Cuide de si, nós ajudamos

Carlos Martins - Wednesday, June 12, 2019

No âmbito do Dia Mundial do Médico de Família, celebrado a 19 de maio de 2019, os médicos internos de Medicina Geral e Familiar da Unidade de Saúde Ilha de São Miguel (USISM), em parceria com a ARTAC, a Ventoencanado Produções e a RTP-Açores, desenvolveram uma campanha de sensibilização para a saúde, inspirada no conceito "Cuide de si, nós ajudamos". Esta campanha composta por 4 filmes publicitários, pretende sensibilizar os utentes do Serviço Nacional de Saúde para a importância do papel do Médico de Família e também para os comportamentos de cada um em relação à sua saúde.

Da parte do portal MGFamiliar queremos louvar esta excelente iniciativa e destacar a excecional qualidade do produto final. E também o nosso MUITO OBRIGADO por terem partilhado estes filmes connosco.


Filme 1 - “Quem é o seu médico de família?
Um conjunto de médicos especialistas em Medicina Geral e Familiar procura responder à questão "Quem é o seu médico de família?", como se falassem diretamente ao seu utente na consulta.


Filme 2 - “O marido da Lúcia”
O marido de Lúcia é diabético, sofre de inúmeras complicações, consequentes do estadio avançado e não controlado desta doença. A Lúcia explica alguns dos descuidos do marido ao longo dos anos (erros alimentares, má adesão terapêutica, incumprimento das vigilâncias médicas) e expõe as complicações da doença. 


Filme 3 - “Os pais da Inês”
Inês é filha de pais hipertensos. Confidencia os descuidos mais frequentes dos seus pais, como o abuso do sal e da "pimenta da terra", sedentarismo, incumprimento terapêutico e ausência da vigilância. Explica que, por estes motivos, o pai se encontra internado por uma complicação da hipertensão mal controlada. Termina, alertando para a importância da vigilância da pressão arterial e, novamente, para a necessidade de responsabilização dos seus pais. 


Filme 4 - “O avô do João”
O avô do João é polimedicado, devido às suas doenças crónicas. Em jeito de desabafo, o João transmite algumas expressões características ouvidas pelos médicos quando os utentes não trazem a listagem da medicação habitual à consulta. Este filme pretende apelar para a importância de o utente conhecer a sua medicação habitual e conseguir comunicá-la ao seu Médico de Família. 




Mestrado em Cuidados de Saúde Primários

Carlos Martins - Monday, April 22, 2019

Não foi fácil o caminho que nos trouxe até à concretização deste Programa de Mestrado em Cuidados de Saúde Primários. Desde décadas de uma cultura de formação médica claramente centrada na medicina hospitalar, até às exigências burocráticas impostas por lei e regulamentos para se poder ver um Programa de Mestrado (2º Ciclo de Estudos) aprovado, tudo foram obstáculos que foram sendo ultrapassados. Passo a passo. Desde o sonho à sua concretização, decorreram anos, mas valeu a pena!

Este é um passo importante para a afirmação da Medicina Geral e Familiar e dos Cuidados de Saúde Primários na academia nacional. Este é o primeiro Mestrado de Cuidados de Saúde Primários em Portugal.

Neste momento importante, quero publicamente agradecer ao Sr. Prof. Dr. Rui Nunes todo o apoio dado, desde a primeira hora, para a concretização deste Programa de Mestrado.


As inscrições já estão abertas, existem apenas 30 vagas!
Pode consultar aqui a respetiva publicação em Diário da República.
Pode consultar aqui a estrutura curricular. Pode candidatar-se aqui.





Congresso Português de Cardiologia para todos

Carlos Martins - Thursday, February 28, 2019



Caros colegas,

Fruto de uma parceria entre o MGFamiliar® e a Sociedade Portuguesa de Cardiologia, que já vai no seu terceiro ano, e também como membro do Conselho Científico do Congresso Português de Cardiologia (CPC), é com gosto que partilho notícias da edição de 2019 deste congresso.
O Congresso Português de Cardiologia é o maior evento científico nacional na área da Medicina Cardiovascular. Inovação, dinamismo e interação entre todos os participantes são algumas das suas características principais. Este ano, o CPC 2019 decorrerá nos dias 27 a 28 Abril, em Vilamoura.

