hospitais da altura, (e que não mudaram). Assistiam-se a situações que versavam o ridículo: quando um doente era considerado como possível portador de gripe A, os enfermeiros e os médicos vestiam os fatos protetores e retiravam o doente da sala de espera cheia.

Essa situação já ocorreu há poucos dias com um suspeito infetado com Ébola não confirmado, que esteve durante horas triado com cor amarela (gravidade média), a aguardar pacientemente a sua vez junto com outros doentes; felizmente que este vírus não é tão contagioso como o da gripe.

Urge o bom senso por parte da comunicação social, elemento chave para tranquilizar a sociedade, evitando notícias sensacionalistas que já começam a vir ao lume: insinuar que não irão ser acionadas medidas para evitar a propagação em peregrinações como a de 13 de outubro a Fátima (como seria possível em aglomerados populacionais?), plantar jornalistas à porta dos hospitais sempre que surgir um caso suspeito (traduzindo: um doente oriundo de um país com vírus circulante, há menos de 21 dias (período máximo de incubação), e com sintomas (como febre): com a gripe à porta, vão precisar de reforçar a equipa de jornalistas no terreno. 

Urge o bom senso por parte das entidades responsáveis pela saúde, investindo mais na informação dos cidadãos, e na organização de circuitos eficazes de circulação dos doentes, não se focando apenas nos hospitais que em última linha irão tratar dos doentes, mas reforçando a vigilância a nível dos cuidados de saúde primários, onde a maioria dos doentes poderão vir a ser sinalizados. É de bom senso também evitar a tentativa de implantação de medidas de biossegurança impraticáveis e fictícias, tendo em conta a realidade física dos serviços de urgência e a chegada muito em breve da época sazonal de gripe.

 Urge o bom senso por parte de todos os cidadãos, que devem estar bem informados e agir com normalidade, isto é, lavando bem as mãos com frequência (que não é uma medida de higiene invulgar), mantendo uma alimentação saudável (um forte sistema imunitário é essencial para combater qualquer doença infeciosa) e evitando a deslocação aos serviços de urgência sem motivo (medida de muito bom senso, sempre).

Uma palavra relativamente a crianças mais sensíveis, que como Pediatra já começo a observar nas consultas, assustadas com o vírus, tal como já vi noutras situações empoladas na comunicação social.

Em suma, sensibilidade humana e bom senso em comunidade, nunca serão em excesso.

Vânia Mesquita Machado 

O primeiro post

MGFamiliar ® - Saturday, October 11, 2014



 

Sou atualmente Pediatra, mãe de três filhos, e dou primazia na minha profissão ao contato mais profundo com as pessoas, dentro das limitações que todos nós conhecemos. Sou apaixonada pela arte do ambulatório e pela arte da escrita. E saber viver é também uma arte.

Foi com muita honra que aceitei o convite do Dr. Carlos Martins para dar o meu contributo no portal de MGFamiliar.

Em jeito de introdução dos meus pensamentos, partilho convosco algumas ideias que transmiti na apresentação do meu primeiro livro:

A vida corre sem darmos conta, sem querer e sem saber somos adultos, enchemos os dias de escolhas, umas mais acertadas do que outras, e o destino o azar ou a sorte encarrega-se dos imprevistos; uns são bons e outros não.

Tudo isso nos marca indelevelmente, mais ou menos, conforme a nossa sensibilidade e as situações concretas.

Consoante a personalidade de cada um, os seres humanos apercebem-se ou não que as vivências acumuladas vão construindo o que são como pessoas; umas são visíveis ao ego, e outras permanecem guardadas em locais de acesso restrito, algumas mesmo de entrada proibida.

Com a maturidade, pode chegar a vontade de parar e fazer balanços.

Muitas vezes, essa capacidade de análise que a idade nos confere é insuficiente, precisamos de uma forte tempestade ou de uma queda desamparada para perceber a necessidade das pausas para compreender se é esse o caminho e apreciar as coisas em vez de seguir em excesso de velocidade pelas rotinas 24 sobre 24 horas, escutar o nosso interior e entender se somos felizes, melhorando então a qualidade de vida emocional.