A organização pretende que este seja um evento de todos e para todos. Nesse sentido, criou-se uma linha de formação autónoma, especialmente dedicada aos colegas de MGF e outras especialidades, o CICLO DE ATUALIZAÇÃO EM CARDIOLOGIA. Este ciclo contará com sessões centradas na prática do dia-a-dia, baseadas em casos clínicos e interativas com sistema de televoter para os colegas presentes em sala. O programa completo pode ser consultado aqui.


Informação relevante
Para os colegas com dificuldade em obter financiamento para a inscrição e/ou alojamento, desenvolveu-se um programa especial: o CPC4ALL. Através do CPC4ALL, podem ter acesso a todas as sessões do congresso e alojamento incluído, por apenas 100 euros para os três dias de duração do evento. Mais informação e inscrições em: https://www.cpcardio.pt/cpc4all2019 

Esperemos que se possam juntar a nós em Vilamoura. 







Novas guidelines para tratamento das dislipidemias

Carlos Martins - Saturday, February 16, 2019




O American College of Cardiology e a American Heart Association acabam de publicar uma atualização das suas guidelines de abordagem das dislipidemias. Estas novas guidelines propõem uma mudança significativa do paradigma de gestão do tratamento das dislipidemias e estão a gerar alguma controvérsia. À semelhança do que aconteceu com as guidelines para a abordagem da hipertensão arterial destas mesmas entidades, também aqui nenhuma sociedade científica da área dos cuidados de saúde primários como, por exemplo, a American Academy of Family Physicians, subscreveu estas guidelines. Este facto já revela bem a controvérsia gerada por estas guidelines.

De forma muito resumida, podemos dizer que estas guidelines propõem uma abordagem bastante mais complexa para o tratamento das dislipidemias do que a edição anterior, que datava de 2013, e vão, muito provavelmente, contribuir para um aumento da prescrição de estatinas, ezetimibe e inibidores PSK9.  


Download PDF














A agenda dos nossos webinars

Carlos Martins - Thursday, February 14, 2019





Muitos colegas têm-nos falado sobre o quão útil seria dispor de uma agenda para visualizar todos os eventos e webinars que organizamos. 

A partir de agora, disponibilizamos esta funcionalidade em três plataformas:
   a) Na mobile app MGFamiliar (na secção de eventos).
   b) Na secção de eventos da página do MGFamiliar no Facebook
   c) E agora, nesta prática Google agenda...

Mesmo assim, mantenham-se atentos à nossa newsletter, pois é o nosso canal preferencial para anúncio de "grandes novidades" :)  

Nota importante: se desejarem adicionar este calendário à vossa agenda Google pessoal, basta clicar na imagem   que surge no canto inferior direito da agenda.    









A ciência de um calorímetro

Carlos Martins - Monday, December 17, 2018







Já sabemos que a edição especial de Natal do BMJ nos costuma surpreender com alguns artigos diferentes do habitual. Contudo, desta vez, destaco um vídeo e não um artigo. Trata-se de um vídeo disponibilizado pelo BMJ a respeito de dois artigos da edição especial de Natal deste ano. Imaginem que queremos saber quantas calorias existem num típico jantar de Natal. Como calcular essas calorias? Bem sei que já estão a pensar em consultar uma tabela de calorias, pesar cada componente alimentar do jantar de Natal e depois somar o correspondente valor calórico. Pois, mas há um caminho alternativo. Poderíamos usar um "calorímetro", uma máquina que nos calcula as calorias e até a composição do jantar de Natal. Vejam neste vídeo como funciona :) :) :) 







E, então, se quiserem, consultem também os artigos relacionados com o vídeo... Num deles, foram determinar o valor calórico das refeições nas principais cadeias de restaurantes do Reino Unido. Comparem o valor calórico dos restaurantes fast food com os outros... No outro, avaliaram o valor calórico de refeições em restaurantes de diferentes países. 


Feliz Natal 2018 ;) 







Atualizações de recomendações da USPSTF

Carlos Martins - Sunday, July 22, 2018


 


A United States Preventive Services Task Force (USPSTF) efetuou recentemente a atualização as seguintes três recomendações:

Cardiovascular Disease, Risk Assessment With Nontraditional Risk Factors, 2018

A USPSTF concluiu que a evidência científica atualmente disponível é insuficiente para avaliar o balanço entre benefícios e danos provenientes do uso adicional do índice tornozelo-braço, nível de proteína C reativa de alta sensibilidade ou o score de cálcio coronário, aos fatores de risco tradicionalmente usados na avaliação do risco cardiovascular em adultos assintomáticos para prevenir eventos de doença cardio e cerebrovascular. Recomendação grau I.

Peripheral Artery Disease and Cardiovascular Disease Risk Assessment With the Ankle-Brachial Index, Screening, 2018

A USPSTF concluiu que a evidência científica atualmente disponível é insuficiente para avaliar o balanço entre benefícios e danos do rastreio de doença arterial periférica e avaliação do risco de doença cardiovascular com o índice tornozelo-braço (ver vídeo no final deste post) em adultos assintomáticos. Recomendação grau I.

Osteoporosis to Prevent Fractures, Screening, 2018

A USPSTF recomenda o rastreio da osteoporose por densitometria para prevenir fraturas osteoporóticas em mulheres na pós-menopausa com menos de 65 anos desde que apresentem risco aumentado de osteoporose após a aplicação de um instrumento de avaliação de risco de osteoporose (p. ex. FRAX). Recomendação grau B.

Estas revisões são interessantes e devem merecer a nossa reflexão, quer dos colegas de Medicina Geral e Familiar, quer de outras especialidades envolvidas como, por exemplo, Cardiologia, Medicina Interna, Reumatologia, entre outras.

É também de destacar a importância que é dada à avaliação entre os benefícios e os danos para cada intervenção preventiva. Por vezes, com o ímpeto de avaliar o risco, com o ímpeto de rastrear, não se pára para pensar nos potenciais danos de determinada intervenção. Por exemplo, quando o score de cálcio coronário se tornou popular, a quantos pacientes assintomáticos não foi comunicado que tinham umas artérias idênticas às pessoas com uma idade muito superior?! Com isso, quanta preocupação, quanto sofrimento psicológico infligido desnecessariamente, sem consequências práticas, sem impacto na redução da morbi-mortalidade cardiovascular.

A importância do lado B” na prevenção foi um dos motivos que levou o EUROPREV a escolher para “main theme” do II European Forum on Prevention and Primary Care  o tópico “Medical prevention: the balance of benefits and harms. Quando falamos de rastreios de adultos assintomáticos, estamos a falar de uma intervenção preventiva em pessoas que se sentem bem. Estas intervenções podem quase sempre acarretar algum dano pelo que é fundamental ter prova científica de que os benefícios superam os eventuais danos para que essas intervenções sejam recomendadas.  Fica o convite a todos os colegas para que compareçam neste congresso que, acreditamos, tem um programa científico pertinente e relevante para a nossa prática clínica. Podem consultar o programa aqui...











Homeopatia, um mal que não vem só

Carlos Martins - Sunday, April 22, 2018





Ben Goldacre é um médico psiquiatra, inglês, investigador, autor de vários livros e de várias TED Talks sobre temas como ciência, medicina baseada na evidência, pseudociência e homeopatia. No passado dia 18, foi publicado um artigo muito pertinente escrito por Ben Goldacre e a sua equipa de investigadores. Trata-se de um estudo transversal, em que se tenta responder à seguinte questão: “Está a prescrição de tratamentos homeopáticos nos Cuidados de Saúde Primários ingleses associada à má qualidade de prescrição terapêutica? Por outras palavras, será que os médicos que prescrevem homeopatia, também têm uma prática de prescrição que se afasta da melhor evidência científica e das boas práticas?