É inegável que atravessamos um ciclo conturbado no país, um clima de pessimismo que nos contagia e gera um estado de pânico coletivo. Mais grave do que isso na minha opinião é o ritmo frenético com que somos bombardeados com informações, e o excessivo materialismo e consumismo que nos cria necessidades ilusórias na civilização ocidental em que nos inserimos, frustrando-nos por não conseguimos obter tudo o que julgamos querer. Sem darmos conta ficamos enredados nessa teia, aglutinados nesse estilo de vida, o que facilita a rotura psicológica e a entrada no pesadelo da tristeza infinita.

Quando me apercebi que a trovoada era forte, a chuva de pingas grossas me encharcava, e escorreguei no chão molhado, refugiei-me na escrita. Não consegui parar, foram dias e noites seguidas, nos tempos livres, mais noites que dias, uma vontade irreprimível de me entender, baseando-me não só no que vivi e no que vi, mas também inspirada numa criatividade ininterrupta de geração espontânea. Quando dei conta tinha escrito o Microcosmos Humano, em cerca de dois meses.

O meu livro retrata uma figura feminina, mas é uma personagem universal e qualquer um dos leitores do livro se pode identificar com ela, quando se decidir a ter tempo para si próprio, para refletir no sentido dos anos que viveu e no rumo que quer dar aos capítulos que ainda quer viver, dentro das limitadas possibilidades do seu livre arbítrio...

Surgiu em mim a Lídia, uma mulher forte, que se julgava inquebrável. Um dia, resolveu aceitar a sua vulnerabilidade e sentou-se no divã, numa espécie de introspeção.

Reconheceu as feridas escondidas, de algumas grandes ou de muitas pequenas coisas más. Era o passo mais importante para se conseguir levantar e se abrigar da tempestade. Estava num estado permanente de alerta e vivia sem viver, olhos e ouvidos que apenas eram utilizados sensorialmente, circuito pelos dias em piloto automático.

Aos poucos, a Lídia permitiu a si mesma uma fluência psíquica, analisou os motivos.

A profissão de Pediatra seria um deles, curiosamente, apesar de a abraçar com carinho e adorar tratar e cuidar das crianças, mas sua excessiva sensibilidade, em parte intrínseca ao seu caráter, em parte por ter 3 filhos, e o cansaço acumulado, levava a que as imagens de sofrimento infantil extremo e em situações limite se colassem na retina, fazendo-a também sofrer.

Esse era um dos motivos, mas havia outros, da sua intimidade lunar, que não importava expor mas importava sim assimilar.

E enquanto aceitava essas vulnerabilidades, estas iam perdendo força e ela fortalecia-se.

E os olhos começaram a ver, os ouvidos a escutar, numa espécie de epifania que era aquela viagem no divã. Percebeu que a vida valia a pena ser vivida, e não apenas percorrida.

Que apesar de a felicidade extrema ser impossível dada a natureza humana não tolerar o excesso de descarga de neurotransmissores, os altos e baixos faziam a vida saber melhor, e a felicidade dependia, não só das óbvias grandes coisas boas, mas da reserva das pequenas coisas boas que importava descobrir. E que estavam espalhadas por todo o lado.

E o seu espírito abriu-se para o exterior, para além do seu microcosmos familiar, das alegrias que lhe davam os seus filhos, e viu as pessoas que a rodeavam, entendendo que entre as pessoas muito boas e muito más, que eram as exceções, existiam as pessoas simples, como ela própria, e que partilhando com elas experiências e pequenos gestos, estes se transformariam em ondas de energia positiva, gerando uma sucessiva queda de peças de dominó interminável, a solidariedade entre seres humanos, nos seus microcosmos.

Era isso a essência do humanismo. Uma utopia, talvez, mas a vida era feita de sonhos, e não apenas de rotinas.

A felicidade era um estado de plenitude interior em harmonia com a vida.

E era fundamental reconhecer os sinais de alerta para a possibilidade da queda livre na tristeza infinita, mantendo acesa a força de vontade e o instinto de sobrevivência mental, numa permanente e contínua atenção às pequenas coisas boas.

É consensual a certeza que um dia todos vamos partir.

Aceitar a extrema fragilidade da nossa natureza, aprendendo a viver e a lidar também com essa certeza, e olhar os outros e a nós próprios como seres humanos que somos, só nos pode levar a aproveitar o momento presente, sempre, e a acreditar que vale a pena ter esperança em tentarmos construir uma vida melhor para nós e para os outros.

Vânia Mesquita Machado