Para responder a esta questão, a equipa de Ben Goldacre consultou as bases de dados de prescrição dos Cuidados de Saúde Primários ingleses e identificou 644 unidades de saúde que, num período de 6 meses, tinham prescrito tratamentos homeopáticos. Depois, foi comparar quatro indicadores de qualidade de prescrição terapêutica e ainda dois indicadores de qualidade de desempenho (estes não se relacionavam com a prescrição de medicamentos) entre as 644 unidades de saúde que tinham prescrito homeopatia com as 6974 unidades de saúde que não tinham prescrito homeopatia.

Os resultados demonstram que a prescrição de homeopatia está associada um pior desempenho nos quatro indicadores de prescrição terapêutica. Também se observou um efeito de proporcionalidade entre os prescritores de homeopatia. Ou seja, quanto mais frequente a prescrição de homeopatia, pior a qualidade prescrição terapêutica. No fundo, os profissionais de saúde que prescrevem homeopatia, tendem a praticar uma medicina menos fundamentada na evidência científica de melhor qualidade e mais distante das boas práticas.

Porque é que este artigo é relevante?

Porque enquanto médicos, devemos todos zelar pela boa qualidade da medicina e zelar por uma medicina baseada na ciência. Este estudo revela como a prática da pseudociência, típica da homeopatia, pode “infetar” colegas nossos e como isso se associa à prática de uma medicina de pior qualidade. No fim da linha, os nossos pacientes serão os principais prejudicados. 

O que é a homeopatia?

Para responder a esta pergunta, vou usar como fonte o próprio artigo da equipa de Ben Goldacre. A homeopatia não tem qualquer fundamentação científica nem um mecanismo biológico plausível de funcionamento. Os medicamentos homeopáticos são desenvolvidos a partir da descoberta do agente causal. Ou seja, descobre-se uma substância que causa certo sintoma. Por exemplo, uma substância que causa náuseas. Depois, 1 gota dessa substância é diluída em 100 gotas de água, tipicamente por 30 diluições sequenciais, resultando numa solução de 1 para 10. Embora nenhuma molécula do princípio ativo permaneça depois de tantas diluições, os homeopatas afirmam que a água tem memória para o princípio ativo. Uma gota dessa água é então colocada num recipiente com comprimidos de lactose. Os homeopatas afirmam que os comprimidos recebem e transmitem as qualidades previamente memorizadas pela água. Entre cada diluição, os homeopatas afirmam que o frasco deve ser batido firmemente contra uma superfície de couro sobreposta em crina de cavalo, a fim de "fortalecer" a água.

Pois é, agora que sabe como são produzidos os comprimidos dos tratamentos homeopáticos, também fica a saber que um comprimido homeopático não passa de um comprimido de lactose que levou umas pancadas contra um pedaço de couro.

Finalmente, uma curiosidade...

Este artigo, agora publicado no Journal of the Royal Society of Medicine, havia sido submetido pelos autores para publicação na edição especial de Natal do BMJ, mas foi recusado com o argumento de que não seria suficientemente “engraçado” para entrar nessa edição. Ora vejam este tweet:



ben goldacre on Twitter

OH I SEE, BMJ WON'T PUBLISH OUR PAPER BUT THEY WILL WRITE A NEWS STORY ABOUT IT. (Kidding, they rejected it from Xmas BMJ issue on the grounds that it "wasn't very funny" among other things. We couldn't decide if we disagreed...). https://t.co/DOxSia0emm







Colegas tóxicos no trabalho

Carlos Martins - Tuesday, February 27, 2018




Há uns tempos, quando navegava pelas notícias num site de economia, deparei-me com o seguinte título “Colegas tóxicos no trabalho: sinais que os identificam”.

Sorri e, levado pela minha curiosidade, cliquei na hiperligação. O artigo refere-se sobretudo às relações entre colegas de trabalho nas empresas. O meu pensamento seguinte: e nas Unidades de Saúde, USF’s e outras? Num ambiente de trabalho em que a pressão é cada maior e induzida por múltiplos fatores, sendo reconhecidamente a classe médica um grupo com elevado risco de sofrer burnout, não existirá também o problema da presença de colegas tóxicos no local de trabalho?!

O artigo poderá não ter grande profundidade científica, mas partilho-o pela reflexão que, em todos nós, pode motivar.

 E refere então o artigo um conjunto de 12 sinais que poderão indicar estarmos perante um colega tóxico no trabalho:

  1. 1. São colegas mais competitivos do que o normal.
  2. 2. São colegas que o colocam sempre à prova. O diálogo com esses colegas facilmente lhe causa desconforto.
  3. 3. “Uma vítima nunca vem só” – Estes colegas causam dano em mais do que uma vítima no local de trabalho. 
  4. 4. Conversam demais, trabalham a menos – adoram a “fofoquice”.
  5. 5. Tentam distraí-lo. São procrastinadores e tentam contagiar a procrastinação. 
  6. 6. Recolhem os louros do seu trabalho. Este é dos sinais mais óbvios...
  7. 7. Tendem a colocá-lo de parte.
  8. 8. Adoram espalhar rumores e boatos. Faz parte da “fofoquice”.
  9. 9. Fazem-se passar por algo mais do que são.
  10. 10. Eles menosprezam-no socialmente.
  11. 11. Fazem com que os outros o tratem de maneira diferente (em consequência da tal “fofoquice”).
  12. 12. Eles são subtis.


Colegas tóxicos no trabalho: sinais que os identificam




A pseudociência à volta da análise que deteta cancro

Carlos Martins - Sunday, February 04, 2018


Fonte da imagem


“Sr. Dr., quero fazer aquela análise para saber se tenho cancro...” Este é um pedido que, com alguma frequência, se vai ouvindo na consulta... Para os nossos leitores não médicos, esclareço desde já que essa análise não existe. Assim como não existe uma doença única chamada cancro, porque aquilo que existe, é um muito variado tipo de cancros, de diferentes órgãos do corpo humano e em alguns órgãos, até existem vários tipos de cancro. Por exemplo, no caso do cancro da mama, diferentes tipos de cancro da mama, com estratégias de tratamento muito diferentes entre eles e com graus de agressividade muito diferentes. Existem até cancros que nunca provocariam doença, sofrimento ou morte das pessoas que os têm, uma situação frequente em certos tipos de cancro da próstata e da mama.

Há alguns dias atrás, vários meios de comunicação social deram grande destaque aos resultados de uma “nova análise ao sangue que ajuda a detetar oito tipos de cancro em fase precoce”. Os títulos, exageradamente animadores, correram mundo, como se pode ver por estes exemplos: Expresso, Diário de Notícias, The Guardian e ABC News. A fonte da notícia terá sido um estudo publicado na revista Science. As notícias falam-nos de uma “análise universal ao sangue”, uma “biopsia líquida”, que permitirá detetar 8 tipos de cancro, batizada com o pomposo nome “CancerSEEK”.

Em Medicina, é tão importante a transmissão de esperança às pessoas, como a correção com que se comunica a ciência em que a Medicina e as decisões médicas se fundamentam. Assim como é errado não transmitir qualquer esperança quando ela existe, também é errado transmitir falsas esperanças. O tipo de narrativa que foi usado nas notícias relativas ao “CancerSEEK” sofre de várias incorreções e seguiu uma linha populista (até se fala do “Santo Graal”!) que induz facilmente o cidadão comum em erro. Eis algumas dessas incorreções...

Começando pela ideia de que “quanto mais cedo um cancro é detetado, mais probabilidades há de ser tratado”. Ora, se isto pode ser verdade em certos tipos de cancro, noutros certamente não o será e o diagnóstico pode significar apenas um sofrimento mais prolongado. É o caso dos cancros para os quais não existe ainda tratamento eficaz disponível.  Por outro lado, à luz de múltiplos estudos científicos, sabemos hoje que a procura  incessante pelo diagnóstico precoce é o fator que mais contribui para o sobrediagnóstico e sobretratamento. O que é o sobrediagnóstico? É o diagnóstico dos tais cancros que nunca iriam provocar doença, sofrimento ou morte nas pessoas que os têm. E porque é que isto é importante? Porque, no presente, quando se deteta um cancro desse tipo não se consegue saber se é um sobrediagnóstico ou não, pelo que vão ser desnecessariamente tratadas todas essas pessoas, com franca perturbação da sua qualidade de vida.

Outra incorreção é a de se transmitir a ideia de que o CancerSEEK poderá vir a ter um “enorme impacto na taxa de mortalidade por cancro” e que poderá vir a ser útil como teste de rastreio em pessoas saudáveis. O estudo em que se fundamentou esta onda noticiosa, reporta apenas os resultados da aplicação do teste CancerSEEK em 1.005 pacientes com cancro não metastático, mas já clinicamente detetado, do ovário, fígado, estômago, pâncreas, esôfago, cólon e reto, pulmão ou mama. Sublinho, os pacientes em que o teste foi aplicado já tinham cancro! E mesmo nestes, os resultados não são muito famosos. As notícias dizem que o teste “conseguiu, em 70% dos casos, apurar a existência de cancros nos ovários, fígado, estômago, pâncreas, esófago, cólon, pulmão e mama antes de estes se espalharem”. Primeiro, isto quer dizer que em 30% dos casos o teste falhou tendo dado um resultado falso negativo. Segundo, quando vamos observar os resultados de forma mais detalhada (ver imagem), verificamos que as percentagens de deteção de cancro, nalguns tipos de cancro foi ainda bastante inferior. No caso do cancro da mama, inferior a 40%.


Então o que seria necessário para dispormos um teste magnífico de rastreio de cancro?! Seriam necessário pelo menos duas condições.

Primeira condição, seria necessário um estudo que incluísse pessoas saudáveis, sem sintomas de cancro, distribuídas aleatoriamente por dois grupos. Num desses grupos, as pessoas seriam submetidas ao rastreio com o teste CancerSEEK, no outro não fariam esse rastreio. E depois iriamos avaliar se, no grupo rastreado com o CancerSEEK haveria realmente um menor número de mortes em comparação com o grupo não rastreado. Caso se verificasse uma redução de mortalidade no grupo rastreado, então o teste obedeceria à primeira condição.

Segunda condição, seria necessário avaliar potenciais danos associados à aplicação do teste CancerSEEK. Seria necessário avaliar se o teste não induz um aumento significativo de diagnósticos. Se isso ocorrer, então estamos perante uma indução de um número significativo de sobrediagnósticos o que implicará sobretratamento com dano para a qualidade de vida de muitas pessoas. Uma outra forma de dano associado a este teste poderia ser o número de falsos positivos. Contudo, de acordo com o estudo publicado na Science o número de falsos positivos terá sido relativamente reduzido.

Ora, caro leitor, como vê, estamos muito longe de poder considerar o CancerSEEK como uma revolução no rastreio e diagnóstico de cancro, pois este tipo de estudos ainda não foi efetuado. Neste contexto, faça-se justiça ao último parágrafo da notícia do Expresso em que se cita Paul Pharoah, professor de epidemiologia da Universidade de Cambridge, segundo o qual: "Demonstrar que um teste consegue detetar cancros avançados não significa que esse mesmo teste venha a ser útil na deteção de cancros precoces, muito menos de cancros pré-sintomáticos." E diz-se ainda neste parágrafo: “é preciso mais investigação para apurar a verdadeira eficácia desta análise sanguínea”. Pena é que estas palavras sensatas surjam apenas no final da notícia e não mereçam o destaque de outras afirmações e títulos mais atrativos, mas também mais falaciosos.

Por Carlos Martins


A respeito deste artigo, um breve comentário no nosso podcast MGFamiliar...